domingo, 12 de julho de 2020
CAP. 13 - NOITE DE NATAL
Era noite de Natal, e como fazíamos em todos os anos, eu e minhas irmãs tínhamos combinado com nossas primas de nos encontrarmos na praça, em frente à Catedral, um pouco antes da Missa do Galo. Assistíriamos juntas à cerimônia do nascimento de Jesus, e depois iriamos todas à ceia celebrada na casa da tia Pierina. Naquela noite, entretanto, eu cheguei muito adiantada ao ponto de encontro, minhas irmãs viriam depois, e minhas primas ainda não haviam chegado. Então, eu olhei a minha volta e percebi que as lojas da Avenida Rui Barbosa ainda estavam abertas, o que sempre acontece às vésperas do Natal, quando o comércio decide encerrar suas portas um pouco mais tarde, com a intenção de lucrar um pouco mais com a data. Encantada pelo brilho das luzes coloridas, penduradas em cada poste e nas fachadas das lojas, eu resolvi caminhar um pouco para vê-las de perto. Quando dei por mim, estava parada em frente à vitrine da joalheria Vieira Dias, deslumbrada com os colares, brincos, anéis e pulseiras que brilhavam em suas caixas, dispostas de um jeito que cada uma se destacasse da outra, sem ofuscá-las. Fiquei ali parada por não sei quanto tempo, meio que em êxtase, diante de toda aquela beleza e luxo, que me esqueci do relógio, e também do compromisso com minhas irmãs, primas e da própria missa.
Derrepente, senti uma presença atrás de mim, e antes que eu me virasse para ver quem era, um rosto se aproximou do meu pescoço, enquanto seu corpo quase colava ao meu, sussurrando ao meu ouvido: qual foi a jóia que você gostou mais? Escolha-a e eu vou comprá-la para você. Antes que ele terminasse a frase, eu me virei, entre surpresa e assustada, e me deparei com a imagem de um rapaz moreno, com cabelos ondulados muito pretos, costeletas compridas, um bigode refinado e os olhos mais verdes e profundos que eu jamais vira na vida. Ele tinha se afastado um pouco, e olhei-o de baixo acima, admirada com seu terno branco, sapatos muito bem engraxados, e um chapéu Panamá, também branco, em suas mãos. Então, ele repetiu a pergunta: qual foi a jóia que você mais gostou? Será o seu presente de Natal. Por favor, escolha-a. Ainda sem acreditar que estava vendo ou vivendo uma situação tão idílica como aquela, empurrei-o um pouco para o lado, e sai correndo, dizendo-lhe que não o conhecia e não costumava aceitar presentes de estranhos. Ei, espere, meu nome é Sebastião. Sebastiããoooooo, falou mais alto. E o seu, perguntou, quase gritando. Eu já estava do outro lado da calçada, atravessara a avenida sem nem olhar para os lados, e continuara a correr até à porta da igreja. Párei, respirei fundo, e entrei, meio furtiva, esgueirando-me por entre as colunas, até enxergar minhas irmãs e primas lá na frente, ajoelhadas, aguardando a comunhão. Fui andando, devagarinho, até chegar perto delas, e me ajoelhei também. Tonietta, até que enfim, disse Alice. Por onde andou? Chegamos à praça no horário combinado e você desapareceu, falou bem baixinho, para não chamar a atenção do padre. Essa era a primeira vez que ela nos visitava, desde que decidira mudar-se para São Paulo, e viver num convento, entre freiras carmelitas. Por isso, eu respondi-lhe: quem resolveu ser freira foi você, não eu. Quando chegarmos em casa, eu te conto. Abri o meu evangelho e comecei a rezar o Credo, em voz alta, para que ela me deixasse em paz.
Após a ceia, dormimos na casa da tia Pierina, e na manhã seguinte, ou no Dia de Natal, guardamos com cuidado nossas roupas e sapatos "de igreja", calçamos nossas botinas velhas, que poderiam amassar o barro da estrada, e voltamos para o nosso sitío, no Matão. Partimos à pé, umas 9 horas da manhã, e após duas horas de caminhada, chegamos à porteira. Meu irmão caçula, Gracindo, veio correndo nos receber, com seu sorrisão sempre muito alegre e carinhoso, nos abraçando. Cecília, Alice, Tonheta, não me deixaram ir com vocês, de novo, à Missa do Galo. Eu já tenho treze anos, caramba. Quando vou poder ir ver esse galo morfético? disparou, choramingando. O ano inteiro tinhamos prometido que o levaríamos à missa conosco, e na última hora, o despistamos, mais uma vez. Confesso que senti um pouco de remorso por têr ajudado minhas irmãs a enganá-lo, mas logo passou. O fato é que não queríamos testemunhas de possíveis encontros com candidatos a namorados, na cidade, o que vez ou outra, acontecia, e o Cindo ainda era muito crianção. Muito propavelmente ele chegaria em casa e iria correndo contar qualquer coisa que visse ou ouvisse, aos nossos pais. O que eles sem dúvida, reprovariam. Ou pelo menos, era o que temíamos. Então, a promessa se renovava: no ano que vêm, você irá sem falta.
Mas aquele Natal estava predestinado a ser diferente dos outros 28 natais celebrados, até então, desde que eu viera ao mundo ali mesmo, no Sítio do Matão. Eu e minhas irmãs fomos esquentar água para tomar banho, trocamos nossas roupas sujas de estrada, por vestidos mais leves, sapatos mais confortáveis e fomos ajudar nossa mãe a pilotar os fogões. Logo mais, teríamos um super-almoço natalino, com tudo a que tinhamos direito: frango assado, recheado com farofa, macarrão, arroz -de-forno, rabanadas, pudim-de-pão, sem contar com o porco-de-tacho, chiando em sua própria gordura, sobre a fogueira armada no terreiro de secar café. Meu pai, tios e irmãos já haviam levado cadeiras, bancos e uma mesa grande lá para fora, onde o almoço seria servido, durando o resto do dia, entre muita comida, bebida, e canções natalinas, com vozes meio trêbadas e letras trocadas.
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