Havia se passado uns tres meses, desde aquela madrugada rompida com o choro de minha mais nova irmãzinha, Marcia. Mas, como diziam os adultos, uma pulga insistia em me coçar atrás da minha orelha. Porquê será que meu pai não tinha chegado em casa até aquela hora, sabendo que minha mãe estava prestes a dar a luz? Incomodava-me aquela ausência, e desde então, comecei a prestar atenção ao comportamento dele. Quando caía a tarde, ele já ia chegando da lida na fazenda, apeava do cavalo, tirava sua montaria, escovava o bichão, e o levava para comer -- capim ou cana, sempre frescos, que minha mãe já tinha cortado, à tarde -- e, depois, dava um tapa na garupa do animal, fazendo-o galopar rápido e entrar na cocheira.
Então, ele entrava em casa, tirava o chapéu -- quase sempre um bonito panamá preto, quebrado à direita e à esquerda --e pendurava-o na parede do quartinho onde costumava guardar selas, arreios, laços, esporas, e outras traquitanas do gênero. Depois, descalçava as botas, enquanto minha mãe já vinha trazendo o balde de àgua morna, para preparar-lhe o banho, num dos quartos, mais ao fundo da casa. Esse ritual era sagrado. A água tinha sido tirada do poço, fervida no fogão à lenha, e só então era misturada com mais àgua fria, para ficar na temperatura ideal, que não lhe queimasse a pele. Já sem as botas e as meias, meu pai tirava a camisa, e ficava com o dorso nu, com seu peito cabeludo, todo à mostra. Ele não era muito alto, mas tinha os braços fortes, o tronco bem definido, e a barriga "tanquinho", a la abdomens sarados à base de academia. Que no caso dele, eram o cabo da enxada e a doma dos cavalos, mesmo. Aquela máquina de músculos era definida pelo trabalho braçal com os cavalos, puxando plantadeiras, arando e tombando terras, numa rotina exaustiva no campo, que começava com o canto dos galos e bem antes antes do sol nascer, todos os dias, meses e anos a fio, com um único descanso semanal, aos domingos. Eu me esgueirava atrás das portas, e ficava admirando a beleza máscula do meu pai: o seu rosto com traços fortes de ascendência espanhola. Os olhos eram grandes com as pupilas verdes e brilhantes como azeitonas, protegidos por uma espessa camada de cílios, bem longos. As sobrancelhas também eram grossas e quase se tocavam, uma na outra. O nariz não era bonito, mas se harmonizava com o conjunto do rosto, que se completava com a boca de lábios finos, sempre cobertos por um bigode preto e muito bem aparado. Usava longas costeletas até o pé da orelha, e durante o banho, ficava horas à fio, com um espelho na mão, fazendo a barba, rigorosamente aparada, todos os dias. O cabelo era castanho bem escuro, com fios encorpados e ondulados, que ele mantinha arrumado, a base de gel.
Era vaidoso o meu pai, muito vaidoso, alias, ao contrário de minha mãe, que vivia com uns vestidões compridos e um lenço amarrado na cabeça, sem usar nenhuma maquiage ou acessório, que lhe destacasse a beleza agressiva, originária de italianos da antiga Toscânia. Durante o banho, era comum ver minha mãe abaixada, lavando-lhe os pés, que ele deixava para fora, com as pernas penduradas à beira da tina. Ou então, ela esfregava-lhe as costas, com aquelas imensas buxas naturais, que ela mesma plantava e colhia, por cima da cerca da casa. Quando ele terminava o banho, ela entregava-lhe a toalha, que já estava à mão, dobradinha, limpa e bem passada, em cima de uma cadeira. Ele se levantava da tina, e enrolava a toalha na cintura. Eles não se preocupavam em fechar a porta do quarto de banhos, então, ela ficava sempre entreaberta, e muitas vezes, eu chegava a ver o corpo do meu pai, totalmente nu. Via-lhe o sexo, mas não sabia o que era. Só achava esquisito ele ter aquelas bolotas penduradas entre as pernas, em vez de ter uma xoxota branquinha e sem pelos, como a minha. Achava aquilo esquisito, feio, e não sabia porquê era diferente das mulheres. Eu ficava intrigada, mas tinha medo e vergonha de perguntar para minha mãe.
Então, comecei a observar que, quase todas as noites, após o banho demorado, o meu pai se vestia novamente, sempre escolhendo as melhores camisas, de mangas longas, que ele usava com os punhos dobrados, enfiadas por dentro da calça. Essa, por sua vez, era sempre de um tecido fino, tergal ou linho, que minha mãe já tinha deixado passadas à tarde, com seu indefectível ferro de brasas. E o traje se completava com meias e sapatos de couro pretos, sempre muito bem engraxados. Pela minha mâe, claro.
Todo emplumado, ele passava uma àgua de cheiro atrás das orelhas, pegava o chapéu, e saía, outra vez, sem nos dizer nem boa noite. Dizia apenas que não demoraria, que estava indo ver algum negócio, sem maiores explicações, que minha mãe também não lhe perguntava. Lembro-me que nunca jantava conosco. Almoçar, também não, já que passava o dia inteiro na roça. E então, eu, minhas irmãs pequenas e minha mãe, começávamos o nosso banho. Minha mãe renovava a àgua da tina e nos deixava lá, mergulhadas, todas juntas, por um bom tempo. Era uma maneira de nos manter entretidas, enquanto ela se desvencilhava das últimas tarefas do dia.
E nós três -- eu, a Rosangela e a Roseli, ficávamos lá, lavando-nos umas as outras, fazendo bolhas de sabão e, às vezes, brigando também, pela sua posse -- um pedaço de pedra mal-cheirosa, que era feito da barrigada dos porcos que meu pai matava, uma vez por mês. Enquanto brincávamos na tina do banho, minha mãe preparava uma sopa e o mingau do bebê. Ao terminar, preparava os nossos pratos, para a sopa ir esfriando, e nos chamava para jantar. Eu ajudava as minhas irmãs a terminarem o banho, enxugava-as e vestia-lhes com os nossos pijamas de bolinhas vermelhas ou azuis, e corríamos, famintas, para a mesa.
Jantávamos em silêncio, à luz de lamparina à querosene, que iluminava mal o ambiente, projetando nossas sombras nas paredes, como se fossemos personagens de um filme mudo. Sentada ao pé do fogão, minha mãe comia com o prato na mão, ou então, ficava com o bebê no colo, dando-lhe de mamar no peito. Seu semblante era sempre cansado e triste. Ela quase nunca sorria ou brincava com a gente. Vez ou outra, eu percebia que uma lágrima quieta, escorria-lhe pela face, mas ela engolia o choro com a sopa, e não reclamava de nada.
Terminado o jantar, nós íamos direto para a cama. Não havia tevê, computador, nem livros de historinhas, para ninguém se entreter. Nossa casa era muito simples, quase não tínhamos móveis, apenas as coisas e objetos essenciais: camas e guarda-roupas nos quartos, um jogo de sofá na sala, mesa e cadeiras na cozinha. Nenhum objeto de decoração, sobre os móveis ou nas paredes. Nada, nem uma fotografia branco e preto, ou um porta-retrato de alguém querido. Por isso, o jeito era ir dormir, pois não havia, mesmo, o que fazer. Às vezes, eu ainda brincava um pouco com minhas duas irmazinhas pequenas, fazendo-as se cansarem com guerras de travesseiros. Ou então, tinha que ficar balançando o berço, para fazer o bebê dormir, porquê minha mãe ainda continuava um bom tempo na cozinha. Ela ainda lavava toda a louça, e só depois ia tomar o seu banho. Eu não sei se ela trocava a àgua da tina mais uma vez. Sei que ela sempre despejava-a no quarto do banho e o lavava, todas as noites, aproveitando aquela àgua com sabão para deixar tudo muito limpo. Só então ela ia para o quarto, para se deitar, mas, se o bebê ainda estivesse acordado, ela o embalava no colo, dando-lhe os peitos para mamar, mais uma vez.
Eu não sabia quantos anos minha mãe tinha naquela época, mas, comparando-a com meu pai, eu a achava muito velha. Mas não saberia explicar porquê. Então eu ia para o meu quarto, e também dormia, não antes de rezar três ave-marias e um pai-nosso, orações que eu aprendera desde bebezinho, com a minha mãe. E, nessas orações, eu me lembro que sempre pedia para o Menino Jesus trazer o meu pai logo, de volta para casa. E demorava para dormir, ansiando por sua chegada.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Capítulo 1 - Meu pai era domador de cavalo chucro
Meu pai era domador de cavalo chucro. Daqueles que nunca tinham visto um arreio na vida. Garanhão, de preferência. Alazões, tordilhos, pampas, negros, brancos, a pelagem não importava. Ele pegava o bicho de jeito, botava-lhe o cabresto, segurando-o bem curto, e pulava-lhe sobre o lombo. O animal, assustado, empinava. Depois, jogava o corpo de um lado para o outro, boileava, dava coices até na sombra, só para derrubar o cavaleiro. Mas que nada. Tião Mirante, como era conhecido, era o peão mais talentoso das redondesas. A cada cavalo domado, sua fama corria léguas.
Eu, muito pequena, ainda – devia ter uns seis anos – por essa época, ficava espiando tudo pela porta entreaberta da sala, sem coragem para sair lá fora. Vez ou outra, quando o bicho saltava muito, ajoelhava e pedia para Nossa Senhora que lhe protegesse, que não o deixasse cair, pois não queria ver meu pai estendido no chão: morto. Não entendia aquela coragem. Intrigava-me tanta fúria. Homem e animal se fundiam numa imagem agressiva, onde domador e domado eram uma coisa só. Uma só vontade: o domínio sobre o outro.
Quando, finalmente, o cavalo desistia de pular, pois meu pai jamais saia de cima de seu lombo, estava pronto para ser selado e ir para a lida da fazenda. Puxar carroça, agora, seria o seu destino. Quando muito, uma charrete, nos finais de semana, quando iríamos para a cidade, às missas domingueiras, e depois comer pipoca e tomar sorvete, assistindo ao coreto da praça. Mas isso era coisa rara de acontecer. Uma ou outra vez por ano, às vezes na Páscoa, outra no Natal, quando, com o dinheiro da colheita do café, era época de comprar roupas e sapatos. Me lembro de uma cena que se repetiu durante vários anos, comigo e todas as minhas irmãs sentadinhas, lado a lado, descalças, enquanto o vendedor ia tirando e pondo sapatinhos, um pé, sim, outro não. E a cada ano, aumentavam os pés. Ou os sapatos, não sei, porquê criança, lá em casa, não nascia: esporulava. Todo ano, a cegonha trazia mais um bebê. Eita cegonha certeira, meu Deus. Ela nunca errava a pontaria, deixando as crianças caírem no vizinho.
Mas, por aqueles anos, a cegonha e sua história para boi dormir estava com os dias contados. Numa madrugada, minha mãe me acordou, em prantos. Meu pai não estava em casa. Minhas irmãs – Rafaela e Rebeca– dormiam seus sonos de anjos. Então eu descobri porquê ela estava com aquela barriga imensa. Havia mais um bebê a caminho, e dessa vez, a cegonha teria que se transformar na parteira, d. Aparecida. Minha mãe me pediu, chorando, que fosse correndo até a casa dela, e que a trouxesse para ajudá-la no parto. Eram umas quatro horas da manhã, estava muito escuro lá fora, só se ouvia o latido de cães e o coaxar de sapos. Eu não estava entendendo direito aquela história, mas não tinha tempo de perguntar mais nada. Sabia que a vida de minha mãe corria perigo, e saí numa corrida desabalada.
Nossa casa ficava na parte mais alta de um terreno em declive, que acabava num riachinho, lá embaixo. Lembro que corri muito, e quando cheguei ao rio, fiquei com medo de atravessá-lo, pois não sabia nadar – até hoje não sei!!! Então, respirei fundo e saltei, com todas as forças e altura que minhas pequeninas pernas conseguiram, e alcancei a outra margem, sem cair na água. A casinha da parteira já se avistava, mas eu ainda teria que andar mais um quilômetro, mais ou menos, para chegar até lá. Eu só pensava na minha mãe lá sozinha, que resolvera ter um filho sem a visita da cegonha, e corria mais ainda. Quando cheguei à porta do casebre, a noite se fantasiou de cães negros, que vieram me cercando, latindo muito a minha volta, e ameaçando me atacar. Meu coração disparava de medo. Minha voz nem saía direito, mas me lembro de gritar o nome da D. Aparecida, seguidamente, não sei quantas vezes.
Derrepente, uma janela começou a se abrir, com aquele barulho de dobradiças que choram lágrimas de ferrugem, e a sombra de um rosto feminino foi desenhada pela lua, revelando seus cabelos negros, soltos e desalinhados. Levei outro susto com aquela aparição fantasmagórica, pois a mulher que eu tinha vindo buscar, usava os cabelos trançados e enrolados em volta da cabeça, sempre muito distinta, com jeito de rezadeira. E a mulher descoberta pela lua, tinha cara de feiticeira. D. Aparecida esticou o pescoço fora da janela e logo me reconheceu, no meio dos cães que continuavam latindo, muito bravos. Ela soltou um grito e a cachorrada estacou, derrepente. Um ou outro, ainda uivava. Eu fui perdendo o medo e dei mais alguns passos para chegar até a porta. Ela me perguntou o que eu queria e fui logo dizendo que minha mãe estava lá em casa, sozinha, e com um bebê na barriga. “Ela me pediu para vir buscar a senhora correndo, pois a cegonha não pode vir dessa vez”, gritei.
D.Aparecida me abriu a porta e me arrastou para dentro de uma cozinha pequena, de chão batido. Havia um banco de madeira, bem tosco, com uma moringa dágua sobre ele, num canto. A mulher embrulhou os longos cabelos em um xale preto e, de camisola mesmo, sentou-se no banco, dobrou a moringa sobre os joelhos, e encheu uma bacia velha com a àgua fria do pote. Lavou os pés muito brancos e calçou umas botinas bem gastas, próprias para andar naqueles terrenos encharcados. Então, aprumou-se, me pegou pela mão, e saímos as duas em disparada, de volta a minha casa.
Continuo não me lembrando como atravessei o riacho, outra vez. Mas, enquanto corríamos, ela ia rezando em voz alta, rogando as santas protetoras das mães desamparadas que tivesse piedade dela, da minha mãe grávida, e de todas as outras mães do mundo. Eu não sabia se a ajudava na reza ou se chorava, porquê sentia que podia perder minha mãe, e ficava com ódio da cegonha daquele ano, preguiçosa, que não quisera trazer mais um irmãozinho do mesmo jeito que os outros, enrolado num pano e pendurado no bico, como sempre.
D. Aparecida corria muito, quase me arrastando, e eu olhava o céu, cheinho de estrelas, e com uma lua imensa, que clareava nosso caminho na terra. Sentia muito medo e frio, e corria o máximo que minhas perninhas podiam. Afinal, chegamos em casa. E graças a Deus, minha mãe não estava mais sozinha. Meu pai já estava com ela e a ajudava no trabalho de parto. A parteira foi para a cozinha, pegou todas as panelas e caldeirões que encontrou pela frente e encheu-os com água do pote. “Bom mesmo seria água quente, mas com fogão à lenha, não podemos nos dar a esse luxo”, ela resmungava, enquanto ia levando as vasilhas para o quarto.
Claro que minha ajuda e companhia foram dispensadas assim que chegamos à porta da casa. "Criança não pode saber dessas coisas", foi logo avisando meu pai, indicando-me o caminho do cômodo, onde dormiam minhas irmãs pequenas. Deitei-me ao lado delas, e fiquei lá, quietinha e tensa, atenta a qualquer barulho que viesse do quarto de minha mãe. Sabia que dentro de poucos minutos, haveria mais um bebê na casa, e só conseguia pensar em como seria sua carinha, se seria parecida comigo, com a Rafaela, que era moreninha, de cabelos encaracolados, ou com a Rebeca bem polaquinha. Mas a Marcita não saiu parecida nem comigo, nem com nenhuma das outras duas. Ela chegou chorando forte, mas determinada a viver, apesar dos seus pouco mais de um quilo e meio, muito abaixo do peso e tamanho ideais para um bebê saudável. Tinha o cabelo castanho bem escuro, que, com o tempo, também seria cacheado, e os traços de seu rosto, cuja cabeça cabia na palma de uma mão, eram bem desenhados.
Poucos dias após aquele tumultuado parto, minha mãe já estava em pé, levando cavalos para pastarem e tirando àgua de poço bem fundo. Logo, sobrou para mim a tarefa de cuidar daquela criança recém-nascida. Com apenas seis anos, eu já fora recrutada para a tarefa de babá, embora não soubesse, ainda, nem tomar banho sozinha.
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