quarta-feira, 13 de março de 2024

Um ponto preto no fundo do buraco

 A menina rodopiava no ar, segurando bem forte, com as duas mãos, as pontas do chicote. As palmas sangravam, cortadas pelo couro, mas ela não as largava, de jeito nenhum. Quanto mais conseguisse segurá-lo, menos vezes seu pai conseguiria acertá-lo nas costas de sua mãe, que se equilibrava à beira do buraco, cada vez mais propensa a cair lá dentro. Com um vestido preto que lhe grudava ao corpo, muito magro, Antonietta, além de tentar se proteger das lapas do chicote, ainda tentava proteger a filha, sua caçula branquinha, sua margaridinha, a única que tinha coragem de se lançar contra o pai, nessas situações, em que ele partia para cima dela, evitando que lhe batesse, ou, pelo menos, que batesse menos do que conseguiria, caso a menina não a socorresse. 

Não que as outras filhas também não fizessem isso, mas cada uma tinha um jeito de tentar amenizar a situação. E, claro, todas choravam e gritavam juntas, pedindo para o pai parar, pelo amor de Deus, de bater "na mãe".  E era o que ele acabava fazendo, pois não podia lutar contra cinco mulheres, ainda que meninas e muito pequenas, mas, naquele dia, a briga começara no meio da rua, não sei ao certo porquê. Talvez por causa da fuga de algum cavalo, quem sabe mal-amarrado pela mulher, que os levava à noite, ao piquete, para soltá-los, depois que Tião chegava da lida, muitas vezes, bebâdo, não tendo forças para tirá-los da carroça e ainda levá-los, ele mesmo, para o pasto. 

Tarefa que a mulher acabava assumindo, mesmo cansada, depois de um dia inteiro trabalhando na horta, fazendo canteiros, transplantando mudas, semeando outras espécies, aguando-as, ou mesmo, preparando-as, em várias bacias, que as meninas punham na cabeça, para ir vendê-las, na vizinhança. Ou seja: mãe e filhas trabalhavam o dia inteiro, todos os dias, para que todos pudessem comer, pois Sebastião já não fazia mais nem para suas pingas, o que dizer para pôr o sustento em casa. Melhor mesmo era não contar mais com ele, e era isso que Antonietta fazia, plantando e colhendo alfaces, repolhos, pepinos, tomates, couve-flores, chuchus, abobrinhas, entre outras hortaliças e legumes, cujas vendas garantiu o sustento de sua familia durante muitos anos, até que as meninas tiveram idade para começar a trabalhar em casas de famílias, como domésticas ou babás. 

Naquele dia, uma ira avassaladora tomara conta de Sebastião, e ele partira pra cima da mulher decidido a matá-la, não importando onde seu chicote pegasse: se no rosto, nas pernas, nas costas, ou em qualquer outro lugar do seu corpo. O buraco em volta do qual ela e a filha se equilibravam tinha sido escavado pela Companhia de Saneamento da cidade, cujos canos estavam trocando. Como o serviço não havia sido terminado, eles o deixaram aberto e, agora, o lugar poderia se tornar o túmulo de mãe e filha. A menina era a caçula das cinco filhas do casal, a última, antes do filho homem que eles tanto desejaram, que, nessa época devia ter uns três anos, e era o único que não estava ali, assistindo à cena aterradora. E pior: devia estar em casa, que ficava no meio do quarteirão, sozinho, pois todos haviam descido para a rua, quando ouviram os primeiros gritos de Antonietta.

Inconformada com aquele horror, Manuelitta, a mais velha, decidiu dar cabo de tudo aquilo. E só havia um jeito: chamar a polícia. Assim, enquanto Suca continuava pendurada no cabo do relho, evitando as chicotadas em sua mãe, Manuelitta, chorando muito alto, começou a subir a rua, correndo, em direção ao posto telefônico, que ficava há uns dez quarteirões dali, a fim de chamar alguma viatura da PM e botar fim àquela atrocidade do pai. Enquanto isso,  a fúria de Tião só aumentava: ele parecia dominado por uma ira assassina, e não parava de gritar e xingar a mulher, enquanto tentava lhe bater, o que, de fato, não conseguia, pois a filha pesava-lhe nas pontas do chicote. Machucadas mesmo estavam suas mãozinhas,  cortadas pelo couro, e vertendo muito sangue.  

O carro de polícia chegou rápido ao local da briga. Os soldados desceram depressa  e correram para segurar Tião, que ainda estava endiabrado, já lutando com a própria filha, para tentar tirá-la do seu caminho, o que ele não conseguia, pois a menina também parecia dotada de uma força que ela, de fato, não possuía, decidida a não deixar que a mãe apanhasse ou que o pai conseguisse bater-lhe; nessa altura dos acontecimentos, a mulher caíra dentro do buraco. De cima, só se via um ponto preto lá dentro, que era o seu vestido, um dos poucos que tinha e que ainda lhe servia, depois que começara a emagrecer tanto, tomada pela depressão que lhe invadia o corpo e lhe tirava toda a vontade de viver. Não tinha mais fome, comia cada vez menos, e os ossos já lhe apareciam nas pontas dos joelhos, cotovelos, flancos e ombros. O rosto estava cada vez mais encovado, e como arrancara os dentes aos quarenta anos, trocando-os por dentadura, prática comum à época, aparentava ter muito mais idade do que de fato, tinha. 

Os policiais algemaram Tião sem mais delongas e o enfiaram dentro traseira do Fusca preto, o tipo de automóvel que a PM usava naquelas anos 70, os pesados anos dominados pela ditadura militar que assombrou o Brasil, país onde essa estória se passa desde os anos 50. Os vizinhos correram socorrer Antonietta, tentar tirá-la do buraco, enquanto isso, alguém chamou uma ambulância, que também não demoru muito a chegar. Nesse ínterim, a esquina onde tudo se passara já reunia uma multidão, pois a falta do que fazer, para a maioria de donas de casa, e homens desempregados, depois que vieram da zona rural para as cidades, obrigava-os a ficarem de olho em algo "fora do comum" que acontecesse nas imediações e que lhes chamasse a atenção; assim, tinham um motivo para sair de suas rotinas modorrentas e, invariavelmente, sem nenhuma perspectiva de um propósito que lhes servisse de alento. 

Qdo a ambulância chegou, encontrou mãe e filha debruçadas uma sobre a outra, lá no fundo do buraco, e já quase imersas por uma fina linha dágua que restara do córrego canalizado, e que ameaçava cobrí-las, delicadamente, como um manto acetinado, fluído, que ora se movia para lá e para cá, distorcendo-lhes as imagens, para quem as via de cima, dando a impressão que estavam se dissolvendo na água,  entrando em simbiose com a natureza, tomando-lhes a forma de rio, assumindo-lhes os movimentos, misturando-se com o fundo de areia bem fina e branca, como se fossem desaparecer para sempre, abraçadas, únidas naquele abraço infinito, causadaloso, embaraçadas uma dentro da outra, de forma que não se podia saber mais quem era a mãe, quem era a filha. As pessoas se achegavam à beira do buraco, brigavam por mais espaço, pois queriam ver melhor, as duas abraçadas lá embaixo, mas como não entendiam nada, acabavam desistindo, saindo de fininho, com um ar de decepção em suas caras; outras, de interrogação. Talvez quisessem ver sangue, corpos despedaçados, pedaços espalhados pela encosta, e não uma flor negra resultado do abraço de mãe e filha, feito de puro amor, puro desejo de salvação, de não ver uma única marca no corpo da mãe, causada por aquele chicote insano; de ter certeza que ela nãaaaaaaaaaaaaaaaaoooo  sentiria dor nenhuma, se o chicote não lhe alcançasse com sua pretensão de corte ou lanhadura na pele; Sueli fora firme na sua decisão de proteger a mãe, pendurando-se nas pontas do chicote e, como era muito magrinha e ainda pequena, devia ter por volta de uns cinco anos, não fora difícil para o pai erguê-la do chão e rodopiá-la, várias vezes, certo de que ela largaria ou escorregaria das pontas do relho, mas, triste ilusão, Sebastião; a menina fora uma heroína, disseram os soldados que vieram prendê-lo, e também os enfermeiros, ao chegarem com elas em duas macas, assim que conseguiram tirá-las do buraco. Ambas estavam lúcidas, conscientes, mas muiiiiiiito cansadas, disseram, logo enfiandas no rabecão da Santa Casa de Misericórdia.  



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