segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cap.10 - Fim de férias carregando sacos

O mês de férias com meus avós, obvious, passava muiiito rápido. As brincadeiras e estripulias, aliadas à liberdade eram tantas que, um belo dia acordávamos e já era hora de fazer malas para voltar. A volta, é claro, não tinha nem comparação com os preparativos da ida. Roupas, meias e sapatos eram jogados dentro das malas.  Quase tudo o que tínhamos trazido viravam trapos de chão, portanto, a bagagem sempre diminuia. Exceção para os  presentes dados pelos meus avós, além dos tios, tias, primos e primas, que sempre iam nos visitar nos finais de semana, no sítio do Matão, nesse período, quando a família ficava, de fato, completa e mais barulhenta. 

Ganhávamos brinquedos, roupas e sapatos usados e os famosos gorrinhos de tricô da nossa prima mais velha, a belíssima Celia, que disputávamos aos tapas, porquê nunca havia um para cada, então, quem o pegasse primeiro, levava. Alguém sempre ficava sem, e acabava chorando, mas essa era a regra. Tudo o que não coubesse nas malas, viria em sacos de algodão, e eles sempre vinham cheios, pois minha avó providenciava kilos de arroz, feijão, farinha de trigo, milho, queijos e cachos de banana. Nós parecíamos os sete anões voltando para casa, pois como "serviço de criança é pouco, mas quem não aproveita é louco" -- minha avó dizia --, cada uma era responsável por um saco, devidamente amarrado com um nó e pesado o suficiente, de acordo com nosso tamanho, para que pudéssemos carregá-los durante a viagem.  Isso não chegava a ser um problema pois quem carregaria esse peso extra seriam os meios de transporte usados, entre Assis e Marília: ônibus e trem.  O perrengue, mesmo, ficava no trecho entre as estações, onde faríamos a baldeação de um para o outro, e com tempo sempre cronometrado. Aí, sim, parecíamos uns retirantes vindos da caatinga, com seus respectivos sacos nas costas, e nunca me esqueço da minha mãe caminhando rápido na frente, com o bebê "da vêz" num braço e a mala mais pesada, no outro, capitaneando a fila indiana de crianças-duendes. 

Num desses translados, chegamos atrasados à estação ferroviária, e o trem já estava começando a movimentar suas rodas. Não sei como minha mãe conseguiu correr e atirar o bebê para o ajudante do maquinista, que, com suas luvas branquíssimas, pegou-o  no ar. Em seguida, ela foi jogando cada uma de nós, para ele, que esticava os braços e ia pegando-nos e puxando para dentro do comboio. Enquanto isso, alguém já havia avisado ao maquinista, e ele parara o trem para que minha mãe conseguisse embarcar, também. Partimos, olhando, saudosos, para nossas malas e sacos que haviam ficado para trás, largados sobre os trilhos. É  certo que elas nos foram enviadas no trem do dia seguinte, mas isso é algo que foi resolvido pelos adultos e não sei contar-lhes como aconteceu...