domingo, 14 de janeiro de 2024

Quem era o velho da rede?

 A luz das lamparinas bruxuleavam sobre a mesa, onde eu, Tião e o velho que ele trouxera na garupa, jantávamos, devagarinho, nossa sopa de mandioca com costelas, cremosa e  fumegante. Ninguém dizia uma palavra. Só o barulho das bocas engolindo a comida. O velho não tinha dentes, por isso, em vez de comer, ele chupava o caldo, fazendo um barulho meio nojento, mas tudo bem, eu já estava acostumada com coisas bem piores. Só continuava ansiosa por uma explicação. Mas tive que conter minha curiosidade, até irmos nos deitar, quando Sebastião, finalmente, me disse que o velho, que agora repousava no quarto ao lado, era seu pai. Eu levei um susto, mas disfarcei, abaixando o rosto. "Seu pai"?, perguntei-lhe. "Como assim"? "De onde ele vem"?; "Porquê apareceu por aqui, assim, derrepente?";  as perguntas foram saindo da minha boca, aos borbotões, até  que Tião me abraçou, e me pediu calma. "Ele vai ter que ficar um tempo morando aqui com a gente, pois ele e minha mãe brigaram, e ela foi morar com meu irmão Nico, em Araçatuba¨.  Nico era o irmão mais velho, por parte de mãe, filho do primeiro marido de Juventina, minha sogra, que eu ainda não conhecera.  

Alguns dias depois eu descobriria, meio por acaso, ouvindo uns fiapos de conversa aqui e acolá, entre eles, que a estória não era bem essa. Pelo que pude entender, todos eles -- os irmãos -- incluindo a mãe e o pai, estavam fugindo da polícia. Um dos irmãos, o Joaquim, cujo apelido era Jicão, tinha caído em desgraça, ou seja, tinha sido preso, e alcaguetado todo mundo. Mais uma vez, como Tião já me contara, cada um fugia para uma região do estado, para confundir as autoridades, despistando-as. E, dessa vez, pretendiam usar nossa casa como esconderijo.  Por isso,  mandaram o velho na frente, para avaliar com o filho, se o lugar era seguro e se poderiam vir se esconder ali -- "na nossa casa" -- ,  que nem nossa era, mas da fazenda, e ai se o dono soubesse que estávamos acobertando criminosos e foragidos. Mas meu marido não tinha saída: eram seus irmãos, sua família, a única que tinha, e ele não sabia falar-lhes não. Não demorou muito para eu perceber que ele sofria uma espécie de chantagem deles, quando se viam nesses apuros. 

Nossa rotina, no entanto, nada mudara, com a chegada do velho. De manhãzinha, Sebastião saía para a lida, e eu me dividia entre os cuidados com nossa Manuelita , e os afazeres da casa, do quintal e dos animais.  Aparentemente, estava tudo normal. Meu sogro passava o dia entre o bule de café, sobre o fogão, e a rede, onde se deitava e fumava, com o olhar perdido na estrada. Manuelita era sua neta, mas ele não demonstrara o menor interesse por ela. Nem sequer a pegou no colo, nenhuma vez, nos dias em que ficou por ali, como um animal acuado. 

Sebastião não comentava nada comigo, mas eu sentia nossos corações apertados. O cheiro do mêdo da polícia bater em nossa porta, ia ficando cada vez mais forte. Numa outra noite, após o jantar, Sebastião e o velho foram tirar um dedo de prosa na varanda, enquanto eu aproveitava para lavar a louça e preparar a mamadeira da Manuelita que, embora dormisse tranquila,  sempre acordava berrando, de fome. Eita menina esganada. Vi, pela fresta da porta, que ficara entreaberta,  quando meu marido deitou na rede, e o velho puxou uma cadeira, bem próximo dele, enrolando seu cigarro de palha.  Tião  começou a fazer o mesmo, como se imitasse os gestos do pai. Era incrível a semelhança entre eles: apenas a idade os diferenciava. 

Então eu ouvi, claramente, o velho dizendo, com seu sotaque espanholado: "o Joãozão matou a mulher e a jogou no rio Paranapanema, com uma pedra amarrada no pescoço, para sumir nas àguas, ser devorada pelos peixes...", contou, entredentes.  Meu  corpo inteiro estremeceu, e quase fui ao chão, não querendo acreditar no que tinha ouvido; larguei copos e pratos na bacia, e dei uns tres passos para a frente, colando meu corpo à porta, para poder escutar melhor, a conversa. Eles falavam muito baixo, é claro, quase sussurravam, mas deu parabéns entender quando o velho acrescentou: "depois do crime o Joãozão fugiu para as fazendas próximas, até vir cair na nossa casa em Tupã, se arranchando lá para não ser pego.  Mas o Jicão deu com a língua nos dentes, quando foi prêso lá em Irapuru, por causa da "parecença" entre eles. Disseram que ficou uma semana na cadeia, sem comida nem àgua; só apanhando, até falar sobre seu parentesco com o tal bandido que buscavam. Aí, soltaram ele, mas o bestalhão resolveu pernoitar lá em casa, no caminho de volta. 

 Apareceu quando o sol já estava bem amarelinho, no céu, igual a um ovo frito, com as nuvens espalhadas em volta, como se fossem sua clara branca. Infelizmente, as notícias não eram boas. Ele tinha sido solto em troca de informações sobre o paradeiro do Joãozão. Não tivemos escolha. Fugimos todos de madrugada, cada um para um lado, e eu vim pará cá, Nenê. (Nenê era o apelido do meu marido, entre a família dele). Me perdoe, me perdoe. Sei que você é o único trabalhador sério, de todos os meus filhos, mas eles também têm o meu sangue. É uma descendência amaldiçoada, eu sei, mas é o que Deus deu pará mim, assim como deu Caim e Abel para Adão. Adão não teve sorte com os filhos. E eu também não. O mundo já começou desgraçado, mesmo", falou, meio choroso. 

Sebastião não comentou nada. A lua cheia já ia alta  no céu, e ele resolveu entrar. Apagou os lampiões e abraçou o pai, trazendo-o para dentro. Ele sentia pena do pai, mas sabia que estava arriscando sua vida, a minha e a de nossa bebê, se concordasse em receber os irmãos em nossa casa. Por isso, não respondeu nada. Era seu jeito de ir ganhando tempo. Quem sabe os irmãos decidissem buscar outras paragens,enquanto isso. E, graças a Deus, foi o que aconteceu. Ninguém apareceu, o velho se despediu depois de alguns dias, montado em uma mula preta, bem arriada, que Sebastião "emprestou" para ele, mas, é claro, sabendo que nunca mais a veria de volta. 

Depois de algum tempo, soubemos por um parente distante, que eles teriam ido embora para os cafundós do Paraná. Sebastião me contou que essa era a estratégia deles, para sobreviverem, sem serem presos, após algum delito grave: buscavam uma chácara ou sítio para tomar conta, onde ficavam escondidos por meses, fazendo todo o serviço da roça, cuidando dos animais, enquanto planejavam outro roubo. Ou seja: a família do meu marido era uma verdadeira quadrilha, e eu estava estupefata de descobrir tudo isso; mas, tarde demais para fazer qualquer coisa; e quando ameacei largar Sebastião e voltar para a casa dos meus pais, sua ira veio à tona. Ele me agarrou, me dando uns safanões, gritando que eu não era nem louca de fazer aquilo. E ainda me ameaçou: " ai de você, se me largar, Antonietta. Eu busco os meus irmãos e vamos juntos lá no sítio dos seus pais. Não vai sobrar ninguém para contar essa estória.". 

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