quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Capítulo 22 - Cerejas com sabor de café

 Eu ainda nem me recuperara direito da trágica morte do meu bebê Getúlio, quando descobri que já estava grávida de novo. Os primeiros três meses sem menstruar passaram batidos e confesso que nem me atentei para isso, até que percebi um certo enjôo, todas as vezes em que ia fazer o almoço e o cheiro da gordura de porco que exalava da lata quase me fazia vomitar sobre as panelas, em cima do fogão. Depois de alguns dias passando por esse desconforto, foi que me atinei sobre a possibilidade de uma nova gravidez, já que Sebastião era um touro no cio e, mesmo percebendo que eu não sentia nenhuma vontade de transar com ele, tamanha era a minha tristeza, ele não tinha nenhuma sensibilidade para respeitar a minha dor e me dar um tempo. Portanto, não foi nenhuma surpresa quando percebi que  engravidara, outra vez, apenas tão pouco tempo após a morte do meu filhinho. A novidade também não me trouxe nenhuma alegria. Eu já devia estar entrando no quarto mês, e só de pensar que teria que passar mais uns seis meses cada vez mais gorda, com cada vez mais dificuldade para fazer os serviços da casa, sentia um desânimo profundo, uma vontade de me deitar e não me levantar nunca mais, ou então, de sumir no mundo.

Mas a realidade da vida que se apresentava para nós, todos os dias, ao nascer do sol, era brutal.  Não tinha nenhuma complacência com choramingos ou tristezas passadas. Mal o dia raiava e Tião já estava de pé, vestindo sua roupa de lida, calçando suas botas, e se preparando para mais uma jornada nos cafezais, onde os grãos estavam vermelhinhos e não podiam se dar ao luxo de esperar para serem colhidos, ou caíriam no chão, desperdiçados. Essa era a época do ano mais puxada, pois além do pessoal que morava na própria fazenda, já preparado para fazer esse trabalho, sempre era preciso contratar gente de fora, para que o serviço fosse executado no tempo mais curto possível. Para mim, era como se a vida se dividisse em dois tempos: fora, ela corria célere, com homens e mulheres deslizando suas mãos pelos galhos carregados dos cafeeiros, puxando-lhes os frutos, que iam se amontoando no chão, para depois serem rastelados e ensacados. Dentro de mim, era como se estivesse presa, amordaçada a uma corrente que eu mesma enrolara em meu corpo. Se arrependimento matasse, eu estaria morta. Morria de saudades dos meus pais, principalmente de minha mãe, e não acreditava que tinha sido capaz de lhes dar tanto desgosto, ao fugir de casa com um desconhecido.

Depois que ele tomava um gole de café preto e saia para a lida --sua função era administrar a colheita -- eu ficava horas na janela, contemplando o sol frio e iluminado de inverno, tentando entender como tudo entre nós acontecera tão depressa, sem levarmos em consideração os costumes da época, que mandavam homens e mulheres em idade de se casar, que buscassem pessoas conhecidas, de preferência do mesmo bairro, vizinhos ou até mesmo primos, pois o que mais as famílias temiam era a entrada de forasteiros em seus lares, como maridos ou esposas de seus filhos. Eu fazia esse mea culpa todos os dias, até me lembrar que já estava virando uma solteirona, com 29anos, tendo tido dúzias de pretendentes, os quais foram todos rechaçados pelo meu pai. Ninguém nunca era bom o suficiente para ele autorizar um namoro, quanto mais um noivado. Os anos foram se passando, minhas irmãs e irmão mais novos se casando e eu lá, ficando para "titia", apelido dado às moças que não conseguiam arranjar um marido e acabavam ficando solteironas, transformadas em cuidadoras dos velhos pais. 

Meus devaneios à janela, nesses dias, eram intermináveis e muito angustiantes. Às vezes sentia as lágrimas correrem pelo meu rosto, e eu não fazia nada para estancar o choro, até que sentisse a pele ardendo. Derrepente, percebia que já era quase hora do almoço e Tião e seus homens deviam estar me esperando com a bóia-fria. Eu despejava o feijão nas marmitas, cobria-as com o arroz, fritava uns torresmos, ovos, linguiça, embrulhava tudo num embornal, e saía em direção à roça, para levar-lhes a comida. O cafezal devia ficar há uns dois quilômetros de casa, e essa caminhada me fazia bem, pois era quando eu me distraía um pouco com o que ia encontrando pelo caminho: o ninho de uma galinha carijó, chocando seus pintinhos, o pastor alemão sempre tentando pegar alguma raposinha faminta, os pássaros que vinham se alimentar com as cerejas docinhas com sabor de café, e vez ou outra, uma cobra cascavel chacoalhando seus guizos, embaixo de algum cafeeiro, para que ninguém fosse mordido por ela, alegando que não fora avisado. 

Naquele dia não foi diferente. Ou melhor, foi totalmente diferente. Quando eu cheguei à fronteira do cafezal, próxima dos primeiros pés, comecei a ouvir gemidos e grunhidos estranhos. Parei

, derrepente, entre assustada e curiosa, pois poderia ser algum animal no cio, ou machucado, embaixo de algum cafeeiro. Era melhor ter cuidado, assim, comecei a andar mais devagar, com muito cuidado para evitar os gravetos secos que estalavam embaixo dos sapatos, para fazer o menos barulho possível. Assim, de mansinho, fui me aproximando, mais e mais de onde vinham os sons, e, eis que ao erguer alguns galhos do de um cafeeiro, encontro Sebastião sentado sobre o quadril de uma mulher, deitada no chão, e ele já erguendo as calças e se limpando, usando as folhas secas do chão  mesmo, ou passando as mãos nos galhos. A mulher parecia morta, embaixo dele. Estava ainda naquele momento de êxtase após o coito, e não percebeu ninguém se aproximando. Ao ver a cena, e mais, ao ter certeza que o homem que eu via fazendo sexo com outra mulher embaixo de um pé-de-café, era mesmo meu marido, meu coração foi se despedaçando, derretendo feito espuma de sabão, minhas pernas enfraqueceram, bambolearam, e eu caí, desmaiada. Foi a sorte dos dois vagabundos, que me trouxeram para casa jogada sobre uma carriola. Quando abri os olhos, estava no meu quarto, sobre minha cama, e Sebastião tentava fazer um chá para me acalmar. Ao me lembrar do que vira, eu comecei a chorar convulsivamente, ao que ele retrucava que eu não vira nada, que não era verdade, que eu tinha dormido, antes de sair para levar o almoço, e que tinha tido um pesadelo. Sem um pingo de vergonha na cara, nem de remorso, ele passava as mãos pelo meu rosto, me enxugava as lágrimas, e levava a xícara aos meus lábios, tentando me fazer tomar o chá de camomila mais amargo de toda a minha vida. 

Os anos se passariam e ele jamais admitira que eu tinha mesmo visto aquela cena. Entretanto, tempos depois, eu já estava quase de nove meses do meu segundo filho (ou filha), e uma moradora da colônia viera em casa, me fazer uma grave fofoca: segundo ela, Tião teria recebido no cafezal uma moça que dizia que tinha trabalhado lá com eles, na última colheita de café, e que estava grávida de quatro meses, e que o filho era dele, do Tião Mirante. Ela queria receber o que tinha direito com o trabalho executado na fazenda e que, ao nascimento do seu filho, que ele registrasse a criança. Para meu maior horror, a vizinha ainda me contou que Sebastião pegou o relho que estava sobre a carroça e começou a estalá-lo no ar, enquanto gritava com a mulher, fazendo a começar a correr, ameaçando-lhe de dar uma surra, caso ela lhe aparecesse, novamente, para cobrar qualquer coisa que fosse. Chorando, a mulher se pôs a correr, apavorada, é claro, e sumiu no meio das ruas do cafezal, até perder-se de vista. Nunca mais se soube dela ou do filho que estava esperando, que seria irmão ou irmã do outro(a) bebê que estava na minha barriga.  A estória confirmou o que eu já sabia sobre o meu marido e seus rabos de saia, e, embora muito triste, dava razão a minha lucidez: não fora pesadelo, coisa nenhuma. 



Nenhum comentário: