Trajando um terno branco de linho, Antonino que também era vaidoso, como o filho, não se esqueceu de completar o traje com um chapéu Panamá, meio de lado e quebrado à frente e, ao passar pelo jardim da casa, ainda se lembrou de um pequeno e defintivo detalhe: apanhou um cravo vermelho e o colocou na lapela, completando o look ao estilo dos dançarinos de flamenco de sua querida Sevilha. A mula preta Preciosa já estava encilhada a sua espera, de forma que foi só ajeitar as esporas e pular-lhe sobre o lombo, e ela, experiente como lhe convinha, já se dirigiu ao caminho que dava para a porteira, quase sem nem esperar o comando do seu cavaleiro. A cidade de Marília, a essa época, era bem pequena ainda, concentrando-se no entorno da Igreja Matriz e da praça principal, como aliás, todas as cidades do Brasil afora, desde 1500, tinham sido desenhadas, uma vez colonizadas pelos cristãos portugueses e seus indefectíveis padres jesuítas de companhia.
Desde a saída da fazenda até o portão da igreja, Antonino viajou uns 10 kms, de modo firme e constante, mais trotando que galopando, para não amassar o terno, nem cansar Preciosa, que já tinha tido um dia pesado na labuta do campo, puxando arados para a plantação de mandioca, entre os eitos
do cafezal. Chegando à cidade, notou que era noite de festa, pois o arraial estava todo enfeitado com bandeirolas coloridas e só então se deu conta que era dia 13 de junho, dia de Santo Antonio e, não por acaso, dia de seu aniversário, do qual ele jamais se esquecia, justamente por causa da comemoração do niver do santo, seu padrinho de batismo. Entretanto, naquele dia, ansioso que estava por encontrar uma companheira para tornar seus dias menos solitários na fazenda e, também por que não dizer, tirar-lhe as botas cansadas de guerra e massagear-lhes os pés, como era esperado que toda boa esposa o fizesse, se esquecera por completo do próprio aniversário mas, por outro lado, pensou que a sorte estava lhe dando uma mãozinha, já que numa noite comum de sábado, o arraial não estaria tão apinhado de gente, menos ainda por tantas moçoilas bonitas, elas também à procura de alguém com quem pudesse entrar de braços dados na capelinha de Santo Antonio (que outro nome a capela poderia ter, afinal?) e saírem de lá casadas.
O footing (vai-e-vem das moças e rapazes) em torno da praça estava animado, com o estouro dos rojões. Todos fingiam-se de assustados para esfregarem uns nos outros e, assim, atraírem a atenção dos pretendentes, mesmo que fossem desconhecidos. No centro da praça, havia várias barracas com vendas de doces caseiros, de maçãs do amor e de brincadeiras como tiro-ao-alvo, pescaria de bibelôs artesanais, que os jovens sorteados mal agarravam-nas e já saíam em busca de alguém com os olhos lânguidos, ou os làbios mais desabrochados, para logo entregar-lhes o presente, e assim, já encontrarem um bom motivo para um começo de prosa.
"Pois foi desse jeito que meu pai conheceu minha mãe, Juventina Peres", animou-se Sebastião, contando aos ouvintes curiosos como seu pai, Antonio Sevilha Rodrigues se casou com sua mãe, logo na primeira noite, em que ambos se conheceram. Exímio laçador de bois e de cavalos, ele não tivera dificuldades de laçar um Santo Antonio feito de pano, na barraca das prendas. Tá certo que não foi na primeira tentativa. Depois de umas tres ou quatro vezes em que jogara a corda, o laço caiu bem na cabeça do santo, ao que Antonino mais do que depressa, apertou-o, em torno de seu pescoço, tirando-o da tina dágua onde estava mergulhado, em sacríficio pelas moças e moços casadoiros. Animado com o resultado da pescaria, assim que recebeu sua prenda das mãos do barraqueiro, ele tratou de torcê-lo -- (pobre santoinho !), pois o boneco era de pano e estava encharcado de àgua, e enfiou-o, no bolso, jogando umas moedas para o alto. Ato contínuo, já foi se virando para sair do meio daquela muvuca que se formara em torno da barraca, de longe a mais concorrida do arraial, pois todos queriam ter algo a oferecer à moça escolhida naquela noite para, quem sabe, ganharem alguns beijos e abraços, ou até subirem juntos ao altar. Tudo dependeria do approach e, nesse quesito, chegar com uma prenda ou mesmo uma flor, faria toda a diferença.
Feliz com seu santinho no bolso, Antonino ´decidiu beber alguma coisa, pois estava precisando dar uma limpada no gogó. Desde que chegara ao arraial, não bebera ou comera nada ainda, preocupado que estava em garantir sua prenda primeiro. Mas, agora, sentindo-se mais confiante, resolvera procurar uma barraca onde pudesse tomar um trago de cachaça ou quem sabe, experimentar um bom quentão, enquanto já começava a esquadrinhar ao seu redor, procurando um belo rosto de alguma guapa cujos olhos se encontrassem com os seus. A tarefa não era fácil, mas era bem agradável, convencia-se. Enquanto ia caminhando com esse propósito, percebeu uma criança de uns cinco anos mais ou menos, chorando, esperneando, enfim, fazendo a maior birra, pois queria porquê queria uma maçã do amor, e a mãe, ajoelhada no chão, tentava inutilmente agradar o garoto e convencê-lo a trocar a fruta caramelada por um algodão doce. Sem saber porquê, Antonino ficou comovido com a cena, talvez por ter deixado sua mãe aos 14 anos, e nunca mais tê-la visto, enfim, aproximou-se da jovem e da criança barulhenta, abaixou-se, tirou o boneco do Santo Antonio do bolso, e disse ao garoto: "podemos fazer um acordo? Eu deixo vc brincar com o meu santinho, você pára de chorar, e eu te compro a maçã do amor. Que tal? Feito o negócio?" . O menino ainda sem entender a proposta direito, meio choramingando, foi pegando o brinquedo das mãos fortes de Antonino. Olhou bem para a cara do boneco, e entre soluços, disse que tudo bem, que concordava, mas sua mãe também teria que dizer sim. Foi então que os olhares de Juventina e Antonino se encontraram pela primeira vez. E eles ficaram assim, olho no olho por uma eternidade, não fosse o moleque lembrar Antonino de sua proposta:
_ "Mãe, posso aceitar a maçã do desconhecido?"
_ " Não, antes que ele nos diga quem é, Nicolas, " dissera Juventina, levantando-se daquela posição incômoda, entre ajoelhada e agachada, para consolar o filho.
_ "Antonino Sevilha Rodrigues, imigrante espanhol, morando no Brasil desde os meus 14 anos, onde trabalhei até os meus trinta e poucos na Fazenda Santa Feliciana, aqui de Marília. Ao seu dispor. Enquanto se apresentava erguera suas mãos e já tratara de apertar ambas as mãos de Juventina entre as suas. E continuou: "com quem tenho a honra e o prazer de falar"?
A moça empertigou-se toda, jogou os longos cabelos negros e muito brilhantes, levemente cacheados, para as costas, ao mesmo tempo em que ajeitava a saia rodada e o decote da blusa, deixando entrever muito de leve, a entrada do seu decote que, claro, já tinham atraído o olhar desejoso de Antonino. "Não tenho muito o que dizer sobre mim", disse ela, baixando os olhos, meio envergonhada. "Meu nome é Juventina Peres, e acho que a única coisa que temos em comum é a origem, pois também sou espanhola, mas vim para o Brasil ainda muito pequena, no colo dos meus pais. Eu só sei que eram da região de Andorra, nada mais. Sou viúva e o Nicolas é o que restou do meu recém-falecido marido. Fomos despejados da casinha onde morávamos os três, pois após sua morte não consegui mais pagar o aluguel, e hoje o senhorio apareceu com a polícia, e nos botou para fora. Como não tinha para onde levar os poucos móveis, larguei-os na frente da casa, e saí com o Nicolas para procurar um outro lugar para ficarmos, sabe-se lá Deus onde...procurei orfanatos, asilos, casas de assistência, onde pudesse trabalhar e cuidar do meu filho, ao mesmo tempo, mas só ouvi não, em todas as portas onde bati. No final do dia, soube da festa de Santo Antonio e resolvi vir para cá com ele, para quem sabe, encontrar alguma alma boa que pudesse me oferecer um emprego e nos recolher do sereno".
Antonino ouviu a estória da moça, entre surpreso e comovido, pois não era exatamente assim o sonho que acalentara de encontrar uma namorada naquela noite, mas desde o primeiro momento que a vira, não conseguia desviar os seus olhos dos dela. E foi assim, em silêncio, que ele pegou Nicolas no colo, ao mesmo tem em que dava um braço para Juventina apoiar-se, conduzindo-os para uma barraca de maça-do-amor; primeiro, com a intenção de pagar sua promessa ao menino; e, segundo, para agradecer ao santo pelo milagre de fazê-lo encontrar não só a mulher de sua vida, mas também por torná-lo pai do menino lindo que ela trazia consigo. A partir daquele momento, ele não teve dúvidas de que formariam uma família, e que tudo o que precisava fazer era começar a comemorar isso, imediatamente. Juventina e Nicolas foram naquela mesma noite, montados na mula Preciosa, morar com Antonino. Juntos, eles ainda tiveram mais cinco filhos: Joaquim, Eurídice, João, Sebastião e Pedro. (Mas essa já é uma outra estória que retomaremos mais para a frente, ainda neste mesmo livro, ou em sua continuação, ainda não sei, caro leitor.)