Sebastião fora contratado para empreitar uma nova lavoura de café, numa cidade próxima, Pompéia, há 30 kms de Marília, e, com apenas poucos dias após ter dado à luz de minha filha Maria, mais uma vez tive que ajeitar os trapos e trecos, poucos, mas os únicos que tinha, para fazermos nova mudança. Quando o sol vinha chegando, translúcido, criando uma névoa sobre os cafezais, já apontávamos nossa carroça na estrada, com os poucos móveis e as trouxas todas. Eu ainda estava imensa, após a gravidez, amamentando a minha filha no braço, enquanto Tião tocava o cavalo. Não dissemos uma palavra durante todo o trajeto, que demorou quase um dia inteiro, pois a carroça pesava muito e a égua baia já estava entrada em anos, para suportar tanto peso. Por outro lado, depois do acidente que havíamos sofrido, que custara a vida do nosso Getulinho, tomávamos o maior cuidado, agora, tanto para subir quanto para descer desse transporte, pois sabíamos que não eram nada seguros. Além disso, com a criança no colo, que queria mamar o tempo inteiro, tínhamos que fazer cada movimento muito devagar, para evitar uma nova tragédia, e, nisso, tenho que confessar Tião Mirante era atencioso. A menina parecia uma boneca, de tão linda, com imensos olhos verdes, como os dele, que, claro, estava apaixonado por ela.
Quando, exaustos. chegamos a nova morada, mais uma decepção: nem de longe se parecia com a casa que havíamos deixado para trás, destinada à residência dos administradores da fazenda, uma belíssima casa de alvenaria, com alpendres, janelas e portas largas, três quartos, uma sala com copa, imensas, e uma cozinha maior ainda. Nem tínhamos móveis para tantos ambientes. Já a nova casa, na verdade, era muito velha, embora de alvenaria, também, era uma construção simples, de apenas duas àguas, com dois quartos de um lado, sala e cozinha do outro, sem nenhuma varanda para refrescar os cômodos. Quando entramos na casa, eu fiquei em estado de choque: ela ficara desocupada durante muito tempo e tinha servido de chiqueiro para porcos. O chão era de terra batida e estava todo fuçado e revirado, ainda com um cheiro horrível do estrume dos animais. Quando olhei aquilo, não consegui conter as lágrimas, que rolaram livres pelo meu rosto. Nem sabia o que dizer, se é que valeria a pena dizer alguma coisa. Se não tomasse cuidado, dependendo do que falasse ainda poderia levar um tapão no meio da orelha, pois meu marido era um homem bipolar, às vezes, muito carinhoso, e em outras, bruto, irrascível, selvagem. Era difícil identificar quando estava num momento ou em outro, então, eu aprendera a ler sua alma por meio das circunstâncias. Naquele caso, ele também estava decepcionado com o estado da casa, que não lhe fora informado pelo contratante da fazenda.
Ele já estava arrependido da besteira que fizera, mas jamais admitiria isso. Era dessas pessoas que preferiria morrer a ter que voltar atrás em sua palavra, mesmo que isso custasse o conforto de sua família. Mesmo que tivesse que ouvir sua filha gritando de fome, pois o meu leite era fraco e pouco, e isso lhe obrigasse a deixar-nos encostadas numa parede, naquele chão horrível, enquanto ele saía para procurar alguma lenha seca que servisse para acender o fogão, de modo que nos fosse possível preparar a mamadeira da nossa bebezinha. Enquanto o esperávamos, nós duas cochilamos, muito cansadas da viagem, com fome, encostadas à parede da cozinha.
Derrepente ouvi os roncos de um animal vindo em nossa direção, e mal tive tempo de apertar minha filha no colo, quando percebi que quem roncava daquele jeito, nada mais era que uma mamãe-porca, voltando do passeio com seus leitõezinhos, para a sua casa, que, no caso, agora seria a minha cozinha. Apesar da situação inusitada, ela também não deixava de ser cômica, e eu ri, sozinha. Será que teríamos que conviver em harmonia com a porquinha recém-parida, como eu? Sem se importar comigo, apesar de seu tamanho colossal para um suíno, ela passou pela porta, seguida de seus filhotes, e deitou-se ao do lado oposto aonde estávamos, com a barriga e as tetas duras, de tanto leite, para cima, para onde cada filhote, seis ao todo, correram com as boquinhas abertas, àvidos, disputando cada uma para si.
Com esse barulho todo causado pela chegada dos porcos, Manuela acordou e pôs-se a chorar, de novo. Berrar, na verdade, clamando por comida. Foi quando tive a idéia mais estapafúrdia da minha vida -- mas o que uma mãe não faz para matar a fome de um filho -- peguei a menina, embrulhei-a bem em seus cueiros, me levantei e fui andando, bem devagarinho, até chegar perto da porca. Me abaixei, com todo o cuidado do mundo, procurei um mamilo livre, e coloquei minha filha com a boquinha sobre ele, morrendo de medo que ela fosse rejeitada pela mamãe-porca. Para minha surpresa, e com a graça de Nossa Senhora das Mães Desamparadas, minha filha começou a sorver rápido o teto suíno, sem que o animal fizesse qualquer gesto de incômodo, permitindo que seu precioso leite também alimentasse um ser humano. Eu mal podia acreditar no que meus olhos viam, maravilhada. Permaneci assim, embevecida com a cena, cheia de gratidão por aquele animal que viera dos céus para alimentar a minha filha.. Essa, então, não se intimidava com nada. Sem ter a menor idéia de que o teto não era de sua mãe, mas de uma porrrrrrrrrca, sugava-o com determinação, pois o propósito era encher sua barriguinha, não dando a mínima para a origem do leite. Tão pequenina, é obvio que não fazia a menor idéia da diferença entre uma teta e outra. Quando Sebastião chegou com a lenha, nós já tínhamos feito o "fogo". Ele arregalou os olhos, incrédulo, ao se deparar com a cena, mas logo em seguida, deixou-se escorregar, encostado à parede, sentou-se, e, para meu espanto, começou a rir, rir muiiiiito, até que nós dois começamos a gargalhar, aliviados, enfim, no meio de tanto desconforto e desamparo.