Quando eu me casei com Antonio, ainda não tinha nem trinta anos, embora já fosse viúva e tivesse um filho de cinco anos para criar, meu doce Quinzinho. Nós nos conhecemos numa praça de Marília, num domingo à noite, após a missa das seis horas. Eu havia sido despejada por falta do pagamento do aluguel da casa onde morava, e estava desesperada, sem saber o que fazer ou para onde ir, quando apareceu aquele rapaz forte, com jeito de trabalhador rural, brincando com o meu filho. Ele pagou uma maçã do amor para o menino, que, amoroso como era, mesmo estando com muita fome, Quinzinho trouxe a maçã para mim. Eu vi aquilo e já lhe dei uma bronca: "o que é isso, moleque, quantas vezes eu tenho que te falar que não se pode aceitar nada de estranhos?". Mas, apesar de sua pouca idade, meu filho não se deixava dobrar facilmente. Para tudo, ele tinha uma resposta ou explicação, e sempre muito plausível: "Mamãe, deixa de ser orgulhosa. O moço só está sendo gentil e a senhora sempre me ensinou a ser gentil com os outros, também. Por isso, não vi mal nenhum em aceitar a maçã que ele me ofereceu. Toma vai, dá uma mordida", falou, insistindo para que eu comesse um pedaço da fruta. Eu acho que me senti como a Eva no paraíso, sendo tentada pela serpente, para comer a maçã. era muiiiito convincente, com aqueles olhos azuis imensos e um sorriso tão lindo que mais parecia um anjo, o que tornava impossível lhe dizer não"!!! Pronto. Tinha sido picada pelo veneno. Abracei Quinzinho, colocando-o sobre os meus joelhos, enquanto comíamos juntos, daquela maçã deliciosa, que era a única refeição que estávamos tendo, naquele dia.
Antonio acompanhara toda a cena, olhando-nos sentado em um banco, do outro lado da rua, mas bem na nossa frente. Não sei se ele ouviu toda a conversa, mas assim que acabamos de comer, ele surgiu com dois pacotinhos de pipoca, um em cada mão: "olha o que eu trouxe aqui, pipoca doce, vocês gostam?". Quinzinho abriu uns olhos imensos, quase arrancando um saquinho das mãos dele; e eu, não consegui esconder que meia maçã não tinha sido suficiente para matar minha fome.
Depois de comermos meio pacote cada um, o moço sentou-se no banco ao nosso lado: "Eu me chamo Antonio", disse-me, estendendo-me uma das mãos. "E você, qual é o seu nome?" De novo, não tive escolha, senão responder-lhe: " Juventina, mas todos me chamam de Tina", disse-lhe, entregando até meu apelido. "Então Tina, me conta tudo sobre você e o seu filho: porquê voces estão sozinhos aqui nesta praça? Não me parece que vieram à missa ou estejam passeando..."observou, olhando-me direto nos olhos. Eu levantei a cabeça e também o encarei. Foi quando percebi que ele era bem bonito. Branco, mas queimado de sol, o cabelo muito preto e ondeado, penteado para cima, costeletas imensas e um bigode bem aparado. Os olhos eram azuis, como os do meu finado esposo. Ele mais se parecia com um pai, do que com um homem que estivesse interessado numa mulher...e acho que por isso que estava ali conosco, mas eu ainda não tinha certeza. Sem saber o que fazer, resolvi confiar nele, contando-lhe nossa estória.
Comecei falando-lhe que eu tinha sido casada durante seis anos e ficado viúva a pouco mais de seis meses. Meu marido trabalhava numa fábrica de fogos de artifício. E, para meu desespero diário, eu vivia esperando uma notícia triste, pois seu serviço era muito perigoso. Para piorar, os donos da fábrica não davam nenhuma assistência aos trabalhadores que sofriam constantes acidentes como amputações, ou mortes, deixando suas famílias desamparadas. É exatamente esse o nosso caso: meu marido havia morrido numa explosão de fogos, numa noite em que ele já estava muito cansado, pois trabalhara mais de 24 horas seguidas, para entregar à tempo, os fogos encomendados pela Igreja que iria fazer uma grande festa para Nossa Senhora Desatadora dos Nós, naquele final de semana. A encomenda estava atrasada e ele resolveu virar a noite, junto com alguns colegas, para não deixar o pároco na mão, que, aliás, tinha o hábito de ir -- pessoalmente -- à fábrica, acompanhar a produção dos fogos, como se fosse um menino brincando com algo proibido. Mal sabia ele do risco de vida que corria".
"Derrepente ouvimos um grande estrondo e lá se foi o padre pelos ares, junto com uma enorme explosão que levou junto não só o meu marido, mas todos os outros empregados que estavam com ele, além da própria fábrica que foi inteirinha queimada. Quando ouvi o barulho, meu coração que vivia apertado, se contraiu mais ainda. Corri para o portão e ainda pude ver os rolos de fumaça preta que subiam para os céus, além da sucessiva explosão de fogos que causaram uma linda pirotecnia nos ares, comemorando -- talvez -- o fim daquele trabalho ingrato que mal dava para comprar comida para nossa pequena família.
Não recebi nem as cinzas do corpo dele, quanto mais alguma indenização. Tanto eu e meu filho, como as outras famílias, ficamos à deriva, sem saber o que fazer, pois as contas não paravam de chegar, é claro. Eu consegui pagá-las durante seis meses, com o pouco dinheiro que havia economizado para alguma emergência, mas, naquele mês eu atrasara o pagamento do aluguel e o dono não quis saber de conversa. Ele entrou na casa, junto com uns capangas, que foram logo encaixotando nossas coisas e nos despejando da lugar. Deixaram-nos na rua, literalmente, pois até a chave da casa trocaram....bom, eu deixei os poucos móveis que tinha, amontoados junto com as caixas, na calçada, ao lado do portão -- rezando para que ninguém os roubasse -- , e vim para a Praça com o Quinzinho, para distraí-lo, enquanto pensava numa solução.
Antonio ficara quieto, durante todo o tempo em que lhe contei minha pequena tragédia, ouvindo-me com bastante atenção. Quando terminei, senti o meu rosto molhado pelas lágrimas. Ele tirou um lenço, muito branco e perfumado do bolso, e começou a enxugá-las com muita delicadeza. Depois de alguns segundos ele me fêz um convite inesperado e à queima-roupa: "bem, se vocês não tem mais casa, nem para onde ir, que tal irem comigo para a fazenda onde eu moro, Juventina? ". Eu não esperava de jeito nenhum por aquela proposta e fiquei toda sem jeito, incrédula. Foi quando Quinzinho, muito esperto, que ouvira tudo, em silêncio, abraçado comigo, disparou: "Mãe, eu vou adorar morar numa fazenda. Vamos, mãe?". "Fica quieto, menino", beliscando-o, de leve, num dos braços. "Você nem sabe o que está falando. Imagine, morar no mato", falei com certo desdém, emendando: "E a escola"? "No sítio, não tem escola, não é mesmo, Antonio?". E ele respondeu de pronto: "Aí é que você se engana: temos, sim, uma escola na fazenda, onde a própria mulher do dono e sua filha mais velha, ensinam a ler e escrever, tanto crianças quanto jovens e, até, adultos. Tenho certeza que o Quinzinho vai se dar muito bem com a molecada de lá, tão espertas como ele".
A conclusão dessa estória vocês já leram no capítulo tal, onde Antonio deu a sua versão. De fato, naquela noite ele viera passear na pracinha, atrás de uma jovem que estivesse querendo se casar, tanto quanto ele, e arrumou uma mulher viúva e já com um filho à tiracolo. Ele me convenceu a montar na sua garupa, junto com o menino, me prometendo, antes, que jamais tentaria qualquer intimidade comigo. Disse ainda que já estava passando da idade de se casar, sempre trabalhando, e que agora, tinha resolvido pensar nisso. Que poderíamos namorar por um tempo, e se desse certo, nos casaríamos sem mais delongas. Tudo dentro da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois ele era um homem temente a Deus, e fazia questão de ter a sua vida dentro dos preceitos da Nossa Santa Igreja. Ao ouvir tudo isso, fiquei mais tranquila, ao ponto de tomar a decisão de ir com ele, mas meu coração quase saía pela boca, de tanta insegurança, afinal, estava levando "meu filho" a embarcar nessa aventura. Assim que chegamos à fazenda, quando tive uma oportunidade, procurei um cantinho para agradecer a Santo Antonio, pois no dia de seu aniversário, ele me permitira conhecer um homem chamado Antonio, que me salvou de dormir na rua, junto com meu Quinzinho, mudando todo o meu destino.