Passado o susto, Tião se deu conta que estava deitado num quarto que ele não conhecia, cercado de pessoas também desconhecidas, e de tão assustado, porém bem mais calmo, parecia não entender como é que tinha vindo parar ali. Assim, tivemos que refrescar-lhe a memória. No caso específico, foi esquentar-lhe a memória, pois minha mãe surgiu derrepente, com um bule enorme de café, despejou o líquido quente numa caneca de ágata branca e descascada, e estendeu-a para ele, pedindo que tomasse o devido cuidado para não queimar-se, outra vez. Tião, que já estava meio sentado na cama, com uma perna estendida sobre o colchão, e outra para fora dele, como quem ameaça sair correndo, a qualquer momento, pegou a caneca, fêz um gesto de agradecimento, com a cabeça, enquanto minha mãe murmurou-lhe, ao pé do ouvido: vamos, de-sem-bu-cha. quem é você? Como é que veio parar aqui? Onde conheceu a Tonheta? (Ai, como eu odiava quando ela me chamava assim, mas esse era o apelido nada carinhoso que ela me destinava, quando estava brava comigo; fingi que não entendi nada, deixando-a a falar com ele...) E ela continuou com a metralhadora giratória em punho: de onde você vem? quem são seus pais, onde eles moram, e etc..etc...etc...
Nem preciso dizer-lhe, caro leitor, que o rapaz, que tinha ficado meio esverdeado com o ferimento, nessa altura já tinha passado por todas as cores do arco-íris, encontrando-se mais branco que um rabo de lua minguante. Mas logo percebi que ele era esperto demais para safar-se do interrogatório, pois foi logo devolvendo as perguntas para a minha mãe: Donaaaaa .....como é mesmo o nome da senhora, ao que ela retrucou-lhe: Ana. Ana Demarchi Romagnoli. ... pois então, Donana, ele respondeu, já se tornando íntimo, ao usar uma abreviatura do nome de minha mãe. Vim para essas redondezas, para conhecer um plantel de cavalos crioulos, do senhor Joaquim Delfino, que como voces devem saber, é um famoso criador desses animais aqui na região. Como isso aconteceu justo uma semana antes do Natal, visto que o "seo" Quinzinho só pode me atender nesse período, muito ocupado que ele é, eu acabei não conseguindo voltar para Marília, onde moro com os meus pais e me vi sozinho, em plena véspera de Natal, numa cidade desconhecida e longe deles. Foi quando me lembrei de que não há família mais divina que a do Nosso Senhor Jesus Cristo, para ser visitada na noite de aniversário de seu nascimento, me decidindo ir bater à porta de sua morada, ou seja, à Catedral de São Francisco de Assis, e com eles, passar a santíssima noite. Mas quis o destino que, um pouco antes de atravessar a rua, em direção à Igreja, eu vislumbrasse a mulher mais linda que já vi na minha vida, parecendo a Virgem Maria, com todo o perdão da comparação, parada em frente à vitrine de uma joalheria, onde admirava, com olhos muito encantados, este belíssimo colar de pérolas, que ela agora traz atado ao seu pescoço. Não sei, juro-lhe Donana, repetindo-lhe a abreviatura do nome, o que me passou pela cabeça, mas não consegui conter o impulso de oferecer-lhe a jóia, sem nenhum outro interesse, juro-lhe, em nome do Menino Jesus, Donana. (de novo e pela terceira vez, ele a chamara de Donana, e minha mãe ainda não fizera nenhum gesto de pegá-lo pelos fundos dos cornos e jogá-lo pela janela, coisa que tenho certeza, ela já pensara em fazer, desde que o vira descendo o caminho da porteira, montado em um cavalo tordilho, muitíssimo bem encilhado com um arreio que parecia de ouro, de tão reluzente.
O curioso é que, enquanto bebericava o café, que minha mãe serviu-lhe mais umas três vezes, ele continuou contando a estória de como é que tinha vindo parar ali, na Água do Matão, denominação daquela região de sitiantes, em plena noite de Natal, sem conhecer ninguém que pudesse acolhê-lo num evento tão íntimo das famílias. Foi quando eu percebi que a festa lá fora no terreiro tinha micado e as poucas pessoas que sobraram tinham se aboletado no quarto, todas muito curiosas para ouvir a estória de Sebastião, que alguns disseram já tê-lo visto pelas redondezas, embora não estivessem certos disso.
Quando percebeu que estava no centro das atenções, ele se acomodou melhor, esticou as pernas, recostou-se à cabeceira da cama, inspirou profundamente, e fechou os olhos, como se mergulhasse numa existência anterior a dele, onde os detalhes, tal qual uma pintura que se esboroa no tempo, já estivessem gastos, e por isso fossem difíceis de serem descritos. Meu pai Antonio Sevilha Rodrigues, chegou ao Brasil no ano de 1914, como clandestino de um navio espanhol. Veio escondido de seus pais, para acompanhar a família do amigo Ernesto Maximiano. Eles haviam acabado de receber uma boa herança e resolveram investí-la em terras no Brasil, mais especificamente na região de Marília, interior de São Paulo, onde compraram uma fazenda produtora de café. Junto com eles, trouxeram diversas famílias que apostaram tudo o que tinham nas possibilidades de uma vida nova nessas terras abaixo do Equador.
Depois de quatro meses no mar, o navio aportou no Rio de Janeiro, e sem perda de tempo, meu pai e a família Maximiano, tomaram um trem até São Paulo, para, logo em seguida, rumarem, também de trem, até Marilia, onde uma nova vida esperava por todos eles. O pai de Ernesto, Francisco Maximiano tinha vindo alguns meses antes para comprar a fazenda, e fora recepcionar a família na estação de trem, com muita saudade de todos e cheio de esperanças de passar o comando dos negócios para o filho Ernesto. O que ele não esperava era encontrar o amigo inseparável do filho, o Antonino, como o chamava, entre os viajantes. Mas a surpresa o deixou feliz, pois sabia que o rapaz era bom de enxada, isto é, não recuava diante do trabalho duro, o que já não se podia dizer de Ernesto, que adorava um rabo de saia e noitadas regadas à moda de rabecas, violas de cravo e castanholas, que quase sempre acabavam em serestas embriagadas pelas noites sevilhanas.
Da estação de trem, embarcamos em várias carroças puxadas por parelhas de burros, e já partimos para o nosso destino, a famosa fazenda Santa Manuelita, uma das maiores e mais promissoras da região, na produção do café arábica, o mais procurado e com preço mais elevado no mercado de exportação. Sim, a fazenda não só produzia o melhor café da região, como o exportava para o mundo. Só descansamos no primeiro dia da chegada, tempo suficiente para arrumarmos nossas tralhas em alguns cômodos que o dono da casa havia reservado para nós, incluindo o meu pai e agora agregado, Antonio. Todos estavam mortos de fome e se fartaram de tirar a barriga da miséria, depois de quarenta dias de viagem marítima. À mesa do jantar foram servidos carnes assadas de cabrito, pernil de porco, frango inteiro recheado com farofa à moda espanhola, arroz temperado com legumes e colorau, que dava-lhe uma cor avermelhada, além de saladas, melancias vermelhinhas que eles nunca havia visto antes, e outras frutas que eles consideraram exóticas, como abacaxis, mangas e cajus. Ao sair da mesa, estavam tão empanturrados de comida e bebida, pois claro não faltou o bom e velho vinho Sangue de Boi, aquele do garrafão de cinco litros, que mal conseguiram chegar aos seus quartos, e já foram despencando pelo caminho mesmo.
No dia seguinte, a casa parecia que tinha sido invadida por uma horda de saltimbancos e maltrapilhos, com gente dormindo no corredor, embaixo da mesa de jantar, no sofá, na cozinha, enfim, menos nos quartos, pois com exceção do dono da casa, ninguém conseguiu acessá-los. Francisco Maximiano ao ver a cena dantesca, quase se arrependeu de ter mandado as passagens marítimas para trazer sua família de além-mar, mesmo porquê sua amada mulher D. Djanira Augusta, já tinha vindo com ele, alguns anos antes, quando vieram pesquisar o mercado imobiliário para tentar comprar a tão sonhada fazenda. Mas logo se lembrou do filho Ernesto, do amigo Antonino, e dos demais parentes que não poderiam ter sido esquecidos à propria sorte, e o pensamento se dissipou-lhe na cabeça. Com um estalo do chicote que sempre trazia atado à cintura, acordou a parentada. Mesmo ainda embriagados e cansados da viagem, estalaram os olhos e já foram se levantando, antes que o próximo estalo reverberasse sobre os próprios lombos. Pelo menos foi o que pensaram.
Mas Francisco Maximiano estava longe de ser um senhor de escravos, felizmente. E meu pai já era um queridinho seu, por assim dizer, pois como já disse ele e Ernesto tinham crescido juntos, e por isso era tido como um filho para o senhor Max como o chamavam, em casa. Ao vir para o Brasil com eles, tornou-se como se costuma dizer "um membro da familia", mas, obviamente, daqueles que nunca receberão parte da herança, por mais que trabalhem por ela. Foi o caso de Antonio Sevilha Rodrigues, que após servir por quase vinte anos ao fazendeiro e seus herdeiros, fazendo de um tudo na ´propriedade, desde a contratação de peões para trabalharem na colheita do café, até responsabilizar-se pela exportação, junto com Ernesto, pois esse não perdera seus modos de dândi espanhol, e enquanto o amigo trabalhava duro para fazer crescer sua fortuna, ele apenas a desfrutava. Com a morte do velho Max, as coisas mudaram muito na fazenda Santa Manuelita. Os herdeiros entraram numa luta renhida pela partilha da fazenda, e como não lhe sobrara nem um vintém, meu pai pegou sua velha mala que trouxera na viagem da Espanha até o Brasil, colocara-lhe dentro alguns pertences, e foi-se embora, sem nem ao menos despedir-se do ingrato Ernesto.
Como tinha boa formação escolar, ainda que espanhola, onde cursara o equivalente ao ensino clássico, além de vinte anos de experiência como administrador da Santa Manuelita, uma das propriedades mais famosas da região do centro-oeste paulista, Antonino não teve dificuldade em encontrar logo um emprego que lhe permitisse exercer as mesmas funções, em outra fazenda, próxima dali. Como administrador, descobriu que tinha direito a uma casa só para sua moradia, o que nunca sequer foi mencionado enquanto esteve a serviço dos "maximinianos". Feliz com a nova oportunidade de trabalho, Antonino, que já estava com 34 anos, começou a pensar que já era hora de construir a sua própria família, e foi então que decidiu-se pela busca de uma noiva. Ao contrário das famílias abastadas, que se encarregavam desse trabalho para juntar pretendentes a casamentos, ele descobriu que não tinha ninguém por si, e que teria que ir em busca de sua princesa, sozinho.
Desde então, longe de Ernesto, haviam acabado as noitadas regadas a saraus enluarados ao som das castanholas e dos sapateados, Antonino percebeu que agora já era um homem feito e que haveria de encontrar uma noiva que o quisesse, ainda que emigrante e pobre, mas com um emprego digno, com salário e casa onde poderiam morar e criar os filhos. Sim, filhos, pois este era o seu maior sonho: ter uma penca de filhos, de preferência todos homens, que lhe ajudassem com o trabalho na fazenda e, claro, com economia e persistência, quem sabe um dia Deus lhes abençoaria com a compra da própria terrinha. Afinal de contas, nenhum imigrante deixa o seu país para trabalhar para os outros, eternamente. O sonho de todos é sempre ser alguém, e ser alguém, no caso e naquela época, implicava em ter um pedaço de chão para chamar de seu.