quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Lúcifer acorda com o capeta no couro

 Exatos doze meses após fugir de casa com Sebastião, Antonietta mais uma vez estava subindo na carroça, só que desta vez, com um filho de três meses no colo. Como sempre fazia, Sebastião subia primeiro, e depois estendia-lhe as mãos para ajudá-la a alcançar o estribo onde  pudesse apoiar os pés e alçar o próprio corpo para o alto, onde ele a amparava.  Só que dessa vez ela não podia dar-lhe as duas mãos, pois uma estava agarrada ao filho, grudado contra o seu peito. Sem perceber que o cavalo estava meio inquieto e tentando tirar o tapa-olhos da cara, Tião ajudou a mulher a subir e sentar-se ao seu lado, e, sem esperá-la acomodar-se direito, deu voz de comando ao animal, para que começasse a puxá-los. O que eles jamais poderiam ter previsto naquele dia, é que seriam apanhados pela primeira tragédia de suas vidas em comum: tinham vindo à cidade, depois de um mês inteiro de trabalho duro na fazenda, onde Tião empregara-se como administrador, em Palmital, cidade há uns 50 kms de Assis, para onde tinham fugido naquela tarde tresloucada. Mensalmente, faziam este percurso de ida e vinda da roça, para comprar mantimentos, sabão e produtos para a lavoura, como inseticidas, arame farpado para cercas, e coisas do gênero. 

Antonietta passara por isso durante os nove meses em que estivera grávida de Getúlio, a cada mês subindo na carroça com mais dificuldade, devido ao peso de sua barriga que já se assemelhava a uma enorme lua cheia,  mas sem nunca deixar de acompanhar o marido nessa tarefa, e ele, sem nunca ter coragem de deixá-la sozinha em casa, ainda mais, naquele estado.  Mas há dias em que o demônio resolve sair de sua toca diabolesca onde passa a maior parte do tempo deprimido e imaginando as maiores atrocidades para a vida dos homens, sem contudo ter coragem de implementá-las, um pouco por ser preguiçoso e outro tanto, porquê no fundo, no fundo, nunca se esquece que sua identidade primeva é Lúcifer, um anjo do Senhor, e por se orgulhar disso, comete apenas 99% por cento do que sua deturpada imaginação consegue elaborar. Infelizmente, esse foi um desses dias em que o diabo acordou com o capeta no couro, e pulou da cama soprando suas maldades pelas chaminés do inferno sobre o mundo, com muita disposição.

Antonietta mal se acomodara sobre o acento, quando sentiu que seu vestido tinha vindo parar-lhe sobre a cabeça, cobrindo-lhe o rosto, ao mesmo tempo em que sentira que o corpinho frágil de seu filho era arrancado de seus braços pelos dedos longos de um furacao, enquanto a carroça virava sobre ela mesma, em diversas cambalhotas, ao mesmo tempo em era arrastada pelo cavalo. Quando o pesadelo, que durou apenas alguns segundos, finalmente acabou, ela enxergou a touquinha azul de seu filho Getúlio - Getulhinho, como ela o chamaria para o resto da vida-- pendurada numa orelha do animal. Que, aliás, não era um cavalo, a égua Cereja, nome que recebera por ser muito tranquila e dócil.  As compras do mês estavam todas espalhadas em volta deles, mas ela não conseguia entender o que tinha acontecido com seu bebê, do qual não escutara nem o choro, quando ele desaparecera de seus braços,  no momento em que Cereja, provavelmente picada por alguma abelha, arrancou o tapa, e saiu destrambelhada estrada afora, sem esperar o comando de Sebastião, que já havia destravado a carroça. Sem freios, ficou à mercê dos galopes e boleios da égua que lutava, desesperada, para arrancar o tapa, onde a abelha ainda estaria alojada. Quando Antonietta finalmente se deu conta do que acontecera, ficou em estado de choque: ela mesma encontrara seu bebê -- Getulinho tinha apenas quatro meses, quando o acidente aconteceu -- quase enterrado dentro do saco de açúcar, que, com a queda, fora rasgado, deixando um caminho branco como neve atrás de si, embora não tenha servido para amortecer a queda do menino, que batera com a cabeça na madeira da carroça, tendo morte instantânea.

Ainda sem nem conseguir chorar ou mesmo acreditar no que seus olhos viam, já amparada por Sebastião, que quebrara umas três costelas, -- mas até aquele momento, ainda nem sabia -- disso, ambos se ajoelharam ao lado do filho morto, cujos olhos muito verdes permaneciam abertos, como se quisesse olhar uma última vez para o rosto de sua querida mãe. Aquela mãe que o carregara com tanto cuidado e carinho em seu útero, que o amamentara durante seus primeiros meses de vida, somente com seu próprio leite, mas que não tivera forças suficientes para segurá-lo em seus braços, ao primeiro empinar da carroça. Antonietta pegou o filho morto nos braços, apertou-o muito contra o peito, e só então desatou num  choro convulsivo, bradando contra Deus e o Diabo por aquela tragédia que tirara a vida de seu primeiro filhinho, de seu primogênito, de seu anjinho que ainda não sido nem batizado. Ela e Tião ficaram ali ajoelhados no chão, abraçados ao filho, incrédulos, em estado de choque, e seus soluços podiam ser ouvidos de muito longe. Aos poucos, ninguém saberia dizer quanto tempo depois,  o choro de ambos foi se tornando mais calmo, e Antonietta começou a cantar uma música de ninar, bem baixinho, como se pensasse que o filho apenas adormecera. Avisados por vizinhos e transeuntes, que tinham assistido toda a cena de horror, policiais e bombeiros começaram a chegar para tentar socorrê-los -- o que não seria possível, pois o estrago maior já havia sido feito -- a criança estava morta, irremediavelmente, morta  -- além de desvencilhar a égua Cereja, caída e enrolada no próprio arreio, remover a carroça do meio da rua, e o pouco que sobrara das compras espalhadas ao redor. 

Como Antonietta não soltasse o filho dos braços, de modo algum, fora recolhida à ambulância com ele no colo mesmo, e levada, junto com Sebastião, para o Pronto Socorro de Palmital. Ali, só depois de receber uma generosa dose de calmante, que a fêz apagar, puderam retirar-lhe a criança do colo e levá-la ao consultório médico, apenas para receber o atestado de óbito e, em seguida, ser encaminhada para o necrotério onde seria preparada para o funeral. Ao atenderem Sebastião, os médicos verificaram que ele havia quebrado três costelas, o que até hoje, com todo o avanço medicinal, não se pode engessar. Embora ele gemesse de dor, convenceram-no de que teria que ficar entre 30 e 40 dias sem fazer nenhum esforço físico -- trabalhar na lavoura de café, na fazenda, seria impossível -- tomando analgésicos e antibióticos, até que os ossos cicatrizassem, sozinhos. Por fora, Antonietta estava intacta. Apenas com o vestido muito sujo de terra, mas sem nenhuma escoriação ou fratura. A não ser a fratura eterna que levaria no seu coração, em formato de cruz, 

pois, para o resto de sua vida, não se cansaria de repetir essa estória para os próximos filhos que viriam, com toda a riqueza de detalhes e a mesma emoção daquele dia tão trágico. 


 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Capítulo - Noivos em fuga

 Antonietta passara o dia cabisbaixa, arrumara uma desculpa qualquer para não ir com os pais à colheita do milho, e ficara em casa, se preparando para a maior aventura de sua vida: fugir com Sebastião, uma vez que  Antonio, seu pai, pela milionésima vez, rejeitara-lhe o pedido de sua mão em namoro, os dois conversaram e decidiram que o melhor era fugirem juntos, afinal ela já tinha 29 anos, todas suas amigas já estavam casadas, algumas já eram mães, e  ela ficaria para titia, como era comum denominarem as moças que não se casavam, à época. Além de preconceituoso, era uma espécie de bullying que faziam com as pobres solteironas. Antonino e Anna Demarchi estranharam o comportamento da filha, que conheciam muito bem, e era incapaz de se furtar a um dia de trabalho. Aliás, era sempre a primeira a acordar, preparar o café e o almoço que levariam para comer na roça, mais tarde, embrulhar-se toda com calças e camisas dos irmãos, para não deixar sua pele muito branca queimar-se ao sol, e, quando ambos levantavam, ela já estava com tudo pronto para sairem juntos para a colheita da vez, fosse milho, café, ou arroz uma das três culturas que eles revezavam no pequeno sitio da Àgua do Matão. Por isso mesmo, não quiseram insistir com ela, para ir com eles. Não se sentiram no direito de cobrar um dia de trabalho, justamente da filha que era a mais assídua no cabo da enxada. Preferiram acreditar que ela estivesse mesmo indisposta, talvez "naqueles dias" com cólicas e dores de cabeça, e partiram sem ela. Mal sabiam eles que esta seria a última vez que veriam a filha que tanto amavam, ainda solteira  e companheira de labuta. 

Antonietta escolhera para a ocasião, um lindo vestido de tricoline, com estampas miúdas de borboletas e flores, decote arredondado, uma fileira de botões encapados do mesmo tecido, mangas três quartos, finalizadas com nervuras nos punhos, e a saia de quatro marchas, duas à frente e duas atrás, dando-lhe um caimento perfeito ao corpo magérrimo, que era invejado por todas as moças, não só do bairro rural onde morava, mas de muitas outras "águas", que vinham de longe para encomendar-lhe costuras no seu ateliê. Sim, além de trabalhar na roça, a jovem fizera um curso de corte e costura na cidade e nos finais de semana, dedicava-se a atender suas clientes, com hora marcada.  Nervosa e insegura com sua decisão, ela passara o dia inteiro sentada à porta da casa, como se estivesse despedindo do seu jardim de rosas, olhando infinitamente para cada uma delas, sem se dar conta do tempo, tentando acalmar seu coração, que estava aos pulos. Não sentira fome nem sede. Simplesmente não saíra do lugar, de onde, vez ou outra levantava os olhos em direção à porteira, na esperança de ver Sebastião chegando com a carroça,  conforme haviam combinado, pois iriam precisar dela para levar o seu baú de enxoval: um malão de madeira super-pesado que continha inúmeros jogos de toalhas de banho, de lençóis de cama , toalhas de mesa com seus respectivos guardanapos, toalhas de bandeja, centros de mesa,  sem contar com toda sua roupa, que não era pouca, pois, para cada sábado de baile ela se dava um vestido novo. Mal sabia ela o destino que cada peça daquelas acabaria tendo, nas mãos do futuro marido que, embora ela ainda não soubesse, não tinha um tostão furado no bolso. A carroça, a parelha de burros e o baú de enxoval seria o patrimônio com que ambos começariam a vida, mas isso vai ficar para outro capítulo dessa estória, porquê, nesse momento, Antonietta, já cansada de esperar e quase desistindo da loucura que iria fazer,  levanta a cabeça mais uma vez, e eis que o cabra macho estava abrindo a porteira, para dar passagem aos animais. "Bom, pelo menos ele tem palavra", pensou a pragmática Antonietta. 

Foi o tempo de respirar fundo, um pouco mais calma, e a carroça já parava em frente ao jardim. Nesse momento ela se permitiu um pouco de romantismo e se sentiu uma princesa sendo raptada por seu príncipe, em uma bela carruagem. Ele puxou o breque para frear os animais, e quando sentiu a terra firme sob os pés, saltou para o chão de um pulo só, indo correndo abraçar sua amada. Mas logo percebeu que ela não parecia feliz e não quis perguntar-lhe nada, para evitar qualquer conversa que a fizesse mudar de idéia. Deu-lhe um longo beijo, daqueles de fazerem as pernas de qualquer mulher ficarem bambas, e já foi perguntando onde é que estava o malão, pois não tinham muito tempo, ao que ela aquiesceu com a cabeça. "Esperava que viesse mais cedo", disse a jovem, lembrando-lhe que o combinado fora dele chegar ao meio dia. "Eu me enrolei todo na fazenda para conseguir sair com os animais e o carro, escondido dos meus pais",  disse-lhe ele, que vão querer me matar quando souberem que roubei-lhes os burros.  Antonietta ficou pálida e quase desmaiou. Então, além do desgosto que ambos estavam dando as suas famílias, fugindo de casa, ainda iriam começar a vida com coisas roubadas? Como se estivesse lendo o seu pensamento, ele respondeu:" claro que pretendo devolver-lhes, mas se eu fosse pedir-lhes emprestados para o meu pai, teria que dizer para quê, e ele jamais consentiria.  Achei melhor não contar-lhe nada, e só quando estivermos instalados em nossa casinha em Palmital, mandaremos notícias para os meus pais e os seus", dando o assunto por encerrado. 

Virou-lhe as costas e já foi entrando para dentro da casa em busca do baú do enxoval, no quarto da jovem. Ela foi atrás dele, e ambos o pegaram pelas argolas, cada uma de um lado, trazendo-o para fora. O móvel era muito pesado, mas Sebastião e Antonietta estavam acostumados com a força bruta da vida no campo, por isso, respiraram fundo e em cinco passos, já estavam com o baú em cima da carroça. Os burros sentiram-na pesar-lhes sobre os lombos e empinar para trás, mas Tião  era jeitoso com animais e, ao menor sinal de desconforto da parelha, puxou o baú mais para o meio do veículo, distribuindo o seu peso entre as quatro rodas. Em seguida, deu a mão para sua noiva e ajudou-a a subir e instalar-se no banco, sentada ao seu lado. Nesse momento, ela colocou sobre a cabeça um lindo chapéu florido, combinando com o vestido, a única peça que fizera para a ocasião, amarrou-o no pescoço para que não lhe voasse da cabeça, quando os burros começassem a trotar na estrada, e acenou um breve adeus para sua casa, mesmo que ninguém estivesse à porta para desejar-lhes felicidades ou abençoá-los. Por um instante ela pareceu ter visto sua mãe abraçada com seu pai, chorando muito, sem acreditar no que ela estava fazendo, abandonando-os. E pediu perdão a Deus, mais uma vez, por estar dando esse terrível desgosto aos seus pais, e ainda agradeceu-lhes por eles não testemunharem a cena de sua fuga com aquele jovem rapaz, de apenas 21 anos, ou seja, 8 anos mais novo do que ela, a quem ela mal conhecia. 




segunda-feira, 16 de agosto de 2021

 


SEGUNDA PARTE 


Sobre como um  enxoval primoroso, cheio de toalhas e lençóis finos, bordados à mão, com ponto-cruz, rendas e outras firulas da costura artesanal se transformou em mercadoria de troca por porcos, galinhas, cordeiros e cabras. 



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Capítulo 17 - Uma mulher para chamar de sua

Naquela noite a lua cheia parecia uma fêmea libidinosa à procura de prazer, de tão linda e escancarada no céu. Noite perfeita para encontrar a mulher dos seus sonhos, pensou Antonino. Quem sabe até mesmo engravidá-la com seu sêmen espanhol, e plantar em terras brasileiras, o começo de sua àrvore genealógica. Animado com a perspectiva de voltar para casa com uma família à tiracolo -- "espanhóis são sempre exagerados e ansiosos", disse Sebastião, fazendo um aparte à própria estória que contava, ao que todos riram, pensando que não era por outra razão que ele estava ali, sendo submetido a um verdadeiro escrutínio de cada palavra, pelos presentes. A ansiedade por conquistar Antonietta subira-lhe à cabeça de tal maneira que quase lhe metera os cornos num tacho de porco de gordura fervente. Do qual, por um triz, não teria saído vivo. Respirando fundo de alívio por ter se livrado do pior, ele retomou a narrativa sobre o velho Antonino, notando que a platéia, formada principalmente por Donana, o marido que também se chamava Antonio, mas de sobrenome Romagnoli,  e a sedutora Antonietta, continuava atenta a cada detalhe do fio de memórias ( ou seriam mentiras?) que ele ia desenrolando. 

Trajando um terno branco de linho, Antonino que também era vaidoso, como o filho, não se esqueceu de completar o traje com um chapéu Panamá, meio de lado e quebrado à frente e, ao passar pelo jardim da casa, ainda se lembrou de um pequeno e defintivo detalhe: apanhou um cravo vermelho e o colocou na lapela, completando o look ao estilo dos dançarinos de flamenco de sua querida Sevilha. A mula preta Preciosa já estava encilhada a sua espera, de forma que foi só ajeitar as esporas e pular-lhe sobre o lombo, e ela, experiente como lhe convinha, já se dirigiu ao caminho que dava para a porteira, quase sem nem esperar o comando do seu cavaleiro. A cidade de Marília, a essa época, era bem pequena ainda, concentrando-se no entorno da Igreja Matriz e da praça principal, como aliás, todas as cidades do Brasil afora, desde 1500, tinham sido desenhadas, uma vez colonizadas pelos cristãos portugueses e seus indefectíveis padres jesuítas de companhia. 

Desde a saída da fazenda até o portão da igreja, Antonino viajou  uns 10 kms, de modo firme e constante, mais trotando que galopando, para não amassar o terno, nem cansar Preciosa, que já tinha tido um dia pesado na labuta do campo, puxando arados para a plantação de mandioca, entre os eitos
do cafezal. Chegando à cidade, notou que era noite de festa, pois o arraial estava todo enfeitado com bandeirolas coloridas e só então se deu conta que era dia 13 de junho, dia de Santo Antonio e, não por acaso, dia de seu aniversário, do qual ele jamais se esquecia, justamente por causa da comemoração do niver do santo, seu padrinho de batismo. Entretanto, naquele dia, ansioso que estava por encontrar uma companheira para tornar seus dias menos solitários na fazenda e, também por que não dizer, tirar-lhe as botas cansadas de guerra e massagear-lhes os pés, como era esperado que toda boa esposa o fizesse, se esquecera por completo do próprio aniversário mas, por outro lado, pensou que a sorte estava lhe dando uma mãozinha, já que numa noite comum de sábado, o arraial não estaria tão apinhado de gente, menos ainda por tantas moçoilas bonitas, elas também à procura de alguém com quem pudesse entrar de braços dados na capelinha de Santo Antonio (que outro nome a capela poderia ter, afinal?) e saírem de lá casadas.

O footing (vai-e-vem das moças e rapazes) em torno da praça estava animado, com o estouro dos rojões.  Todos fingiam-se de assustados para esfregarem uns nos outros e, assim, atraírem a atenção dos pretendentes, mesmo que fossem desconhecidos. No centro da praça, havia várias barracas com vendas de doces caseiros, de maçãs do amor e de brincadeiras como tiro-ao-alvo, pescaria de bibelôs artesanais, que os jovens sorteados mal agarravam-nas e já saíam em busca de alguém com os olhos lânguidos, ou os làbios mais desabrochados, para logo entregar-lhes o presente, e assim, já encontrarem um bom motivo para um começo de prosa. 

"Pois foi desse jeito que meu pai conheceu minha mãe, Juventina Peres", animou-se Sebastião, contando aos ouvintes curiosos como seu pai,  Antonio Sevilha Rodrigues  se casou com sua mãe, logo na primeira noite, em que ambos se conheceram. Exímio laçador de bois e de cavalos, ele não tivera dificuldades de laçar um Santo Antonio feito de pano, na barraca das prendas. Tá certo que não foi na primeira tentativa. Depois de umas tres ou quatro vezes em que jogara a corda, o laço caiu bem na cabeça do santo, ao que Antonino mais do que depressa, apertou-o, em torno de seu pescoço, tirando-o da tina dágua onde estava mergulhado, em sacríficio pelas moças e moços casadoiros. Animado com o resultado da pescaria, assim que recebeu sua prenda das mãos do barraqueiro, ele tratou de torcê-lo -- (pobre  santoinho !), pois o boneco era de pano e  estava encharcado de àgua, e enfiou-o, no bolso, jogando umas moedas para o alto. Ato contínuo, já foi se virando para sair do meio daquela muvuca que se formara em torno da barraca, de longe a mais concorrida do arraial, pois todos queriam ter algo a oferecer à moça escolhida naquela noite para, quem sabe, ganharem alguns beijos e abraços, ou até subirem juntos ao altar. Tudo dependeria do approach e, nesse quesito, chegar com uma prenda ou mesmo uma flor, faria toda a diferença. 

Feliz com seu santinho no bolso, Antonino ´decidiu beber alguma coisa, pois estava precisando dar uma limpada no gogó. Desde que chegara ao arraial, não bebera ou comera nada ainda, preocupado que estava em garantir sua prenda primeiro. Mas, agora, sentindo-se mais confiante, resolvera procurar uma barraca onde pudesse tomar um trago de cachaça ou quem sabe, experimentar um bom quentão, enquanto já começava a esquadrinhar ao seu redor, procurando um belo rosto de alguma guapa cujos olhos se encontrassem com os seus. A tarefa não era fácil, mas era bem agradável, convencia-se. Enquanto ia caminhando com esse propósito, percebeu uma criança de uns cinco anos mais ou menos, chorando, esperneando, enfim, fazendo a maior birra, pois queria porquê queria uma maçã do amor, e a mãe, ajoelhada no chão, tentava inutilmente agradar o garoto e convencê-lo a trocar a fruta caramelada  por um algodão doce. Sem saber porquê, Antonino ficou comovido com a cena, talvez por ter deixado sua mãe aos 14 anos, e nunca mais tê-la visto, enfim, aproximou-se da jovem e da criança barulhenta, abaixou-se, tirou o boneco do Santo Antonio do bolso, e disse ao garoto: "podemos fazer um acordo? Eu deixo vc brincar com o meu santinho, você pára de chorar, e eu te compro a maçã do amor. Que tal? Feito o negócio?" . O menino ainda sem entender a proposta direito, meio choramingando, foi pegando o brinquedo das mãos fortes de Antonino. Olhou bem para a cara do boneco, e entre soluços, disse que tudo bem, que concordava, mas sua mãe também teria que dizer sim. Foi então que os olhares de Juventina e Antonino se encontraram pela primeira vez. E eles ficaram assim, olho no olho por uma eternidade, não fosse o moleque lembrar Antonino de sua proposta:
_ "Mãe, posso aceitar a maçã do desconhecido?"
_ " Não, antes que ele nos diga quem é, Nicolas, " dissera Juventina, levantando-se daquela posição incômoda, entre ajoelhada e agachada, para consolar o filho.
_ "Antonino Sevilha Rodrigues, imigrante espanhol, morando no Brasil desde os meus 14 anos, onde trabalhei até os meus trinta e poucos na Fazenda Santa Feliciana, aqui de Marília. Ao seu dispor.  Enquanto se apresentava erguera suas mãos e já tratara de apertar ambas as mãos de Juventina entre as suas. E continuou: "com quem tenho a honra e o prazer de falar"? 

A moça empertigou-se toda, jogou os longos cabelos negros e muito brilhantes, levemente cacheados, para as costas, ao mesmo tempo em que ajeitava a saia rodada e o decote da blusa, deixando entrever muito de leve, a entrada do seu decote que, claro, já tinham atraído o olhar desejoso de Antonino.  "Não tenho muito o que dizer sobre mim", disse ela, baixando os olhos, meio envergonhada. "Meu nome é Juventina Peres, e acho que a única coisa que temos em comum é a origem, pois também sou  espanhola, mas vim para o Brasil ainda muito pequena,  no colo dos meus pais. Eu só sei que eram da região de Andorra, nada mais. Sou viúva e o Nicolas é o que restou do meu recém-falecido marido. Fomos despejados da casinha onde morávamos os três, pois após sua morte não consegui mais pagar o aluguel, e hoje o senhorio apareceu com a polícia, e nos botou para fora. Como não tinha para onde levar os poucos móveis, larguei-os na frente da casa, e saí com o Nicolas para procurar um outro lugar para ficarmos, sabe-se lá Deus onde...procurei orfanatos, asilos, casas de assistência, onde pudesse trabalhar e cuidar do meu filho, ao mesmo tempo, mas só ouvi não, em todas as portas onde bati. No final do dia, soube da festa de Santo Antonio e resolvi vir para cá com ele, para quem sabe, encontrar alguma alma boa que pudesse me oferecer um emprego e  nos recolher do sereno". 


Antonino ouviu a estória da moça, entre surpreso e comovido, pois não era exatamente assim o sonho que acalentara de encontrar uma namorada naquela noite, mas desde o primeiro momento que a vira, não conseguia desviar os seus olhos dos dela. E foi assim, em silêncio, que ele pegou Nicolas no colo,  ao mesmo tem em que dava um braço para Juventina apoiar-se, conduzindo-os para uma barraca de maça-do-amor; primeiro, com a intenção de pagar sua promessa ao menino; e, segundo, para agradecer ao santo pelo milagre de fazê-lo encontrar não só a mulher de sua vida, mas também por torná-lo pai do menino lindo que ela trazia consigo. A partir daquele momento, ele não teve dúvidas de que formariam uma família, e que tudo o que precisava fazer era começar a comemorar isso, imediatamente. Juventina e Nicolas foram naquela mesma noite, montados na mula Preciosa, morar com Antonino. Juntos, eles ainda tiveram mais cinco filhos: Joaquim, Eurídice, João, Sebastião e Pedro. (Mas essa já é uma outra estória que retomaremos mais para a frente, ainda neste mesmo livro, ou em sua continuação, ainda não sei, caro leitor.)