quarta-feira, 13 de março de 2024

Um ponto preto no fundo do buraco

 A menina rodopiava no ar, segurando bem forte, com as duas mãos, as pontas do chicote. As palmas sangravam, cortadas pelo couro, mas ela não as largava, de jeito nenhum. Quanto mais conseguisse segurá-lo, menos vezes seu pai conseguiria acertá-lo nas costas de sua mãe, que se equilibrava à beira do buraco, cada vez mais propensa a cair lá dentro. Com um vestido preto que lhe grudava ao corpo, muito magro, Antonietta, além de tentar se proteger das lapas do chicote, ainda tentava proteger a filha, sua caçula branquinha, sua margaridinha, a única que tinha coragem de se lançar contra o pai, nessas situações, em que ele partia para cima dela, evitando que lhe batesse, ou, pelo menos, que batesse menos do que conseguiria, caso a menina não a socorresse. 

Não que as outras filhas também não fizessem isso, mas cada uma tinha um jeito de tentar amenizar a situação. E, claro, todas choravam e gritavam juntas, pedindo para o pai parar, pelo amor de Deus, de bater "na mãe".  E era o que ele acabava fazendo, pois não podia lutar contra cinco mulheres, ainda que meninas e muito pequenas, mas, naquele dia, a briga começara no meio da rua, não sei ao certo porquê. Talvez por causa da fuga de algum cavalo, quem sabe mal-amarrado pela mulher, que os levava à noite, ao piquete, para soltá-los, depois que Tião chegava da lida, muitas vezes, bebâdo, não tendo forças para tirá-los da carroça e ainda levá-los, ele mesmo, para o pasto. 

Tarefa que a mulher acabava assumindo, mesmo cansada, depois de um dia inteiro trabalhando na horta, fazendo canteiros, transplantando mudas, semeando outras espécies, aguando-as, ou mesmo, preparando-as, em várias bacias, que as meninas punham na cabeça, para ir vendê-las, na vizinhança. Ou seja: mãe e filhas trabalhavam o dia inteiro, todos os dias, para que todos pudessem comer, pois Sebastião já não fazia mais nem para suas pingas, o que dizer para pôr o sustento em casa. Melhor mesmo era não contar mais com ele, e era isso que Antonietta fazia, plantando e colhendo alfaces, repolhos, pepinos, tomates, couve-flores, chuchus, abobrinhas, entre outras hortaliças e legumes, cujas vendas garantiu o sustento de sua familia durante muitos anos, até que as meninas tiveram idade para começar a trabalhar em casas de famílias, como domésticas ou babás. 

Naquele dia, uma ira avassaladora tomara conta de Sebastião, e ele partira pra cima da mulher decidido a matá-la, não importando onde seu chicote pegasse: se no rosto, nas pernas, nas costas, ou em qualquer outro lugar do seu corpo. O buraco em volta do qual ela e a filha se equilibravam tinha sido escavado pela Companhia de Saneamento da cidade, cujos canos estavam trocando. Como o serviço não havia sido terminado, eles o deixaram aberto e, agora, o lugar poderia se tornar o túmulo de mãe e filha. A menina era a caçula das cinco filhas do casal, a última, antes do filho homem que eles tanto desejaram, que, nessa época devia ter uns três anos, e era o único que não estava ali, assistindo à cena aterradora. E pior: devia estar em casa, que ficava no meio do quarteirão, sozinho, pois todos haviam descido para a rua, quando ouviram os primeiros gritos de Antonietta.

Inconformada com aquele horror, Manuelitta, a mais velha, decidiu dar cabo de tudo aquilo. E só havia um jeito: chamar a polícia. Assim, enquanto Suca continuava pendurada no cabo do relho, evitando as chicotadas em sua mãe, Manuelitta, chorando muito alto, começou a subir a rua, correndo, em direção ao posto telefônico, que ficava há uns dez quarteirões dali, a fim de chamar alguma viatura da PM e botar fim àquela atrocidade do pai. Enquanto isso,  a fúria de Tião só aumentava: ele parecia dominado por uma ira assassina, e não parava de gritar e xingar a mulher, enquanto tentava lhe bater, o que, de fato, não conseguia, pois a filha pesava-lhe nas pontas do chicote. Machucadas mesmo estavam suas mãozinhas,  cortadas pelo couro, e vertendo muito sangue.  

O carro de polícia chegou rápido ao local da briga. Os soldados desceram depressa  e correram para segurar Tião, que ainda estava endiabrado, já lutando com a própria filha, para tentar tirá-la do seu caminho, o que ele não conseguia, pois a menina também parecia dotada de uma força que ela, de fato, não possuía, decidida a não deixar que a mãe apanhasse ou que o pai conseguisse bater-lhe; nessa altura dos acontecimentos, a mulher caíra dentro do buraco. De cima, só se via um ponto preto lá dentro, que era o seu vestido, um dos poucos que tinha e que ainda lhe servia, depois que começara a emagrecer tanto, tomada pela depressão que lhe invadia o corpo e lhe tirava toda a vontade de viver. Não tinha mais fome, comia cada vez menos, e os ossos já lhe apareciam nas pontas dos joelhos, cotovelos, flancos e ombros. O rosto estava cada vez mais encovado, e como arrancara os dentes aos quarenta anos, trocando-os por dentadura, prática comum à época, aparentava ter muito mais idade do que de fato, tinha. 

Os policiais algemaram Tião sem mais delongas e o enfiaram dentro traseira do Fusca preto, o tipo de automóvel que a PM usava naquelas anos 70, os pesados anos dominados pela ditadura militar que assombrou o Brasil, país onde essa estória se passa desde os anos 50. Os vizinhos correram socorrer Antonietta, tentar tirá-la do buraco, enquanto isso, alguém chamou uma ambulância, que também não demoru muito a chegar. Nesse ínterim, a esquina onde tudo se passara já reunia uma multidão, pois a falta do que fazer, para a maioria de donas de casa, e homens desempregados, depois que vieram da zona rural para as cidades, obrigava-os a ficarem de olho em algo "fora do comum" que acontecesse nas imediações e que lhes chamasse a atenção; assim, tinham um motivo para sair de suas rotinas modorrentas e, invariavelmente, sem nenhuma perspectiva de um propósito que lhes servisse de alento. 

Qdo a ambulância chegou, encontrou mãe e filha debruçadas uma sobre a outra, lá no fundo do buraco, e já quase imersas por uma fina linha dágua que restara do córrego canalizado, e que ameaçava cobrí-las, delicadamente, como um manto acetinado, fluído, que ora se movia para lá e para cá, distorcendo-lhes as imagens, para quem as via de cima, dando a impressão que estavam se dissolvendo na água,  entrando em simbiose com a natureza, tomando-lhes a forma de rio, assumindo-lhes os movimentos, misturando-se com o fundo de areia bem fina e branca, como se fossem desaparecer para sempre, abraçadas, únidas naquele abraço infinito, causadaloso, embaraçadas uma dentro da outra, de forma que não se podia saber mais quem era a mãe, quem era a filha. As pessoas se achegavam à beira do buraco, brigavam por mais espaço, pois queriam ver melhor, as duas abraçadas lá embaixo, mas como não entendiam nada, acabavam desistindo, saindo de fininho, com um ar de decepção em suas caras; outras, de interrogação. Talvez quisessem ver sangue, corpos despedaçados, pedaços espalhados pela encosta, e não uma flor negra resultado do abraço de mãe e filha, feito de puro amor, puro desejo de salvação, de não ver uma única marca no corpo da mãe, causada por aquele chicote insano; de ter certeza que ela nãaaaaaaaaaaaaaaaaoooo  sentiria dor nenhuma, se o chicote não lhe alcançasse com sua pretensão de corte ou lanhadura na pele; Sueli fora firme na sua decisão de proteger a mãe, pendurando-se nas pontas do chicote e, como era muito magrinha e ainda pequena, devia ter por volta de uns cinco anos, não fora difícil para o pai erguê-la do chão e rodopiá-la, várias vezes, certo de que ela largaria ou escorregaria das pontas do relho, mas, triste ilusão, Sebastião; a menina fora uma heroína, disseram os soldados que vieram prendê-lo, e também os enfermeiros, ao chegarem com elas em duas macas, assim que conseguiram tirá-las do buraco. Ambas estavam lúcidas, conscientes, mas muiiiiiiito cansadas, disseram, logo enfiandas no rabecão da Santa Casa de Misericórdia.  



segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Eva mordeu a maçã

 Quando eu me casei com Antonio, ainda não tinha nem trinta anos, embora já fosse viúva e tivesse um filho de cinco anos para criar, meu doce Quinzinho. Nós nos conhecemos numa praça de Marília, num domingo à noite, após a missa das seis horas. Eu havia sido despejada por falta do pagamento do aluguel da casa onde morava, e estava desesperada, sem saber o que fazer ou para onde ir, quando apareceu aquele rapaz forte, com jeito de trabalhador rural, brincando com o meu filho. Ele pagou uma maçã do amor para o menino, que,  amoroso como era, mesmo estando com muita fome, Quinzinho trouxe a maçã para mim. Eu vi aquilo e já lhe dei uma bronca: "o que é isso, moleque, quantas vezes eu tenho que te falar que não se pode aceitar nada de estranhos?". Mas, apesar de sua pouca idade, meu filho não se deixava dobrar facilmente. Para tudo, ele tinha uma resposta ou explicação, e sempre muito plausível: "Mamãe, deixa de ser orgulhosa. O moço só está sendo gentil e a senhora sempre me ensinou a ser gentil com os outros, também. Por isso, não vi mal nenhum em aceitar a maçã que ele me ofereceu. Toma vai, dá uma mordida", falou, insistindo para que eu comesse um pedaço da fruta. Eu acho que me senti como a Eva no paraíso, sendo tentada pela serpente, para comer a maçã.  era muiiiito convincente, com aqueles olhos azuis imensos e um sorriso tão lindo que mais parecia um anjo, o que tornava impossível lhe dizer não"!!! Pronto. Tinha sido picada pelo veneno. Abracei Quinzinho, colocando-o sobre os meus joelhos, enquanto comíamos juntos, daquela maçã deliciosa, que era a única refeição que estávamos tendo, naquele dia. 

Antonio acompanhara toda a cena, olhando-nos sentado em um banco, do outro lado da rua, mas bem na nossa frente. Não sei se ele ouviu toda a conversa, mas assim que acabamos de comer, ele surgiu com dois pacotinhos de pipoca, um em cada mão: "olha o que eu trouxe aqui, pipoca doce, vocês gostam?". Quinzinho abriu uns olhos imensos, quase arrancando um saquinho das mãos dele; e eu, não consegui esconder que meia maçã não tinha sido suficiente para matar minha fome. 

Depois de comermos meio pacote cada um, o moço sentou-se no banco ao nosso lado:  "Eu me chamo Antonio", disse-me, estendendo-me uma das mãos. "E você, qual é o seu nome?" De novo, não tive escolha, senão responder-lhe: " Juventina, mas todos me chamam de Tina", disse-lhe,  entregando até meu apelido. "Então Tina, me conta tudo sobre você e o seu filho: porquê voces estão sozinhos aqui nesta praça? Não me parece que vieram à missa ou estejam passeando..."observou,  olhando-me direto nos olhos. Eu levantei a cabeça e também o encarei. Foi quando percebi que ele era bem bonito. Branco, mas queimado de sol, o cabelo muito preto e ondeado, penteado para cima, costeletas imensas e um bigode bem aparado. Os olhos eram azuis, como os do meu finado esposo. Ele mais se parecia com um pai, do que com um homem que estivesse interessado numa mulher...e acho que por isso que estava ali conosco, mas eu ainda não tinha certeza. Sem saber o que fazer, resolvi confiar nele, contando-lhe nossa estória. 

Comecei falando-lhe que eu tinha sido casada durante seis anos e ficado viúva a pouco mais de seis meses. Meu marido trabalhava numa fábrica de fogos de artifício. E, para meu desespero diário, eu vivia esperando uma notícia triste, pois seu serviço era muito perigoso. Para piorar, os donos da fábrica não davam nenhuma assistência aos trabalhadores que sofriam constantes acidentes como amputações, ou mortes, deixando suas famílias desamparadas. É exatamente esse o nosso caso:  meu marido havia morrido numa explosão de fogos, numa noite em que ele já estava muito cansado, pois trabalhara mais de 24 horas seguidas, para entregar à tempo, os fogos encomendados pela Igreja que iria fazer uma grande festa para Nossa Senhora Desatadora dos Nós, naquele final de semana. A encomenda estava atrasada e ele resolveu virar a noite, junto com alguns colegas, para não deixar o pároco na mão, que, aliás, tinha o hábito de ir -- pessoalmente --  à fábrica, acompanhar a produção dos fogos, como se fosse um menino brincando com algo proibido. Mal sabia ele do risco de vida que corria".  

"Derrepente ouvimos um grande estrondo e lá se foi o padre pelos ares, junto com uma enorme explosão que levou junto não só o meu marido, mas todos os outros empregados que estavam com ele, além da própria fábrica que foi inteirinha queimada. Quando ouvi o barulho, meu coração que vivia apertado, se contraiu mais ainda. Corri para o portão e ainda pude ver os rolos de fumaça preta que subiam para os céus, além da sucessiva explosão de fogos que causaram uma linda pirotecnia nos ares, comemorando -- talvez -- o fim daquele trabalho ingrato que mal dava para comprar comida para nossa pequena família. 

Não recebi nem as cinzas do corpo dele, quanto mais alguma indenização. Tanto eu e meu filho, como as outras famílias,  ficamos à deriva, sem saber o que fazer, pois as contas não paravam de chegar, é claro. Eu consegui pagá-las durante seis meses, com o pouco dinheiro que havia economizado para alguma emergência, mas, naquele mês eu atrasara o pagamento do aluguel e o dono não quis saber de conversa.  Ele entrou na casa, junto com uns capangas, que foram logo encaixotando nossas coisas e nos despejando da lugar. Deixaram-nos na rua, literalmente, pois até a chave da casa trocaram....bom, eu deixei os poucos móveis que tinha, amontoados junto com as caixas, na calçada, ao lado do portão -- rezando para que ninguém os roubasse -- , e vim para a Praça com o Quinzinho, para distraí-lo, enquanto pensava numa solução. 

Antonio ficara quieto, durante todo o tempo em que lhe contei minha pequena tragédia, ouvindo-me com bastante atenção. Quando terminei, senti o meu rosto molhado pelas lágrimas. Ele tirou um lenço, muito branco e perfumado do bolso, e começou a enxugá-las com muita delicadeza. Depois de alguns segundos ele me fêz um convite inesperado e à queima-roupa: "bem, se vocês não tem mais casa, nem para onde ir, que tal irem comigo para a fazenda onde eu moro, Juventina? ". Eu não esperava de jeito nenhum por aquela proposta e fiquei toda sem jeito, incrédula. Foi quando Quinzinho, muito esperto, que ouvira tudo, em silêncio, abraçado comigo, disparou: "Mãe, eu vou adorar morar numa fazenda. Vamos, mãe?". "Fica quieto, menino", beliscando-o, de leve, num dos braços. "Você nem sabe o que está falando. Imagine, morar no mato", falei com certo desdém, emendando: "E a escola"? "No sítio, não tem escola, não é mesmo, Antonio?". E ele respondeu de pronto: "Aí é que você se engana: temos, sim, uma escola na fazenda, onde a própria mulher do dono e sua filha mais velha, ensinam a ler e escrever, tanto crianças quanto jovens e, até,  adultos. Tenho certeza que o Quinzinho vai se dar muito bem com a molecada de lá, tão espertas como ele". 

A conclusão dessa estória vocês já leram no capítulo tal, onde Antonio deu a sua versão. De fato, naquela noite ele viera passear na pracinha, atrás de uma jovem que estivesse querendo se casar, tanto quanto ele, e arrumou uma mulher viúva e já com um filho à tiracolo. Ele me convenceu a montar na sua garupa, junto com o menino, me prometendo, antes, que jamais tentaria qualquer intimidade comigo. Disse ainda que já estava passando da idade de se casar, sempre trabalhando, e que agora, tinha resolvido pensar nisso. Que poderíamos namorar por um tempo, e se desse certo, nos casaríamos sem mais delongas. Tudo dentro da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois ele era um homem temente a Deus, e fazia questão de ter a sua vida dentro dos preceitos da Nossa Santa Igreja. Ao ouvir tudo isso, fiquei mais tranquila, ao ponto de tomar a decisão de ir com ele, mas meu coração quase saía pela boca, de tanta insegurança, afinal, estava levando "meu filho" a embarcar nessa aventura. Assim que chegamos à fazenda, quando tive uma oportunidade, procurei um cantinho para agradecer a Santo Antonio, pois no dia de seu aniversário, ele me permitira conhecer um homem chamado Antonio, que me salvou de dormir na rua, junto com meu Quinzinho, mudando todo o meu destino. 

domingo, 14 de janeiro de 2024

Quem era o velho da rede?

 A luz das lamparinas bruxuleavam sobre a mesa, onde eu, Tião e o velho que ele trouxera na garupa, jantávamos, devagarinho, nossa sopa de mandioca com costelas, cremosa e  fumegante. Ninguém dizia uma palavra. Só o barulho das bocas engolindo a comida. O velho não tinha dentes, por isso, em vez de comer, ele chupava o caldo, fazendo um barulho meio nojento, mas tudo bem, eu já estava acostumada com coisas bem piores. Só continuava ansiosa por uma explicação. Mas tive que conter minha curiosidade, até irmos nos deitar, quando Sebastião, finalmente, me disse que o velho, que agora repousava no quarto ao lado, era seu pai. Eu levei um susto, mas disfarcei, abaixando o rosto. "Seu pai"?, perguntei-lhe. "Como assim"? "De onde ele vem"?; "Porquê apareceu por aqui, assim, derrepente?";  as perguntas foram saindo da minha boca, aos borbotões, até  que Tião me abraçou, e me pediu calma. "Ele vai ter que ficar um tempo morando aqui com a gente, pois ele e minha mãe brigaram, e ela foi morar com meu irmão Nico, em Araçatuba¨.  Nico era o irmão mais velho, por parte de mãe, filho do primeiro marido de Juventina, minha sogra, que eu ainda não conhecera.  

Alguns dias depois eu descobriria, meio por acaso, ouvindo uns fiapos de conversa aqui e acolá, entre eles, que a estória não era bem essa. Pelo que pude entender, todos eles -- os irmãos -- incluindo a mãe e o pai, estavam fugindo da polícia. Um dos irmãos, o Joaquim, cujo apelido era Jicão, tinha caído em desgraça, ou seja, tinha sido preso, e alcaguetado todo mundo. Mais uma vez, como Tião já me contara, cada um fugia para uma região do estado, para confundir as autoridades, despistando-as. E, dessa vez, pretendiam usar nossa casa como esconderijo.  Por isso,  mandaram o velho na frente, para avaliar com o filho, se o lugar era seguro e se poderiam vir se esconder ali -- "na nossa casa" -- ,  que nem nossa era, mas da fazenda, e ai se o dono soubesse que estávamos acobertando criminosos e foragidos. Mas meu marido não tinha saída: eram seus irmãos, sua família, a única que tinha, e ele não sabia falar-lhes não. Não demorou muito para eu perceber que ele sofria uma espécie de chantagem deles, quando se viam nesses apuros. 

Nossa rotina, no entanto, nada mudara, com a chegada do velho. De manhãzinha, Sebastião saía para a lida, e eu me dividia entre os cuidados com nossa Manuelita , e os afazeres da casa, do quintal e dos animais.  Aparentemente, estava tudo normal. Meu sogro passava o dia entre o bule de café, sobre o fogão, e a rede, onde se deitava e fumava, com o olhar perdido na estrada. Manuelita era sua neta, mas ele não demonstrara o menor interesse por ela. Nem sequer a pegou no colo, nenhuma vez, nos dias em que ficou por ali, como um animal acuado. 

Sebastião não comentava nada comigo, mas eu sentia nossos corações apertados. O cheiro do mêdo da polícia bater em nossa porta, ia ficando cada vez mais forte. Numa outra noite, após o jantar, Sebastião e o velho foram tirar um dedo de prosa na varanda, enquanto eu aproveitava para lavar a louça e preparar a mamadeira da Manuelita que, embora dormisse tranquila,  sempre acordava berrando, de fome. Eita menina esganada. Vi, pela fresta da porta, que ficara entreaberta,  quando meu marido deitou na rede, e o velho puxou uma cadeira, bem próximo dele, enrolando seu cigarro de palha.  Tião  começou a fazer o mesmo, como se imitasse os gestos do pai. Era incrível a semelhança entre eles: apenas a idade os diferenciava. 

Então eu ouvi, claramente, o velho dizendo, com seu sotaque espanholado: "o Joãozão matou a mulher e a jogou no rio Paranapanema, com uma pedra amarrada no pescoço, para sumir nas àguas, ser devorada pelos peixes...", contou, entredentes.  Meu  corpo inteiro estremeceu, e quase fui ao chão, não querendo acreditar no que tinha ouvido; larguei copos e pratos na bacia, e dei uns tres passos para a frente, colando meu corpo à porta, para poder escutar melhor, a conversa. Eles falavam muito baixo, é claro, quase sussurravam, mas deu parabéns entender quando o velho acrescentou: "depois do crime o Joãozão fugiu para as fazendas próximas, até vir cair na nossa casa em Tupã, se arranchando lá para não ser pego.  Mas o Jicão deu com a língua nos dentes, quando foi prêso lá em Irapuru, por causa da "parecença" entre eles. Disseram que ficou uma semana na cadeia, sem comida nem àgua; só apanhando, até falar sobre seu parentesco com o tal bandido que buscavam. Aí, soltaram ele, mas o bestalhão resolveu pernoitar lá em casa, no caminho de volta. 

 Apareceu quando o sol já estava bem amarelinho, no céu, igual a um ovo frito, com as nuvens espalhadas em volta, como se fossem sua clara branca. Infelizmente, as notícias não eram boas. Ele tinha sido solto em troca de informações sobre o paradeiro do Joãozão. Não tivemos escolha. Fugimos todos de madrugada, cada um para um lado, e eu vim pará cá, Nenê. (Nenê era o apelido do meu marido, entre a família dele). Me perdoe, me perdoe. Sei que você é o único trabalhador sério, de todos os meus filhos, mas eles também têm o meu sangue. É uma descendência amaldiçoada, eu sei, mas é o que Deus deu pará mim, assim como deu Caim e Abel para Adão. Adão não teve sorte com os filhos. E eu também não. O mundo já começou desgraçado, mesmo", falou, meio choroso. 

Sebastião não comentou nada. A lua cheia já ia alta  no céu, e ele resolveu entrar. Apagou os lampiões e abraçou o pai, trazendo-o para dentro. Ele sentia pena do pai, mas sabia que estava arriscando sua vida, a minha e a de nossa bebê, se concordasse em receber os irmãos em nossa casa. Por isso, não respondeu nada. Era seu jeito de ir ganhando tempo. Quem sabe os irmãos decidissem buscar outras paragens,enquanto isso. E, graças a Deus, foi o que aconteceu. Ninguém apareceu, o velho se despediu depois de alguns dias, montado em uma mula preta, bem arriada, que Sebastião "emprestou" para ele, mas, é claro, sabendo que nunca mais a veria de volta. 

Depois de algum tempo, soubemos por um parente distante, que eles teriam ido embora para os cafundós do Paraná. Sebastião me contou que essa era a estratégia deles, para sobreviverem, sem serem presos, após algum delito grave: buscavam uma chácara ou sítio para tomar conta, onde ficavam escondidos por meses, fazendo todo o serviço da roça, cuidando dos animais, enquanto planejavam outro roubo. Ou seja: a família do meu marido era uma verdadeira quadrilha, e eu estava estupefata de descobrir tudo isso; mas, tarde demais para fazer qualquer coisa; e quando ameacei largar Sebastião e voltar para a casa dos meus pais, sua ira veio à tona. Ele me agarrou, me dando uns safanões, gritando que eu não era nem louca de fazer aquilo. E ainda me ameaçou: " ai de você, se me largar, Antonietta. Eu busco os meus irmãos e vamos juntos lá no sítio dos seus pais. Não vai sobrar ninguém para contar essa estória.". 

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Capítulo 23 - Pés de cafés vestidos de noivas

 Com a chegada do inverno, cinco meses depois de aportarmos na nova fazenda, a paisagem era outra. O cafezal ostentava pencas de florzinhas brancas e miúdas, exibindo os galhos de cada planta, dando a impressão de milhares de pés-de-noivas vestidas para casar;  ofertando  seus mínimos bouquets para o céu límpido e muito azul de junho. Mais quatro meses e já estaríamos entrando na estação da colheita, com os frutos vermelhinhos, parecidos com cerejas maduras. Até lá, o trabalho era rezar para que não houvesse nenhuma geada, o que mataria as flores e, consequentemente, a produção do café. E, enquanto isso, manter limpas as carreiras entre cada linha,  onde o mato, impiedoso, crescia sem dó. Boias-frias, empregados da fazenda, e contratados de outras cidades, pegavam o serviço por empreita. A cada manhã, uns cincoenta homens se dividiam entre os eitos do cafezal, e passavam o dia descendo a enxada em cada praga ou folha verde que encontravam, até o entardecer. 

Ao pôr-do-sol, subiam, cansados, cada carreira, até se encontrarem em volta do poço onde matavam a sede com baldes de água fresquinha, antes de pularem na carroceria do velho Ford que os levaria de volta para casa. Os que tinham mais sorte, moravam na própria fazenda -- eram os meeiros, que trabalhavam mediante uma parte na venda do café, após a colheita -- e podiam chegar em casa mais cedo. Sebastião vinha junto com eles da roça, esperava todos embarcarem ou tomarem o caminho da colônia, para só depois vir para casa. Era sempre o primeiro a chegar na entrada do cafezal, e o último a sair. Seu trabalho era administrar a produção, desde antes da florada, com a limpeza dos eitos, até a colheita, passando pela secagem dos frutos no terreiro, o ensaque e a guarda nas tulhas, até que os compradores viessem levá-los para os centros de distribuição, em São Paulo, ou para o Porto de Santos, de onde eram exportados. 

Naquele dia, uma sexta-feira atípica, muito quente para a época do ano, Sebastião estava mais agitado que de costume. Impaciente com os peões, assim que os viu acomodados na carroceria do caminhão, ou pegando a estrada de volta à colônia, montou seu cavalo baio, apenas com um pelego, e saiu em disparada. Eu estava na janela da varanda, olhando para o horizonte e terminando de crochetar o sapatinho branco que Manuela usaria no seu batismo, no domingo de manhã, quando o vi passando, à galope, lá embaixo, na estradinha, e ultrapassar a porteira. O sol ainda estava alto, apesar da hora, cujos ponteiros já passavam das seis, há algum tempo. Meu radinho de pilha estava sintonizado na transmissão da Ave Maria, hábito que eu herdara de minha mãe, e repetia-o, todos os dias, durante a semana. E nunca me esquecia de colocar-lhe ao lado, um copo de água para ser benzida pelo padre Donizetti, durante a oração do ofertório. Beber essa àgua benta era um ritual desde que me conhecia por gente.  

Inquieta com sua saída repentina, sem vir até em casa para me avisar, me voltei para a janela, na esperança de vê-lo retornando; e não demorou muito, para que sua imagem apontasse no alto da estrada, já de volta; porém, algo estranho me chamou a atenção: ele trazia alguém montado em sua garupa. A poeira que o cavalo levantava com seu galope obnubilava a cena e não dava para ver direito se era homem ou mulher que ele carregava atrás de si, segurando-lhe a cintura. Só quando eles entraram na fazenda e começaram a subir em direção à colônia de casas dos meeiros, é que eu comecei a enxergar melhor quem vinha montado atrás de Sebastião: era um senhor, já bastante encurvado pelos anos, embora o chapéu de palha enfiado na cabeça não lhe deixasse à mostra o rosto. Mas, pelas roupas, estava claro que era, sim, um homem já bem entrado em anos. Quem seria aquela figura? Eu não fazia a menor ideia e o jeito era esperá-los chegar à porta de casa, para satisfazer minha curiosidade.

Não demorou nem dez minutos, e já ouvi o trote do cavalo, com passadas cada vez mais estreitas, até que parou na porta de casa. Para minha surpresa, o velhinho saltou da garupa, ligeiro como um gato-do-mato, e eu confesso que me assustei com tanta destreza. Sebastião apeou em seguida, amarrando o cavalo no portão, onde sempre havia um balde cheio de água limpa para matar a sede do bicho e, ao lado, um cocho com cana fresquinha, que eu tinha picado no final da tarde, como fazia todos os dias. Se tinha uma coisa que era sagrada para o meu marido, era o cuidado com os animais. Ele parecia se entender com eles só pelo olhar, numa relação de cumplicidade que era difícil vê-lo ter com as pessoas, creio que nem comigo. Por isso, ai de mim, se ele chegasse e não encontrasse a água fresca e a cana picada, ou um punhado de capim, para que o cavalo pudesse se banquetear, antes de sair aos pinotes, para o piquete. Bom, mas eu já estou perdendo o fio da meada, aqui, quando o que me interessava mesmo era saber quem era o senhor que o acompanhara até em casa. 

Enquanto ficara divagando o trato com o cavalo, Sebastião e o homem-da-garupa  tinham me deixado ali fora, sem entender nada, e entrado ambos na varanda da cozinha. O velho tirara o chapéu deixando seu rosto à mostra, além de sua cabeleira cheia e muito branca. Quando meus olhos cruzaram com os dele, senti que já o conhecia: na verdade, eram os mesmos olhos verdes, enormes, como duas azeitonas, iguaizinhos aos do meu marido. Obvio que era algum parente seu. Mas quem? Meu marido passara por mim, ao lado do cocho, sem me apresentá-lo. Ambos entraram para a casa, e eu fui atrás deles. O velhinho mal tirara as botas, e se jogara na rede, colocando o chapéu no rosto, como quem fosse dar um cochilo. Sebastião fizera quase o mesmo: arrancara botas e chapéu, dobrara as pernas da calça, ficando de pés-no-chão, enquanto me pedia que lhe fervesse àguas para um escalda-pés. Pronto. Eu respirei fundo, e fui para o fogão, onde já adiantara a janta, deixando as panelas sobre ele, e pegando uma chaleira cheia de água quente, que eu fazia questão de deixá-la ali, já preparada para esse pedido do meu marido, embora ficasse morrendo de vontade de fazer o mesmo, pois minhas pernas estavam bastante inchadas, de tanto ficar em pé, na lida com a casa e os animais, o dia inteiro, mas nunca tinha coragem de fazê-lo, achando que fosse cometer alguma heresia, que mulher era feita para aguentar o tranco, sem reclamar nunca, sem nunca pensar em si mesma, mas isso já é outra estória. 

Peguei a chaleira e levei-a ao encontro dele, que já estava sentado em frente à bacia, esperando pela água. Despejei-a sobre a bacia e ele foi mergulhando os pés, bem devagarinho, para sentir-lhe a temperatura. Com o olhar de encontro ao meu, acenou com a cabeça, me confirmando que estava boa e era suficiente. Só queria relaxar um pouco, mesmo, e tirar o chulé causado pelo suor das botas calçadas o dia inteiro. Seus pés eram muito brancos e bonitos, as unhas sempre cortadas, não tinham uma mancha ou bolha. Eu olhava para os meus e sentia vergonha: sempre com as unhas sujas de  lama da horta, fedendo ao adubo que eu mesma fazia, com a mistura do esterco de vacas com os das galinhas, para impulsionar o crescimento das verduras e legumes que eram a base da nossa alimentação. Sem isso, provavelmente, passariamos fome, pois o dinheiro que Sebastião trazia para casa no final do mês era muito pouco para comprar a lista de mantimentos para um mês inteiro e, ainda, produtos para os animais e a própria roça.  Embora fertilizantes ou defensivos fossem obrigações do patrão, nem sempre isso vinha na quantidade que o cafezal exigia, obrigando-nos a comprá-los, dizendo que no final da colheita, pagaria esses gastos extras, o que, quase sempre, fingia esquecimento.  

Enquanto isso,  o velho se enrolara na rede, mais parecido com um defunto fresco, desses que são carregados durante o velório, sem nem um caixão para fazer-se-lhes de morada, com destino à cova fria. Senti um arrepio subir dos pés ao pescoço, percorrendo-me toda a espinha. Quem seria aquela figura estranha? Será que finalmente Tião iria me dar alguma explicação? Me contar quem era o velho que dormia na rede? 


domingo, 19 de fevereiro de 2023

Capítulo 21 - Trapos e trecos na estrada, outra vez

 Sebastião fora contratado para empreitar uma nova lavoura de café, numa cidade próxima, Pompéia, há 30 kms de Marília, e, com apenas poucos dias após ter dado à luz de minha filha Maria, mais uma vez tive que ajeitar os trapos e trecos, poucos, mas os únicos que tinha, para fazermos nova mudança. Quando o sol vinha chegando, translúcido, criando uma névoa sobre os cafezais, já apontávamos nossa carroça na estrada, com os poucos móveis e as trouxas todas. Eu ainda estava imensa, após a gravidez, amamentando a minha filha no braço, enquanto Tião tocava o cavalo. Não dissemos uma palavra durante todo o trajeto, que demorou quase um dia inteiro, pois a carroça pesava muito e a égua baia já estava entrada em anos, para suportar tanto peso. Por outro lado, depois do acidente que havíamos sofrido, que custara a vida do nosso Getulinho, tomávamos o maior cuidado, agora, tanto para subir quanto para descer desse transporte, pois sabíamos que não eram nada seguros. Além disso, com a criança no colo, que queria mamar o tempo inteiro, tínhamos que fazer cada movimento  muito devagar, para evitar uma nova tragédia, e, nisso, tenho que confessar Tião Mirante era atencioso.  A menina parecia uma boneca, de tão linda, com imensos olhos verdes, como os dele, que, claro,  estava apaixonado por ela. 

Quando, exaustos.  chegamos a nova morada, mais uma decepção: nem de longe se parecia com a casa que havíamos deixado para trás, destinada à residência dos administradores da fazenda, uma belíssima casa de alvenaria, com alpendres, janelas e portas largas, três quartos, uma sala com copa, imensas, e uma cozinha maior ainda. Nem tínhamos móveis para tantos ambientes. Já a nova casa, na verdade, era muito velha, embora de alvenaria, também, era uma construção  simples, de apenas duas àguas, com dois quartos de um lado, sala e cozinha do outro, sem nenhuma varanda para refrescar os cômodos. Quando entramos na casa, eu fiquei em estado de choque: ela ficara desocupada durante muito tempo e tinha servido de chiqueiro para porcos. O chão era de terra batida e estava todo fuçado e revirado, ainda com um cheiro horrível do estrume dos animais. Quando olhei aquilo, não consegui conter as lágrimas, que rolaram livres pelo meu rosto. Nem sabia o que dizer, se é que valeria a pena dizer alguma coisa. Se não tomasse cuidado, dependendo do que falasse ainda poderia levar um tapão no meio da orelha, pois meu marido era um homem bipolar, às vezes, muito carinhoso, e em outras,  bruto, irrascível, selvagem. Era difícil identificar quando estava num momento ou em outro, então, eu aprendera a ler sua alma por meio das circunstâncias. Naquele caso, ele também estava decepcionado com o estado da casa, que não lhe fora informado pelo contratante da fazenda. 

Ele já estava arrependido da besteira que fizera, mas jamais admitiria isso. Era dessas pessoas que preferiria morrer a ter que voltar atrás em sua palavra, mesmo que isso custasse o conforto de sua família. Mesmo que tivesse que ouvir sua filha gritando de fome, pois o meu leite era fraco e pouco, e isso lhe obrigasse a deixar-nos encostadas numa parede, naquele chão horrível, enquanto ele saía para procurar alguma lenha seca que servisse para acender o fogão, de modo que nos fosse possível preparar a mamadeira da nossa bebezinha. Enquanto o esperávamos, nós duas cochilamos,  muito cansadas da viagem, com fome, encostadas à parede da cozinha. 

Derrepente ouvi os roncos de um animal vindo em nossa direção, e mal tive tempo de apertar minha filha no colo, quando percebi que quem roncava daquele jeito, nada mais era que uma mamãe-porca, voltando do passeio com seus leitõezinhos, para a sua casa, que, no caso, agora seria a minha cozinha. Apesar da situação inusitada, ela também não deixava de ser cômica, e eu ri, sozinha. Será que teríamos que conviver em harmonia com a porquinha recém-parida, como eu? Sem se importar comigo, apesar de seu tamanho colossal para um suíno, ela passou pela porta, seguida de seus filhotes, e deitou-se ao do lado oposto aonde estávamos, com a barriga e as tetas duras, de tanto leite, para cima, para onde cada filhote, seis ao todo, correram com as boquinhas abertas, àvidos, disputando cada uma para si. 

Com esse barulho todo causado pela chegada dos porcos, Manuela acordou e pôs-se a chorar, de novo. Berrar, na verdade, clamando por comida. Foi quando tive a idéia mais estapafúrdia da minha vida -- mas o que uma mãe não faz para matar a fome de um filho -- peguei a menina, embrulhei-a bem em seus cueiros, me levantei e fui andando, bem devagarinho, até chegar perto da porca. Me abaixei, com todo o cuidado do mundo, procurei um mamilo livre, e coloquei minha filha com a boquinha sobre ele, morrendo de medo que ela fosse rejeitada pela mamãe-porca. Para minha surpresa, e com a graça de Nossa Senhora das Mães Desamparadas, minha filha começou a sorver rápido o teto suíno, sem que o animal fizesse qualquer gesto de incômodo, permitindo que seu precioso leite também alimentasse um ser humano. Eu mal podia acreditar no que meus olhos viam, maravilhada.  Permaneci assim, embevecida com a cena, cheia de gratidão por aquele animal que viera dos céus para alimentar a minha filha.. Essa, então, não se intimidava com nada. Sem ter  a menor idéia de que o teto não era de sua mãe, mas de uma porrrrrrrrrca, sugava-o com determinação, pois o propósito era encher sua barriguinha, não dando a mínima para a origem do leite. Tão pequenina, é obvio que não fazia a menor idéia da diferença entre uma teta  e outra. Quando Sebastião chegou com a lenha, nós já tínhamos feito o "fogo". Ele arregalou os olhos, incrédulo, ao se deparar com a cena, mas logo em seguida, deixou-se escorregar, encostado à parede, sentou-se, e, para meu espanto, começou a rir, rir muiiiiito, até que nós dois começamos a gargalhar, aliviados, enfim, no meio de tanto desconforto e desamparo. 


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Capítulo 22 - Cerejas com sabor de café

 Eu ainda nem me recuperara direito da trágica morte do meu bebê Getúlio, quando descobri que já estava grávida de novo. Os primeiros três meses sem menstruar passaram batidos e confesso que nem me atentei para isso, até que percebi um certo enjôo, todas as vezes em que ia fazer o almoço e o cheiro da gordura de porco que exalava da lata quase me fazia vomitar sobre as panelas, em cima do fogão. Depois de alguns dias passando por esse desconforto, foi que me atinei sobre a possibilidade de uma nova gravidez, já que Sebastião era um touro no cio e, mesmo percebendo que eu não sentia nenhuma vontade de transar com ele, tamanha era a minha tristeza, ele não tinha nenhuma sensibilidade para respeitar a minha dor e me dar um tempo. Portanto, não foi nenhuma surpresa quando percebi que  engravidara, outra vez, apenas tão pouco tempo após a morte do meu filhinho. A novidade também não me trouxe nenhuma alegria. Eu já devia estar entrando no quarto mês, e só de pensar que teria que passar mais uns seis meses cada vez mais gorda, com cada vez mais dificuldade para fazer os serviços da casa, sentia um desânimo profundo, uma vontade de me deitar e não me levantar nunca mais, ou então, de sumir no mundo.

Mas a realidade da vida que se apresentava para nós, todos os dias, ao nascer do sol, era brutal.  Não tinha nenhuma complacência com choramingos ou tristezas passadas. Mal o dia raiava e Tião já estava de pé, vestindo sua roupa de lida, calçando suas botas, e se preparando para mais uma jornada nos cafezais, onde os grãos estavam vermelhinhos e não podiam se dar ao luxo de esperar para serem colhidos, ou caíriam no chão, desperdiçados. Essa era a época do ano mais puxada, pois além do pessoal que morava na própria fazenda, já preparado para fazer esse trabalho, sempre era preciso contratar gente de fora, para que o serviço fosse executado no tempo mais curto possível. Para mim, era como se a vida se dividisse em dois tempos: fora, ela corria célere, com homens e mulheres deslizando suas mãos pelos galhos carregados dos cafeeiros, puxando-lhes os frutos, que iam se amontoando no chão, para depois serem rastelados e ensacados. Dentro de mim, era como se estivesse presa, amordaçada a uma corrente que eu mesma enrolara em meu corpo. Se arrependimento matasse, eu estaria morta. Morria de saudades dos meus pais, principalmente de minha mãe, e não acreditava que tinha sido capaz de lhes dar tanto desgosto, ao fugir de casa com um desconhecido.

Depois que ele tomava um gole de café preto e saia para a lida --sua função era administrar a colheita -- eu ficava horas na janela, contemplando o sol frio e iluminado de inverno, tentando entender como tudo entre nós acontecera tão depressa, sem levarmos em consideração os costumes da época, que mandavam homens e mulheres em idade de se casar, que buscassem pessoas conhecidas, de preferência do mesmo bairro, vizinhos ou até mesmo primos, pois o que mais as famílias temiam era a entrada de forasteiros em seus lares, como maridos ou esposas de seus filhos. Eu fazia esse mea culpa todos os dias, até me lembrar que já estava virando uma solteirona, com 29anos, tendo tido dúzias de pretendentes, os quais foram todos rechaçados pelo meu pai. Ninguém nunca era bom o suficiente para ele autorizar um namoro, quanto mais um noivado. Os anos foram se passando, minhas irmãs e irmão mais novos se casando e eu lá, ficando para "titia", apelido dado às moças que não conseguiam arranjar um marido e acabavam ficando solteironas, transformadas em cuidadoras dos velhos pais. 

Meus devaneios à janela, nesses dias, eram intermináveis e muito angustiantes. Às vezes sentia as lágrimas correrem pelo meu rosto, e eu não fazia nada para estancar o choro, até que sentisse a pele ardendo. Derrepente, percebia que já era quase hora do almoço e Tião e seus homens deviam estar me esperando com a bóia-fria. Eu despejava o feijão nas marmitas, cobria-as com o arroz, fritava uns torresmos, ovos, linguiça, embrulhava tudo num embornal, e saía em direção à roça, para levar-lhes a comida. O cafezal devia ficar há uns dois quilômetros de casa, e essa caminhada me fazia bem, pois era quando eu me distraía um pouco com o que ia encontrando pelo caminho: o ninho de uma galinha carijó, chocando seus pintinhos, o pastor alemão sempre tentando pegar alguma raposinha faminta, os pássaros que vinham se alimentar com as cerejas docinhas com sabor de café, e vez ou outra, uma cobra cascavel chacoalhando seus guizos, embaixo de algum cafeeiro, para que ninguém fosse mordido por ela, alegando que não fora avisado. 

Naquele dia não foi diferente. Ou melhor, foi totalmente diferente. Quando eu cheguei à fronteira do cafezal, próxima dos primeiros pés, comecei a ouvir gemidos e grunhidos estranhos. Parei

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Os homens que saíram de um filme de faroeste

 Não sei por quanto tempo minha mãe chorou a morte do seu primogênito. Pouco tempo depois, já inseminada na sua barriga pelo meu pai, devo ter impresso à ferro e fogo todas as marcas do seu sofrimento em mim: gritos, lágrimas, dor, inconformismo, lamentos, etc...etc...etc...mas o fato é que não me lembro de nada, pois feto não guarda lembranças, apenas sente-as. Apenas, sente-as.  E carreguei a intuição que essa tragédia custou aos meus pais, pelo resto da vida. Mas, só agora, do alto dos meus sessenta anos, é que consegui entender, como tudo isso deve ter sido horrível para ela. E, óbvio, para mim também. Para o meu pai, menos, pois homens foram feitos para o mundo, e nesse descortinar de outros mares ou janelas, eles sempre encontram um cigarro de palha, um café passado na hora e uma boa prosa para enrolar o tempo. E junto com ele, a dor vai de lambuja, se diluindo.  Pois era o que meu pai fazia. Mesmo administrando a fazenda onde moravam, quando o pesadelo se deu, ele arranjava umas horas vagas para arrear sua carroça e sair pelos sítios próximos, procurando porcos, galinhas, cavalos para comprar ou trocar em outras mercadorias. Afinal, ele tinha o sangue dos mouros nas veias, não se podia negar. 

Mercadorias essas, é bom que se diga, nada mais eram que o próprio enxoval que minha mãe trouxera no seu pródigo baú: toalhas de mesa bordadas em ponto-cruz, jogos de guardanapos, jogos de lençóis e fronhas, jogos de toalhas de banho, com as franjas desfiadas, também bordados, enfim, peças e peças que as moças casadoiras da região ficavam enlouquecidas para tê-las para si, e cujos pais não mediam esforços para satisfazê-las, comprando-as em dinheiro vivo, quando podiam, ou trocando-as por um lindo galo índio, meia dúzia de galinhas d`angola, gordas galinhas caipiras, um galinho garnizé branco que serviria só para enfeite, no meio do quintal, porquinhos recém-nascidos, leitões prontinhos para o Natal, cabras, ovelhas, enfim, a lista de animais oferecidos para troca era imensa e meu pai não rejeitava nada. Não, sem antes dar uma boa conferida na saúde do bicho e do quanto ele poderia lhe render, depois de abatido, ou mesmo vendido em pé, nas feiras de domingo, pois o espanhol era dado a ganhar dinheiro e não haveria de trocar seis por meia dúzia, levando-se em conta que sua matéria prima era o enxoval primoroso de sua Antonietta. 

Num desses dias, quando o sol já se espraiava no horizonte feito uma lata de tinta tombada por Van Gogh, alaranjando todo o firmamento, Tião Mirante voltou para casa acompanhado de dois homens desconhecidos.  Eles ajudaram meu pai a desarriar o cavalo da carroça, a guardar todas as tralhas, levar os animais conseguidos nas trocas para os chiqueiros e galinheiros e, só bem mais tarde, quase noite, foi que resolveram entrar em casa. Durante todo esse tempo, minha mãe ficou meio ressabiada, pois os homens eram ambos muito parecidos com meu pai, tinham os mesmos cabelos pretos e encaracolados, um tinha olhos azuis e o outro, verdes, também iguais aos do Tião Mirante,  tinham mais ou menos o mesmo jeito de falar, misturando o português caipira com o espanhol, enfim, desconhecidos eles não eram, isso minha mãe logo atinou, mas o que ela não sabia era que os dois homens eram meus tios Nico e Joaquim, sendo o primeiro irmão de meu pai, por parte da minha vô Joventina, e o segundo, irmão legítimo. 

Meu pai os encontrara numa venda, no caminho da estrada de volta para a fazenda, por acaso e, saudoso da família, não hesitara em convidá-los para virem até sua casa, para botarem a conversa em dia e matar um pouco da saudade que sempre sentia de sua querida mãe Nina, como ele sempre a chamara, desde moleque. Mas o que ele não sabia, ou jamais poderia advinhar, era que ambos eram fugitivos da polícia e só estavam procurando um lugar onde pudessem se esconder por um tempo. Isso, eles só foram revelando aos poucos, durante o trajeto até à fazenda, o que deixou Tião muito acabrunhado, sem saber o que falar para a mulher, quando chegassem mas, por outro lado, também não conseguiu mandar os dois apearem de sua carroça e deixá-los à deriva, na beira do estradão. Também temeu por sua vida, pois não sabia se os dois estavam armados, enfim, pouso oferecido, era pouso dado. E era isso que ele teria que fazer, sem saber por quantos dias, até que encontrasse uma melhor solução. 

Bom, mas toda essa estória bizarra minha mãe não descobriu naquela primeira noite. O mistério terrível que meu pai trouxera com ele, naquela véspera de Natal, quando lhe pedira para escolher o colar de pérolas na joalheria, cada vez ficaria mais próximo que qualquer página de O Inferno de Dante, por isso, meu pai já sabia que era mais prudente começar a contar-lhe tudo com a velha e sábia frase: " o gato subiu no telhado". Assim, quando entrou com os dois irmãos em casa, pela porta da cozinha, apresentou-os como dois amigos -- Nico e Joaquim -- com quem, segundo ele, trabalhara nas fazendas de café do velho Maximiano, em Marília (SP), e que os encontrara na estrada, a caminho de uma outra fazenda em Pompéia, cidade na linha da Alta Paulista, onde estavam indo acertar a colheita da próxima temporada. Entretanto, como já estava um pouco tarde, e os dois estavam dependendo de carona, ele resolvera convidá-los para pousarem na casa deles, e no dia seguinte eles seguiriam viagem. Minha mãe, esperta como era, logo pensou: "uai, mas eles estavam a pé? Sem montaria?" Incrédula, ela sabia que ninguém saía de uma fazenda para outra, sem seus próprios cavalos e tralhas para passar a noite ao relento, caso fosse necessário, por isso, não engoliu a estória. Mas fingiu que sim. 

Os dois homens, meio desajeitados com o inusitado da situação, ficaram no alpendre fumando, e tomando um rabo de galo, enquanto meu pai providenciava um banho para eles, num chuveiro improvisado com um balde, do lado de fora da cozinha. Um deles, cuja barba era bem espessa, meio avermelhada, pediu um espelho, sacou de uma navalha afiada, aproximou-se de uma lamparina que bruxuleava sobre o parapeito da varanda e começou a escanhoar o rosto. O outro, mantinha as pernas presas em suas longas botas, esticadas sobre uma cadeira e, com as costas, deitava-a para trás, como se fosse um balanço, atarracado ao copo de pinga com uma mão, e ao cigarro de palha, com a outra, soprando baforadas para o céu. Enquanto eles tomavam um banho, meio improvisado, minha mãe  aprontara-lhes uma janta, com arroz, feijão, ovos fritos, couve refogada, mandioca frita e um pouco de torresmo que ela tirara da lata de gordura de porco e dera uma fritada para que ficassem quentinhos e crocantes. Ela pusera a mesa para eles, mas não se sentara para comerem, todos juntos. Alegando uma dor de cabeça qualquer, preferiu ir para o quarto, para deixá-los à vontade e ficar com o ouvido bem esticado, atenta ao que eles iriam conversar...

Foi assim que ela ficou sabendo que os tais amigos eram irmãos do meu pai e bandidos. Bandidos, mesmo, daqueles parecidos com os de filmes de faroeste, que viviam de roubos de cavalos, colheitas de fazendas, cargas de caminhão, e coisas do gênero. E que, obviamente, por causa disso, eles não tinham endereço, casa própria, nada. Eram como ciganos, roubavam aqui para vender ali, e assim iam vivendo, raramente apanhados pela polícia, pois as distâncias eram imensas de uma fazenda a outra, não haviam meios de comunicação rápidos, até que uma denúncia chegasse à cidade, eles já estavam muito longe, em outra corruptela, vendendo para os sitiantes da região, a muamba roubada, e partindo em busca de outras paragens, onde cometeriam os mesmos crimes, sempre sem punição nenhuma. Vez ou outra, algum deles tinha o azar de ser preso, mas era uma honra de sangue entre eles, nunca alcaguetar os demais, e assim, acobertando-se uns aos outros, levavam a vida aos trombalhões, sem nunca trabalhar no pesado como meu pai fazia, ao contrário: quando o dinheiro de um bom "negócio", para usar expressão deles, era suficiente para passar uns dois ou três meses, sem fazer nada, eles alugavam uma chácara e ficavam lá, simplesmente dormindo, descansando, comendo e bebendo, enquanto planejavam  a próxima empreitada.  

Naquela noite, quando meu pai foi dormir, encontrou minha mãe chorando baixinho, com a cara enfiada no travesseiro. Ele tentou agradá-la, perguntou-lhe o que era, sem saber que ela já tinha descoberto a estória toda, ouvindo-a atrás da porta, mas ela disfarçou.  Disse-lhe que não era nada, apenas uma saudade muito grande do filhinho amado que lhe escapara dos braços, três ou quatro meses atrás -- ela já nem se lembrava mais direito de quanto tempo fazia --  mas o vazio de sua presença no berço ao lado era terrível, principalmente à noite, na hora de dormir, pois era o momento de mãe e filho se aconchegarem um ao peito do outro, refazendo a conexão diária do amor entre ambos. Ou seja: minha mãe ainda nem se recuperara dessa dor horrível com a perda de seu Getulinho, e já estava tendo que assimilar uma outra estória escabrosa, e naquele momento ela não poderia saber, mas talvez bem maior ainda, pois poderia estender-se por toda sua vida com meu pai. E foi, deveras, o que aconteceu.