sábado, 30 de maio de 2020

Cap. 11 - O beijo da serpente

Quando chegávamos, finalmente, à estação de Dracena, a última da Estrada de Ferro Paulista (?), meu pai sempre estava lá, a nossa espera. Saltávamos do trem direto para o seu colo, e queríamos fazer isso, todas de uma só vez, o que era complicado para um homem sozinho abraçar quatro crianças ao mesmo tempo.  Ele colocava uma em cada ombro, uma nas costas, e outra no colo. Ajeitava daqui. Ajeitava dali, virava um homem de quatro cabeças, dez braços e dez pernas, ficando bemmmm parecido com algum deus hindu. Uma confusão. Quando, afinal, conseguia enxergar minha mãe, ambos só trocavam um olhar. Não havia tempo nem lugar para um encontro de casal, no meio daquela profusão de cabecinhas loiras e barulhentas.
 
Dessa vez, não foi diferente. 

Mesmo envolto em nossas cabeças, pernas e braços, meu pai ainda deu um jeito de ajudar minha mãe, enquanto ela descia do vagão do trem, com um bebê no colo e mais uma mala nas mãos. Pena que não tenhamos nem uma  única foto de nenhum desses momentos, e as lágrimas escorrem pelo meu rosto agora, pois ao descrevê-los,  sinto que não sou apenas a narradora dessa estória, mas também a "fotógrafa" dessas memórias. Meu pai conseguiu ajudar minha mãe a subir na charrete, que nos esperava em frente à estaçãozinha, arreada com o alazão mais bonito das redondezas, e lá fomos nós, pulando de seu colo para algum pedacinho de acento. Claro que o espaço era para apenas duas pessoas, e as crianças ficavam se embolando, na vã tentativa de sentar-se, uma primeiro que a outra, o que não aconteceria, até que chegássemos em casa. 

Essas viagens sempre demoravam umas oito horas, desde a saída de Assis, de ônibus, num percurso de 180 kms até Marília, onde apanhávamos o trem, chegando em Dracena, no finalzinho da tarde. Quando aportávamos em casa, era quase noite. E, obviamente, estávamos famintas. Minha mãe se preocupava em ir direto para a cozinha e preparar, pelo menos, uma sopa quentinha, enquanto fazia também a mamadeira do nenê da vez. Ela fazia tudo ao mesmo tempo, enquanto ralhava com uma ou brigava com outra, com o propósito de nos acalmar ou de fazermos menos barulho, ou os dois. Meu pai, não se  alterava. De sua boca, não saia nenhum som. Ele apenas brincava com uma, ora com outra, colocava uma em cada perna, brincava de cavalinho, -- upa, upa - até que o tempo passasse e a comida chegasse, borbulhando,à mesa. Dessa vez, entretanto, notei que o seu rosto ficou lívido, quando minha mãe pegou uma toalha embolada de uma gaveta do armário -- quando deveria estar dobrada -- e, ao abrí-la, para forrar a mesa, percebeu que havia uma enorme nódoa de vinho, num dos cantos. Ela olhou para o meu pai e de seus olhos saíram chispas de fogo. O ódio só não o fulminou naquele momento, porquê ele estava com minhas duas irmãzinhas no colo, Rosangela e Roseli e ela deve ter temido queimar as crianças, junto com ele. 

Mas a cena não deixara nenhuma dúvida. Enquanto estivéramos passando as férias com nossos avós, meu pai, que nunca ia conosco, nessas viagens, aproveitava-as para viver as suas próprias férias, em companhia de suas amantes. Provavelmente, essa deve ter sido a vez da Loirona, como minha mãe a chamava, uma senhora casada que se dava ao desfrute com o marido das outras. Meu pai, típico machista de sua época, parecia amar minha mãe, mas não capitulava diante de uma mulher bonita. O incompreensível dessa estória é que minha mãe achava isso normal, "pois ele era homem", dizia ela, numa condescendência inacreditável para mim, que cresci ouvindo falar de liberdade feminina, feminismo, queima de sutiãs, luta pela igualdade de gêneros, etc...etc...não, eu ouvia aquilo, mas não compreendia nada. Porém, agora, o caso era sério, pois minha mãe concluiu que se o Tião Mirante havia levado a mulher até nossa casa, dormido com ela na cama deles, além dos rastros da provável farra na cozinha, com direito a vinho e manchas nas toalhas, eles  haviam tido uma noite tórrida de amor, e isso queria dizer que ele estava fazendo mais do que apenas sexo fora de casa. Sim, a Loirona fisgara o meu pai com seu cabelo descolorido, muito curto e penteado a la Garçone, o que, aliás, eu achava lindo e queria copiar, quando crescesse. Mal sabia eu que minha geração iria fazer permanente nos cabelos, a suprema aberração da moda, quando eu chegasse aos 18 anos. 

Mas esse devaneio de menina ficaria para depois, pois naqueles dias eu me vi envolvida numa luta renhida entre os meus pais, que tentavam passar a pulada de cerca, a limpo. Minha mãe chorou por dias e noites, à fio. Não conseguia dormir, não conseguia comer, fazia os serviços da casa como um autômato. Meu pai encilhava um dos cavalos, logo cedo, e desaparecia antes que o sol secasse a relva da noite sobre os pastos. Os cafezais estavam tombando com suas cerejas vermelhas, quase caindo de maduras, mas ninguém se atrevia a ir colhê-las. A traição se insidiara  para dentro de nossa casa, na nossa ausência, e fizera morada. Ainda que passageira, deixaria suas pegadas manchadas de vinho tinto, para sempre. Inconformada, minha mãe queria a separação. Dessa vez, ele tinha ido longe demais. Embora apaixonado, Sebastião não queria perder sua família, isso era nítido em seu rosto afogueado, onde os olhos verdes muito aflitos, falavam por ele. Eles clamavam por perdão, mas minha mãe estava irredutível entre o "ou eu, ou ela".  

Então, o amor por seus filhos --  só filhas, até então -- acabou vencendo sua paixonite aguda e falando mais alto no seu coração, ou entre suas pernas, não sei dizer exatamente onde. Decidido a botar um fim no romance, ele pulou em cima de um cavalo, sem nenhum arreio, e foi chispando até a casa da Loirona, que não era muito longe da nossa, não. Ficava numa colina acima e quase dava para se avistá-la, do nosso quintal. Nesse dia, nós ficamos grudadas à saia de minha mãe, que ficara debruçada sobre o portão, chorando muito, enquanto aguardava o desfecho daquilo tudo.  Soube-se , tempos depois, pelos vizinhos, que meu pai obrigara a Loirona a ir embora da cidade, dando-lhe um bom dinheiro, com o qual ela abriu uma empresa de dedetização para o marido em Presidente Wenceslau, onde fêz carreira como destruidora de lares.