sexta-feira, 12 de maio de 2023

Capítulo 23 - Pés de cafés vestidos de noivas

 Com a chegada do inverno, cinco meses depois de aportarmos na nova fazenda, a paisagem era outra. O cafezal ostentava pencas de florzinhas brancas e miúdas, exibindo os galhos de cada planta, dando a impressão de milhares de pés-de-noivas vestidas para casar;  ofertando  seus mínimos bouquets para o céu límpido e muito azul de junho. Mais quatro meses e já estaríamos entrando na estação da colheita, com os frutos vermelhinhos, parecidos com cerejas maduras. Até lá, o trabalho era rezar para que não houvesse nenhuma geada, o que mataria as flores e, consequentemente, a produção do café. E, enquanto isso, manter limpas as carreiras entre cada linha,  onde o mato, impiedoso, crescia sem dó. Boias-frias, empregados da fazenda, e contratados de outras cidades, pegavam o serviço por empreita. A cada manhã, uns cincoenta homens se dividiam entre os eitos do cafezal, e passavam o dia descendo a enxada em cada praga ou folha verde que encontravam, até o entardecer. 

Ao pôr-do-sol, subiam, cansados, cada carreira, até se encontrarem em volta do poço onde matavam a sede com baldes de água fresquinha, antes de pularem na carroceria do velho Ford que os levaria de volta para casa. Os que tinham mais sorte, moravam na própria fazenda -- eram os meeiros, que trabalhavam mediante uma parte na venda do café, após a colheita -- e podiam chegar em casa mais cedo. Sebastião vinha junto com eles da roça, esperava todos embarcarem ou tomarem o caminho da colônia, para só depois vir para casa. Era sempre o primeiro a chegar na entrada do cafezal, e o último a sair. Seu trabalho era administrar a produção, desde antes da florada, com a limpeza dos eitos, até a colheita, passando pela secagem dos frutos no terreiro, o ensaque e a guarda nas tulhas, até que os compradores viessem levá-los para os centros de distribuição, em São Paulo, ou para o Porto de Santos, de onde eram exportados. 

Naquele dia, uma sexta-feira atípica, muito quente para a época do ano, Sebastião estava mais agitado que de costume. Impaciente com os peões, assim que os viu acomodados na carroceria do caminhão, ou pegando a estrada de volta à colônia, montou seu cavalo baio, apenas com um pelego, e saiu em disparada. Eu estava na janela da varanda, olhando para o horizonte e terminando de crochetar o sapatinho branco que Manuela usaria no seu batismo, no domingo de manhã, quando o vi passando, à galope, lá embaixo, na estradinha, e ultrapassar a porteira. O sol ainda estava alto, apesar da hora, cujos ponteiros já passavam das seis, há algum tempo. Meu radinho de pilha estava sintonizado na transmissão da Ave Maria, hábito que eu herdara de minha mãe, e repetia-o, todos os dias, durante a semana. E nunca me esquecia de colocar-lhe ao lado, um copo de água para ser benzida pelo padre Donizetti, durante a oração do ofertório. Beber essa àgua benta era um ritual desde que me conhecia por gente.  

Inquieta com sua saída repentina, sem vir até em casa para me avisar, me voltei para a janela, na esperança de vê-lo retornando; e não demorou muito, para que sua imagem apontasse no alto da estrada, já de volta; porém, algo estranho me chamou a atenção: ele trazia alguém montado em sua garupa. A poeira que o cavalo levantava com seu galope obnubilava a cena e não dava para ver direito se era homem ou mulher que ele carregava atrás de si, segurando-lhe a cintura. Só quando eles entraram na fazenda e começaram a subir em direção à colônia de casas dos meeiros, é que eu comecei a enxergar melhor quem vinha montado atrás de Sebastião: era um senhor, já bastante encurvado pelos anos, embora o chapéu de palha enfiado na cabeça não lhe deixasse à mostra o rosto. Mas, pelas roupas, estava claro que era, sim, um homem já bem entrado em anos. Quem seria aquela figura? Eu não fazia a menor ideia e o jeito era esperá-los chegar à porta de casa, para satisfazer minha curiosidade.

Não demorou nem dez minutos, e já ouvi o trote do cavalo, com passadas cada vez mais estreitas, até que parou na porta de casa. Para minha surpresa, o velhinho saltou da garupa, ligeiro como um gato-do-mato, e eu confesso que me assustei com tanta destreza. Sebastião apeou em seguida, amarrando o cavalo no portão, onde sempre havia um balde cheio de água limpa para matar a sede do bicho e, ao lado, um cocho com cana fresquinha, que eu tinha picado no final da tarde, como fazia todos os dias. Se tinha uma coisa que era sagrada para o meu marido, era o cuidado com os animais. Ele parecia se entender com eles só pelo olhar, numa relação de cumplicidade que era difícil vê-lo ter com as pessoas, creio que nem comigo. Por isso, ai de mim, se ele chegasse e não encontrasse a água fresca e a cana picada, ou um punhado de capim, para que o cavalo pudesse se banquetear, antes de sair aos pinotes, para o piquete. Bom, mas eu já estou perdendo o fio da meada, aqui, quando o que me interessava mesmo era saber quem era o senhor que o acompanhara até em casa. 

Enquanto ficara divagando o trato com o cavalo, Sebastião e o homem-da-garupa  tinham me deixado ali fora, sem entender nada, e entrado ambos na varanda da cozinha. O velho tirara o chapéu deixando seu rosto à mostra, além de sua cabeleira cheia e muito branca. Quando meus olhos cruzaram com os dele, senti que já o conhecia: na verdade, eram os mesmos olhos verdes, enormes, como duas azeitonas, iguaizinhos aos do meu marido. Obvio que era algum parente seu. Mas quem? Meu marido passara por mim, ao lado do cocho, sem me apresentá-lo. Ambos entraram para a casa, e eu fui atrás deles. O velhinho mal tirara as botas, e se jogara na rede, colocando o chapéu no rosto, como quem fosse dar um cochilo. Sebastião fizera quase o mesmo: arrancara botas e chapéu, dobrara as pernas da calça, ficando de pés-no-chão, enquanto me pedia que lhe fervesse àguas para um escalda-pés. Pronto. Eu respirei fundo, e fui para o fogão, onde já adiantara a janta, deixando as panelas sobre ele, e pegando uma chaleira cheia de água quente, que eu fazia questão de deixá-la ali, já preparada para esse pedido do meu marido, embora ficasse morrendo de vontade de fazer o mesmo, pois minhas pernas estavam bastante inchadas, de tanto ficar em pé, na lida com a casa e os animais, o dia inteiro, mas nunca tinha coragem de fazê-lo, achando que fosse cometer alguma heresia, que mulher era feita para aguentar o tranco, sem reclamar nunca, sem nunca pensar em si mesma, mas isso já é outra estória. 

Peguei a chaleira e levei-a ao encontro dele, que já estava sentado em frente à bacia, esperando pela água. Despejei-a sobre a bacia e ele foi mergulhando os pés, bem devagarinho, para sentir-lhe a temperatura. Com o olhar de encontro ao meu, acenou com a cabeça, me confirmando que estava boa e era suficiente. Só queria relaxar um pouco, mesmo, e tirar o chulé causado pelo suor das botas calçadas o dia inteiro. Seus pés eram muito brancos e bonitos, as unhas sempre cortadas, não tinham uma mancha ou bolha. Eu olhava para os meus e sentia vergonha: sempre com as unhas sujas de  lama da horta, fedendo ao adubo que eu mesma fazia, com a mistura do esterco de vacas com os das galinhas, para impulsionar o crescimento das verduras e legumes que eram a base da nossa alimentação. Sem isso, provavelmente, passariamos fome, pois o dinheiro que Sebastião trazia para casa no final do mês era muito pouco para comprar a lista de mantimentos para um mês inteiro e, ainda, produtos para os animais e a própria roça.  Embora fertilizantes ou defensivos fossem obrigações do patrão, nem sempre isso vinha na quantidade que o cafezal exigia, obrigando-nos a comprá-los, dizendo que no final da colheita, pagaria esses gastos extras, o que, quase sempre, fingia esquecimento.  

Enquanto isso,  o velho se enrolara na rede, mais parecido com um defunto fresco, desses que são carregados durante o velório, sem nem um caixão para fazer-se-lhes de morada, com destino à cova fria. Senti um arrepio subir dos pés ao pescoço, percorrendo-me toda a espinha. Quem seria aquela figura estranha? Será que finalmente Tião iria me dar alguma explicação? Me contar quem era o velho que dormia na rede? 


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