segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Cap. 16 - Os espanhóis eram saltimbancos



Passado o susto, Tião se deu conta que estava deitado num quarto que ele não conhecia, cercado de pessoas também desconhecidas, e de tão assustado, porém bem mais calmo, parecia não entender como é que tinha vindo parar ali. Assim, tivemos que refrescar-lhe a memória. No caso específico, foi esquentar-lhe a memória, pois minha mãe surgiu derrepente, com um bule enorme de café, despejou o líquido quente numa caneca de ágata branca e descascada, e estendeu-a para ele, pedindo que tomasse o devido cuidado para não queimar-se, outra vez. Tião, que já estava meio sentado na cama, com uma perna estendida sobre o colchão, e outra para fora dele,  como quem ameaça sair correndo, a qualquer momento, pegou a caneca, fêz um gesto de agradecimento, com a cabeça, enquanto minha mãe murmurou-lhe, ao pé do ouvido: vamos, de-sem-bu-cha. quem é você? Como é que veio parar aqui? Onde conheceu a Tonheta? (Ai, como eu odiava quando ela me chamava assim, mas esse era o apelido nada carinhoso que ela me destinava, quando estava brava comigo; fingi que não entendi nada, deixando-a a falar com ele...) E ela continuou com a metralhadora giratória em punho: de onde você vem? quem são seus pais, onde eles moram, e etc..etc...etc...

Nem preciso dizer-lhe, caro leitor, que o rapaz, que tinha ficado meio esverdeado com o ferimento,  nessa altura já tinha passado por todas as cores do arco-íris, encontrando-se mais branco que um rabo de lua minguante. Mas logo percebi que ele era esperto demais  para safar-se do interrogatório,  pois foi logo devolvendo as perguntas para a minha mãe: Donaaaaa .....como é mesmo o nome da senhora, ao que ela retrucou-lhe: Ana. Ana Demarchi Romagnoli. ... pois então, Donana, ele respondeu, já se tornando íntimo, ao usar uma abreviatura do nome de minha mãe. Vim para essas redondezas, para conhecer um plantel de cavalos crioulos, do senhor Joaquim Delfino, que como voces devem saber, é um famoso criador desses animais aqui na região. Como isso aconteceu justo uma semana antes do Natal, visto que o "seo" Quinzinho  só pode me atender nesse período, muito ocupado que ele é, eu acabei não conseguindo voltar para Marília, onde moro com os meus pais  e me vi sozinho, em plena véspera de Natal, numa cidade desconhecida e longe deles.  Foi quando me lembrei de que não há família mais divina que a do  Nosso Senhor Jesus Cristo, para ser visitada na noite de aniversário de seu nascimento, me decidindo  ir bater à porta de sua morada, ou seja, à Catedral de São Francisco de Assis, e com eles, passar  a santíssima noite. Mas quis o destino que, um pouco antes de atravessar a rua, em direção à Igreja, eu vislumbrasse a mulher mais linda que já vi na minha vida, parecendo a Virgem Maria, com todo o perdão da comparação, parada em frente à vitrine de uma joalheria, onde admirava, com olhos muito encantados, este belíssimo colar de pérolas, que ela agora traz atado ao seu pescoço. Não sei, juro-lhe Donana, repetindo-lhe a abreviatura do nome, o que me passou pela cabeça, mas não consegui conter o impulso de oferecer-lhe a jóia, sem nenhum outro interesse, juro-lhe, em nome do Menino Jesus, Donana. (de novo e pela terceira vez, ele a chamara de Donana, e minha mãe ainda não fizera nenhum gesto de pegá-lo pelos fundos dos cornos e jogá-lo pela janela, coisa que tenho certeza, ela já pensara em fazer, desde que o vira descendo o caminho da porteira, montado em um cavalo tordilho, muitíssimo bem encilhado com um arreio que parecia de ouro, de tão reluzente. 

O curioso é que, enquanto bebericava o café, que minha mãe serviu-lhe mais umas três vezes, ele continuou contando a estória de como é que tinha vindo parar ali, na Água do Matão, denominação daquela região de sitiantes, em plena noite de Natal, sem conhecer ninguém que pudesse acolhê-lo num evento tão íntimo das famílias. Foi quando eu percebi que a festa lá fora no terreiro tinha micado e as poucas pessoas que sobraram tinham se aboletado no quarto, todas muito curiosas para ouvir a estória de Sebastião, que alguns disseram já tê-lo visto pelas redondezas, embora não estivessem certos disso. 

Quando percebeu que estava no centro das atenções, ele se acomodou melhor, esticou as pernas, recostou-se à cabeceira da cama, inspirou profundamente, e fechou os olhos, como se mergulhasse numa existência anterior a dele, onde os detalhes, tal qual uma pintura que se esboroa no tempo, já estivessem gastos, e por isso fossem difíceis de serem descritos. Meu pai Antonio Sevilha Rodrigues, chegou ao Brasil no ano de 1914, como clandestino de um navio espanhol. Veio escondido de seus pais, para acompanhar a família do amigo Ernesto Maximiano. Eles haviam acabado de receber uma boa herança e resolveram investí-la em terras no Brasil, mais especificamente na região de Marília, interior de São Paulo, onde compraram uma fazenda produtora de café. Junto com eles, trouxeram diversas famílias que apostaram tudo o que tinham nas possibilidades de uma vida nova nessas terras abaixo do Equador. 

Depois de quatro meses no mar, o navio aportou no Rio de Janeiro, e sem perda de tempo, meu pai e a família Maximiano, tomaram um trem até São Paulo, para, logo em seguida, rumarem, também de trem, até Marilia, onde uma nova vida esperava por todos eles. O pai de Ernesto, Francisco Maximiano tinha vindo alguns meses antes para comprar a fazenda, e fora recepcionar a família na estação de trem, com muita saudade de todos e cheio de esperanças de passar o comando dos negócios para o filho Ernesto. O que ele não esperava era encontrar o amigo inseparável do filho, o Antonino, como o chamava, entre os viajantes. Mas a surpresa o deixou feliz, pois sabia que o rapaz era bom de enxada, isto é, não recuava diante do trabalho duro, o que já não se podia dizer de Ernesto, que adorava um rabo de saia e noitadas regadas à moda de  rabecas, violas de cravo e castanholas,   que quase sempre acabavam em serestas embriagadas pelas noites sevilhanas. 

Da estação de trem, embarcamos em várias carroças puxadas por parelhas de burros, e já partimos para o nosso destino, a famosa fazenda Santa Manuelita, uma das maiores e mais promissoras da região, na produção do café arábica, o mais procurado e com preço mais elevado no mercado de exportação. Sim, a fazenda não só produzia o melhor café da região, como o exportava para o mundo. Só descansamos no primeiro dia da chegada, tempo suficiente para arrumarmos nossas tralhas em alguns cômodos que o dono da casa havia reservado para nós, incluindo o meu pai e agora agregado, Antonio. Todos estavam mortos de fome e se fartaram de tirar a barriga da miséria, depois de quarenta dias de viagem marítima. À mesa do jantar foram servidos carnes assadas de cabrito, pernil de porco, frango inteiro recheado com farofa à moda espanhola, arroz temperado com legumes e colorau, que dava-lhe uma cor avermelhada, além de saladas, melancias vermelhinhas que eles nunca havia visto antes, e outras frutas que eles consideraram exóticas, como abacaxis, mangas e cajus. Ao sair da mesa, estavam tão empanturrados de comida e bebida, pois claro não faltou o bom e velho vinho Sangue de Boi, aquele do garrafão de cinco litros, que mal conseguiram chegar aos seus quartos, e já foram despencando pelo caminho mesmo. 

No dia seguinte, a casa parecia que tinha sido invadida por uma horda de saltimbancos e maltrapilhos, com gente dormindo no corredor, embaixo da mesa de jantar, no sofá, na cozinha, enfim, menos nos quartos, pois com exceção do dono da casa, ninguém conseguiu acessá-los. Francisco Maximiano ao ver a cena dantesca, quase se arrependeu de ter mandado as passagens marítimas para trazer sua família de além-mar, mesmo porquê sua amada mulher D. Djanira Augusta, já tinha vindo com ele, alguns anos antes, quando vieram pesquisar o mercado imobiliário para tentar comprar a tão sonhada fazenda. Mas logo se lembrou do filho Ernesto, do amigo Antonino, e dos demais parentes que não poderiam ter sido esquecidos à propria sorte, e o pensamento se dissipou-lhe na cabeça. Com um estalo do chicote que sempre trazia atado à cintura, acordou a parentada.  Mesmo ainda embriagados e cansados da viagem, estalaram os olhos e já foram se levantando, antes que o próximo estalo reverberasse sobre os próprios lombos. Pelo menos foi o que pensaram. 

Mas Francisco Maximiano estava longe de ser um senhor de escravos, felizmente. E meu pai já era um queridinho seu, por assim dizer, pois como já disse ele e Ernesto tinham crescido juntos, e por isso era tido como um filho para o senhor Max como o chamavam, em casa. Ao vir para o Brasil com eles, tornou-se como se costuma dizer "um membro da familia", mas, obviamente, daqueles que nunca receberão parte da herança, por mais que trabalhem por ela. Foi o caso de Antonio Sevilha Rodrigues, que após servir por quase vinte anos ao fazendeiro e seus herdeiros, fazendo de um tudo na ´propriedade, desde a contratação de peões para trabalharem na colheita do café, até responsabilizar-se pela exportação, junto com Ernesto, pois esse não perdera seus modos de dândi espanhol, e enquanto o amigo trabalhava duro para fazer crescer sua fortuna, ele apenas a desfrutava. Com a morte do velho Max, as coisas mudaram muito na fazenda Santa Manuelita. Os herdeiros entraram numa luta renhida pela partilha da fazenda, e como não lhe sobrara nem um vintém, meu pai pegou sua velha mala que trouxera na viagem da Espanha até o Brasil, colocara-lhe dentro alguns pertences, e foi-se embora, sem nem ao menos despedir-se do ingrato Ernesto. 

Como tinha boa formação escolar, ainda que espanhola, onde cursara o equivalente ao ensino clássico, além de vinte anos de experiência como administrador da Santa Manuelita, uma das propriedades mais famosas da região do centro-oeste paulista, Antonino não teve dificuldade em encontrar logo um emprego que lhe permitisse exercer as mesmas funções, em outra fazenda, próxima dali. Como administrador, descobriu que tinha direito a uma casa só para sua moradia, o que nunca sequer foi mencionado enquanto esteve a serviço dos "maximinianos".  Feliz com a nova oportunidade de trabalho, Antonino, que já estava com 34 anos, começou a pensar que já era hora de construir a sua própria família, e foi então que decidiu-se pela busca de uma noiva. Ao contrário das famílias abastadas, que se encarregavam desse trabalho para juntar pretendentes a casamentos, ele descobriu que não tinha ninguém por si, e que teria que ir em busca de sua princesa,  sozinho. 

Desde então, longe de Ernesto, haviam acabado as noitadas regadas a saraus enluarados ao som das castanholas e dos sapateados, Antonino percebeu que agora já era um homem feito e que haveria de encontrar uma noiva que o quisesse, ainda que emigrante e pobre, mas com um emprego digno, com salário e casa onde poderiam morar e criar os filhos. Sim, filhos, pois este era o seu maior sonho: ter uma penca de filhos, de preferência todos homens, que lhe ajudassem com o trabalho na fazenda e, claro, com economia e persistência, quem sabe um dia Deus lhes abençoaria com a compra da própria terrinha. Afinal de contas, nenhum imigrante deixa o seu país para trabalhar para os outros, eternamente. O sonho de todos é sempre ser alguém, e ser alguém, no caso e naquela época, implicava em ter um pedaço de chão para chamar de seu.






segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cap. 15 - Noivo frito com torresmo

 Houve um certo suspense no ar, quando anunciei, num gesto impensado e dramático, que eu e Tião tínhamos acabado de ficar noivos, o que, na verdade, não tinha acontecido, pois ele sequer conseguira pronunciar uma só palavra, ainda, depois de me estender o colar, e de me ajudar a fechá-lo em meu pescoço. Eu o arrastara pelo sequeiro adentro, para apresentá-lo aos meus pais, que ainda estavam emudecidos com a estória toda. Só nesse instante -- da apresentação do moço em questão,  foi que percebi que eu não sabia lhufas sobre ele, além do seu nome -- Sebastião -- e do apelido óbvio -- Tião. De resto, não tinha a menor idéia de seu sobrenome,  o que era a primeira coisa que meus pais sempre perguntavam, todas as vezes em que tentei falar-lhes sobre um novo pretendente a minha mão. E de onde ele teria vindo? Onde morava? Quem eram os seus pais? O que eles faziam para ganhar a vida? Eram sitiantes, como nós? Eram meeiros? Empregados? 

Enfim, como eu não tinha nenhuma resposta para cada uma dessas perguntas, achei melhor deixar o próprio Tião contar aos meus pais, a seu respeito. Porém, as surpresas ainda não tinham acabado naquele dia. O rapaz estava tão atarantado com o circo todo que ele mesmo havia armado, que começou a gaguejar, e ao dar um passo à frente, para apertar a mão do meu pai, que muito a contragosto, lhe estendera, ele se desequilibrou, bateu com o pé numa das pontas dos tijolos que improvisavam o fogão de brasas, e foi o que bastou para escorregar e levar junto com ele o tacho onde o torresmo estalava de gostoso, e do qual ninguém ainda havia provado. Tião caiu de costas, com as duas pernas para o ar, embora ainda tenha tentado se apoiar com uma das mãos no chão, mas isso não bastou para evitar que o tacho fosse junto com ele pelos ares, derramando-lhe uma porção de gordura fervendo em boa parte de um dos braços.  E por pouco, não lhe sapecara o couro todo.

O que se ouviu em seguida, quase ao mesmo tempo que sua queda, foi uma gritaria, seguida de correria das pessoas até a sua volta, para tentar levantá-lo, o mais depressa possível, como se isso pudesse evitar o pior, que acontecido: uma senhora queimadura, de no mínimo, segundo grau. Pronto. Tava feita a desgraça, pensei. Mais um que vai sair daqui com "dois quentes e um fervendo", para repetir uma famosa frase de meus pais, sempre que não gostavam de algum abelhudo que aparecesse em nossa casa, sem mais nem menos, ocasião em que Tião se enquadrava, direitinho. Dessa vez, entretanto, chocados com a cena que haviam acabado de assistir, e com a queimadura horrível que se desenhava no braço do rapaz, meus pais  me permitiram levá-lo para dentro de casa, a fim de socorrê-lo. Como a dor era muito intensa, o moço berrava como um cabrito desgarrado e só com muito esforço meu e dos meus irmãos José e Gracindo, conseguimos arrastá-lo dali.

 Primeiro, levamo-lo até a varanda da cozinha, onde o encostamos na mureta, do lado de dentro, com as pernas esticadas no chão. Minha mãe e minhas tias correram para a cozinha e começaram a preparar uma pomada à base de agrião para queimaduras, que curava até as mais graves,  pois essa hortaliça tem  a capacidade de restaurar a pele entre uma semana e quinze dias. Enquanto isso, o Zé e o Cindo se revezavam na tarefa de ir colocando água fria em toda a extensão do braço queimado de Tião, para baixar a temperatura da pele, e evitar que o ferimento se aprofundasse, causando-lhe um estrago, ainda  maior. Logo mais, minha mãe chegou com a pomada caseira, que ela mesmo preparara, e com o jeito de quem não tinha nenhuma prática como enfermeira, puxou o braço de Tião, colocando a mão sobre o ferimento, o que o fêz berrar mais ainda de tanta dor. Mas minha mãe, que era acostumada a matar porcos, sem se incomodar com os seus gritos, não deu a mínima para o chororô do marmanjo que viera estragar o nosso Natal -- isso ela não lhe perdoaria, jamais -- segurou seu braço com uma das mãos, bem firme, e com a outra começou a espalhar a pomada sobre a queimadura, que estava quase roxa,  mas ainda não levantara a bolha. 

Terminado o trabalho, meus irmãos concluíram o curativo, enrolando-lhe uma gaze em quase todo o braço e depois fizeram-lhe uma tipóia, a fim de que Tião o mantivesse imóvel, pendurado contra o próprio corpo. Ao fim da tarefa, olhamos em volta e só então nos demos conta, que naquele dia não haveria mais almoço de Natal. Não havia mais ninguém no sequeiro, exceto meu pai sentado em sua cadeira de balanço, fumando seus mal-cheirosos cigarros de palha, alheio a tudo que havia acontecido a sua volta, como se não pertencesse a esse mundo. Detalhe: ele não sofria do Mal de Alzheimer, não. Era o seu jeito de expressar-se, quando as coisas saíam do seu controle ou algo o desagradava muito: alheava-se, ficava quieto no canto, não falava nem ouvia ninguém. Às vezes, permanecia assim, por até dois ou três dias, sem dizer um "a". Como já o conheciamos bem, não nos atreviámos a mexer com ele, senão ele incorporava o personagem do Urtigão e punha todos para correr, até mesmo de sua sombra. Eu apenas vislumbrei-o de soslaio, e entendi o recado. Meu pai estava puto da vida comigo. Mal sabia ele que  eu não tinha culpa nenhuma daquela armação. Eu, como todos nós ali, nunca tínhamos visto o tal sujeito de terno branco, nem nos nossos mais remotos sonhos. Então, eu me lembrei do ponto em que havíamos parado, segundos antes do encontro desastrado de Tião com o fogareiro e o tacho de torresmo: quem era ele? De onde viera? Onde morava? quem eram os seus pais, etc...etc...etc...enfim, o interrogatório básico sobre sua pessoa ainda martelava na minha cabeça.

domingo, 2 de agosto de 2020

Cap. 14 - Um cavaleiro muito cara-de-pau

Derrepente, de dentro da cozinha onde preparava o arroz de forno, olhei lá para o terreiro, onde minha mãe mexia o tacho de carne de porco que ia ganhando uma cobertura crocante e avermelhada de torresmo. Ela adorava fazer isso, e todos os anos era o seu prato preferido, não se importando com a demora em fazê-lo nem com as inevitáveis bolhas levantadas nas mãos, causadas por alguns espirros da gordura quente . Por isso, estranhei que ela estivesse parada, limpando as mãos no avental, e com os olhos fixos em alguém que vinha descendo pelo caminho da porteira. Quem mais estaria chegando para o almoço? Todos os nossos convidados já haviam chegado. Alguns, para não perderem a festança, desde o começo, já tinham se colocado na estrada desde o dia anterior, tendo pernoitado conosco, como era o caso dos meus tios César, o sapateiro mais famoso de Assis e redondezas nos anos 30 e 40, e meu tio Silvio, o "inventor" que construíra um violino, sem nunca ter visto um.  A curiosidade aguçou-me o coração, inquieto desde a última noite, e resolvi olhar pelo vitrô da cozinha, tentando saber quem era o cara-de-pau que, sem ter sido convidado, ousava aparecer assim, em pleno dia de Natal, na casa dos outros. 

E nao é que era ele? Sim, ele mesmo, o moço do terno branco, do chapéu Panamá e que me oferecera uma jóia de presente, na véspera de Natal, quando me pegara distraída, enlevada com o brilho das vitrines.  Alguém já devia ter contado alguma coisa a minha mãe, pois notei que ela deixara o tacho lá sozinho, com os torresmos pulando alto e alguns até caindo para fora, mirara em minha direção e partira para cima de mim, decidida a saber do que é que se tratava aquela visita inesperada. Entretanto, eu estava tão chocada quanto ela, mal podia acreditar no que estava vendo, outra vez: não bastasse a ousadia de me oferecer um presente caro, sem nem me conhecer, o sujeito descobrira o sítio onde eu morava e se autoconvidara para vir passar o almoço de Natal comigo, e com minha familia. Oi???Era isso mesmo???

Mas não me dei ao trabalho de responder a sua pergunta e já me vi correndo para o banheiro, para ver se estava minimamente, bem vestida: tirei o lenço da cabeça, o avental, ajeitei os cabelos, enquanto ouvia minha mãe me chamando lá na entrada do sequeiro. Nheta, oh, nheta, tem um rapaz aqui perguntando por você. Você o conhece? Enquanto isso, eu desci a escada que havia na porta da cozinha, e caminhei uns dez passos pela  calçada, que dava no meu jardim de rosas, alcançando o portão. Dali, o moço do terno-branco poderia me ver e eu não precisaria passar com ele pelo meio do sequeiro, expondo-nos a todos os presentes. Minha mãe me viu primeiro, e apontou-me para ele, virando-lhe as costas, em seguida. Enquanto ele vinha na minha direção, eu ainda pude vê-la recolocando o  avental, caminhando de volta ao tacho, e balançando a cabeça, em sinal de reprovação. Quando voltei o rosto para a frente, Sebastião já se encontrava ali exibindo um exótico sorriso com dois dentes caninos de ouro, para meu maior espanto -- as surpresas com ele pareciam não ter fim -- enquanto abria uma caixa forrada com um veludo bordô, onde o colar, pelo qual eu me apaixonara, se oferecia com todo a sua beleza imaculada de pérolas. 

Uauuuuuuu. O colar era mesmo lindo, e é claro que eu tinha ficado feliz com a surpresa, mas não poderia ir aceitando-o assim, sem mais nem menos, ainda mais de um desconhecido, que eu estava encontrando pela segunda vez na vida. Tá certo que em circunstâncias totalmente inesperadas, cheias de mistério e romantismo, mas eu já não tinha vinte anos, era uma mulher feita, com quase trinta anos, e só não tinha me casado ainda, por causa da rabugice do meu pai, para quem, nenhum dos pretendentes que me apareciam estavam a minha altura. E não tinham sido poucos. Para o velho Antonio, nenhum era rico, trabalhador, honesto ou me amava o suficiente. No fundo, acho que meu pai tinha era ciúme de mim, e não queria dividir a filha dele com outro homem, ainda que fosse meu marido. Enfim, nunca soube nem saberei porquê ele agia assim comigo, visto que com minhas irmãs, as coisas tinham se passadode outro modo. Minha irmã Cecília, cinco anos mais nova, já havia se casado com o grande amor de sua vida, o Nato, aliás, Fortunato era o seu nome, e o cara era mesmo um afortunado. Não no sentido de riquezas materiais, pois era filho de um sitiante vizinho, com posses iguais as nossas. Mas desde o dia em que ele bateu os olhos na Cília -- esse era seu apelido de criança -- e ela, nele, os dois nunca mais se desgrudaram, mesmo ainda sendo adolescentes. Se apaixonaram, namoraram por uns sete anos, noivaram e casaram, sem nenhum óbice do meu pai. Com a Divina, minha irmã mais velha, a estória não tinha sido diferente: ela e o Joaquim  se conheceram em um dos famosos bailes de nossa túlia, e não tardou para que ele pedisse a mão dela em casamento, como era costume da época, ao meu pai.  Todos os anos, para celebrarmos a colheita de café, promovíamos um mês de festas regadas a muito vinho e música sertaneja, no silo construído para abrigar os sacos de café, enquanto aguardavámos os compradores. Esperto e muito mão-de-vaca, para não gastar nada com o próprio noivado, ele aproveitou um desses bailões, apareceu com um par de alianças , e lá pelas tantas, quando ninguém mais conseguia dançar nada, só gargalhar alto pelo excesso de vinho, ele puxou a minha irmã num canto, tascou-lhe um beijo, e enfiou-lhe a aliança num dos dedos. Espertíssimo o moço, pois quando foi falar com o meu pai, no dia seguinte, a estória do noivado já tinha corrido léguas, e seu futuro sogro não iria ser tonto de promover a desgraça da própria filha, impedindo o seu casamento.

Já quando o caso era comigo, nada nunca dava certo. Azar, falta de criatividade dos candidatos, pouco interesse da minha parte, também, enfim, os motivos poderiam ser vários. Dificil era decidir aquilo que já parecia ser o meu destino de velha solteirona. Sim, porquê uma mulher balzaquiana nos anos 50, ainda dentro da casa dos pais, era sinônimo de encalhada. Creio que tudo isso passou como num filme rápido na minha cabeça, quando vi aquele colar, que eu havia gostado tanto, estendido prá mim, assim, com as duas mãos, por aquele cavaleiro, ao mesmo tempo tão estranho e que já me parecia tão familiar, a minha frente. Não pensei duas vezes. Peguei a caixa, tirei o colar de dentro dela, coloquei-o no meu pescoço e virei-me de costas para que Tião o abotoasse, para mim. E assim, me sentindo a Cinderela do filme cujo sapato perdido é encontrado e lhe é  trazido pelo príncipe encantado, eu peguei o rapaz pelas mãos e entrei com ele pelo portão da frente do sequeiro. Rapidamente, um corredor de curiosos se abriu entre nós, e eu entrei de braços dados com ele, pisando em nuvens e com o coração batendo muito forte, exibindo o colo e o colar para as pessoas que esticavam os seus pescoços, entre incrédulas e deliciadas com a cena  inusitada. O sol ia alto no céu, minhas bochechas queimavam, o suor escorria pelas costas, mas não desisti até chegar perto do fogão de barro improvisado, onde o tacho de torresmo crepitava, e   meu pai e minha mãe, encostados um no outro, me esperavam, ambos com a boca aberta e a maior cara de espanto. Não deixei que falassem uma palavra primeiro e já fui-lhes apresentando o Tião, seu colar de pérolas -- que agora era meu --, e contando-lhes como o conhecera na noite anterior, antes da Missa do Galo, em Assis, e, antes que dissessem um "a", informei-lhes que ele era meu namorado, e que a partir daquele momento, queríamos as suas bençãos para o nosso casamento.  

domingo, 12 de julho de 2020

CAP. 13 - NOITE DE NATAL



Era noite de Natal, e como fazíamos em todos os anos, eu e minhas irmãs tínhamos combinado com nossas primas de nos encontrarmos na praça, em frente à Catedral, um pouco antes da Missa do Galo. Assistíriamos juntas à cerimônia do nascimento de Jesus, e depois iriamos todas à ceia celebrada na casa da tia Pierina. Naquela noite, entretanto, eu cheguei muito adiantada ao ponto de encontro, minhas irmãs viriam depois, e minhas primas ainda não haviam chegado. Então, eu olhei a minha volta e percebi que as lojas da Avenida Rui Barbosa ainda estavam abertas, o que sempre acontece às vésperas do Natal, quando o comércio decide encerrar suas portas um pouco mais tarde, com a intenção de lucrar um pouco mais com a data. Encantada pelo brilho das luzes coloridas, penduradas em cada poste e nas fachadas das lojas, eu resolvi caminhar um pouco para vê-las de perto. Quando dei por mim, estava parada em frente à vitrine da joalheria Vieira Dias, deslumbrada com os colares, brincos, anéis e pulseiras que brilhavam em suas caixas, dispostas de um jeito que cada uma se destacasse da outra, sem ofuscá-las. Fiquei ali parada por não sei quanto tempo, meio que em êxtase, diante de toda aquela beleza e luxo, que me esqueci do relógio,  e também do compromisso com minhas irmãs, primas  e da própria missa. 

Derrepente, senti uma presença atrás de mim, e antes que eu me virasse para ver quem era, um rosto se aproximou do meu pescoço, enquanto seu corpo quase colava ao meu, sussurrando ao meu ouvido: qual foi a jóia que você gostou mais? Escolha-a e eu vou comprá-la para você. Antes que ele terminasse a frase, eu me virei, entre surpresa e assustada, e me deparei com a imagem de um rapaz moreno, com cabelos ondulados muito pretos, costeletas compridas, um bigode refinado e os olhos mais verdes e profundos que eu jamais vira na vida. Ele tinha se afastado um pouco, e olhei-o de baixo acima, admirada com seu terno branco, sapatos muito bem engraxados, e um chapéu Panamá, também branco, em suas mãos.  Então, ele repetiu a pergunta: qual foi a jóia que você mais gostou? Será o seu presente de Natal. Por favor, escolha-a. Ainda sem acreditar que estava vendo ou vivendo uma situação tão idílica como aquela, empurrei-o um pouco para o lado, e sai correndo, dizendo-lhe que não o conhecia e não costumava aceitar presentes de estranhos. Ei, espere, meu nome é Sebastião. Sebastiããoooooo, falou mais alto. E o seu, perguntou, quase gritando. Eu já estava do outro lado da calçada, atravessara a avenida sem nem olhar para os lados, e continuara a correr até à porta da igreja. Párei, respirei fundo, e entrei, meio furtiva, esgueirando-me por entre as colunas, até enxergar minhas irmãs e primas lá na frente, ajoelhadas, aguardando a comunhão. Fui andando, devagarinho, até chegar perto delas, e me ajoelhei também. Tonietta, até que enfim, disse Alice. Por onde andou? Chegamos à praça no horário combinado e você desapareceu, falou bem baixinho, para não chamar a atenção do padre. Essa era a primeira vez que ela nos visitava, desde que decidira mudar-se para São Paulo, e viver num convento, entre freiras carmelitas. Por isso, eu respondi-lhe: quem resolveu ser freira foi você, não eu. Quando chegarmos em casa, eu te conto. Abri o meu evangelho e comecei a rezar o Credo, em voz alta, para que ela me deixasse em paz.

Após a ceia, dormimos na casa da tia Pierina, e na manhã seguinte, ou no Dia de Natal, guardamos com cuidado nossas roupas e sapatos "de igreja", calçamos nossas botinas velhas, que poderiam amassar o barro da estrada, e voltamos para o nosso sitío, no Matão. Partimos à pé, umas 9 horas da manhã, e após duas horas de caminhada, chegamos à porteira. Meu irmão caçula, Gracindo, veio correndo nos receber, com seu sorrisão sempre muito alegre e carinhoso, nos abraçando. Cecília, Alice, Tonheta, não me deixaram ir com vocês, de novo, à Missa do Galo. Eu já tenho treze anos, caramba. Quando vou poder ir ver esse galo morfético? disparou, choramingando. O ano inteiro tinhamos prometido que o levaríamos à missa conosco, e na última hora, o despistamos, mais uma vez. Confesso que senti um pouco de remorso por têr ajudado minhas irmãs a enganá-lo, mas logo passou. O fato é que não queríamos testemunhas de possíveis encontros com candidatos a namorados, na cidade, o que vez ou outra, acontecia, e o Cindo ainda era muito crianção. Muito propavelmente ele chegaria em casa e iria correndo contar qualquer coisa que visse ou ouvisse, aos nossos pais. O que eles sem dúvida, reprovariam. Ou pelo menos, era o que temíamos. Então, a promessa se renovava: no ano que vêm, você irá sem falta.

Mas aquele Natal estava predestinado a ser diferente dos outros 28 natais celebrados, até então, desde que eu viera ao mundo ali mesmo, no Sítio do Matão. Eu e minhas irmãs fomos esquentar água para tomar banho, trocamos nossas roupas sujas de estrada, por vestidos mais leves, sapatos mais confortáveis e fomos ajudar nossa mãe a pilotar os fogões. Logo mais, teríamos um super-almoço natalino, com tudo a que tinhamos direito: frango assado, recheado com farofa, macarrão, arroz -de-forno, rabanadas, pudim-de-pão, sem contar com o porco-de-tacho, chiando em sua própria gordura, sobre a fogueira armada no terreiro de secar café. Meu pai, tios e irmãos já haviam levado cadeiras, bancos e uma mesa grande lá para fora, onde o almoço seria servido, durando o resto do dia, entre muita comida, bebida, e canções natalinas, com vozes meio trêbadas e letras trocadas.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Cap 12 - O menino de bicicleta



Após a intrépida pulada de cerca do meu pai a alegria, que já era pouca, demorou a voltar a brilhar no rosto de minha mãe. Era muito raro vê-la sorrindo, muito dividida entre as tarefas da casa, do quintal, que incluíam os animais -- sempre havia uma cabra para tirar o leite ou um cavalo para dar água --, e as crianças, que, por esse tempo, já eram quatro: eu, Rosangela, Roseli e a Marcinha, o bebê recém-nascido, que não paravam um único minuto. Estávamos sempre engalfinhados em alguma brincadeira ou estrepolia. 

Numa dessas tardes modorrentas, em que Deus resolve ir tirar um cochilo após o almoço, levando junto todos os seres por ele criados, pois nem uma folha se move no alto do abacateiro; nem uma galinha põe um ovo e sai declarando o seu feito pelo quintal,  muito menos o sol dá uma trégua, cobrindo a pestana do mundo com a sombra de alguma nuvem, eis que aparece um menino batendo palmas no portão de casa. Ninguém ouviu nenhum pio com sua chegada, muito sorrateira. Só fomos percebê-lo, encostado em sua bicicleta,  apoiando-se sobre uma das pernas no chão. Ao ouvir as primeiras palmas, eu logo corri para a frente da casa, para ver quem era o recém-chegado e o que ele queria. E qual não foi a minha surpresa quando o ouvi já ir logo dizendo que o meu pai estava se encontrando com a Loirona, lá pelas bandas do cemitério. 

Eu fui tomada de surpresa e fiquei por um momento, sem saber o que fazer, se iria chamar a minha mãe ou não, lá no fundo do quintal, mas não tive tempo de pensar em alguma outra reação, pois ela tendo ouvido também as palmas do garoto, viera logo atrás de mim, e acabara escutando o final da conversa.  Que ele, a mando de sua própria mãe, repetiu com todas as letras e em alto e bom som: 

_ Dona Antonia, o "seo" Sebastião está lá em cima, na esquina do cemitério, embaixo dos pés de manga, beijando a Loirona. 
Minha mãe, já me puxando pela mão, foi abrindo o portão e saindo, desabalada, ouvindo-o completar:
_ eles estão juntos, se beijando, encostados no muro...

Saímos as duas correndo. Minha mãe tirou as sandálias havaianas dos pés, para\ correr mais rápido, jogando-as longe, e eu fui atrás dela, sendo arrastada, porquê, obviamente, não conseguia correr tanto, nem acompanhar o seu passo, pois eu tinha apenas sete anos de idade, nessa época. Não me lembro de como chegamos até o lugar descrito pelo menino fofoqueiro,  que virara uma estátua de sal, atrás de nós, pois nunca mais o vimos, nem souberámos quem o havia mandado vir trazer-nos tão vil recado. Só me lembro que o terreno era coberto por um matagal, que entremeava pequenas árvores e galhos secos, sobre um forro de capim, o que escondia as armadilhas dos buracos,  atrasando  nossa corrida em direção a mais uma escapada do meu pai para os braços da amante. 

Quando, finalmente,  chegamos ao topo do terreno, que dava para uma plantação de mandioca, ainda com mudas bem baixinhas, vimos os dois: meu pai estava montado sobre um cavalo branco, pintado de manchas pretas, bem pequenas, completamente arriado, com todas as traquitanas a que se dava o direito: esporas, baldranas, pelego, arreios, tapa-olhos e cabresto. Ele parecia um herói dos livros de história, com seu chapéu de cowboy completando o look, segurando o cavalo pelas rédeas, com os pés pousados sobre os estribos,  enquanto a mulher, encostada ao cavalo, parecia acariciar-lhe as reluzentes botas de montaria. Ou seriam suas pernas?

 Não sabíamos se havia acontecido algo mais próximo entre eles, do que aquela aparente cena romântica, de um encontro entre duas pessoas apaixonadas, mas proibidas de manterem um relacionamento. Entretanto, é claro que minha mãe não esperou para perguntar-lhes, nada, com qualquer educação. Embevecidos que estavam com a conversa, eles demoraram para perceber a nossa chegada, aliás, a chegada da minha mãe, que a esta altura, já havia me largado para trás, abandonada na quiçaça, e se atirado para cima da Loirona, com o objetivo claro de arrancar-lhe os olhos. No mínimo, toda a falsa cabeleira loira. Meu pai levou um susto, puxou o freio do  cavalo, esporeou-o e empurrou a mulher, que deu um passo para trás, caindo exatamente ao alcance das mãos de minha mãe, que gritava-lhe:  sua  puta, vagabunda, larga o meu marido, e mais um cem número de palavrões, mais do que  merecidos.  Deu-lhe umas boas unhadas no rosto e braços, além de arrancar-lhe os cabelos -- então descobrimos --, por isso era tão perfeito, que não passava de uma elaborada peruca loira, pois a mulher era careca ou tinha os cabelos curtíssimos e escuros. Também tomada pela surpresa, a Loirona  se desequilibrou, escorregou e chegou a ficar de joelhos, umas duas vezes, enquanto levava tabefes de minha mãe, na cara, nas costas, onde a pegasse, primeiro; mas, então, me lembro como se fosse hoje: ela conseguiu se levantar, segurando um lindo par de saltos altos e bicos muito finos nas mãos, e pernas prá que te quero. Desabalou a correr rente ao muro, e, derrepente, achou a porta dos fundos do cemitério, semi-aberta. Entrou por ela  e desapareceu entre os túmulos. 

Transtornada, minha mãe desistiu de correr atrás dela, para completar a surra, e sentou-se no chão, chorando muito. Eu abracei-a, e ficamos ali, as duas, enroladas no abraço e chorando juntas, por um longo tempo, sem nos darmos conta que meu pai havia dado meia volta na sua fuga, e vindo atrás de nós, para buscar-nos. Gentilmente, pegou a mão de minha mãe, e a ajudou a subir na garupa do cavalo. Em seguida, estendeu seu braço, sempre muito forte e peludo, e me fêz subir apoiada em sua perna e na barriga do cavalo, indo parar no seu colo. Acomodados os três em cima do animal, ele nos conduziu para casa, como se tivéssemos saído para dar um passeio, sem dar uma palavra sobre o acontecido, como era o seu jeito de resolver as coisas mais difíceis. Não falar nada sobre elas, até que sumissem do seu horizonte .  


 

sábado, 30 de maio de 2020

Cap. 11 - O beijo da serpente

Quando chegávamos, finalmente, à estação de Dracena, a última da Estrada de Ferro Paulista (?), meu pai sempre estava lá, a nossa espera. Saltávamos do trem direto para o seu colo, e queríamos fazer isso, todas de uma só vez, o que era complicado para um homem sozinho abraçar quatro crianças ao mesmo tempo.  Ele colocava uma em cada ombro, uma nas costas, e outra no colo. Ajeitava daqui. Ajeitava dali, virava um homem de quatro cabeças, dez braços e dez pernas, ficando bemmmm parecido com algum deus hindu. Uma confusão. Quando, afinal, conseguia enxergar minha mãe, ambos só trocavam um olhar. Não havia tempo nem lugar para um encontro de casal, no meio daquela profusão de cabecinhas loiras e barulhentas.
 
Dessa vez, não foi diferente. 

Mesmo envolto em nossas cabeças, pernas e braços, meu pai ainda deu um jeito de ajudar minha mãe, enquanto ela descia do vagão do trem, com um bebê no colo e mais uma mala nas mãos. Pena que não tenhamos nem uma  única foto de nenhum desses momentos, e as lágrimas escorrem pelo meu rosto agora, pois ao descrevê-los,  sinto que não sou apenas a narradora dessa estória, mas também a "fotógrafa" dessas memórias. Meu pai conseguiu ajudar minha mãe a subir na charrete, que nos esperava em frente à estaçãozinha, arreada com o alazão mais bonito das redondezas, e lá fomos nós, pulando de seu colo para algum pedacinho de acento. Claro que o espaço era para apenas duas pessoas, e as crianças ficavam se embolando, na vã tentativa de sentar-se, uma primeiro que a outra, o que não aconteceria, até que chegássemos em casa. 

Essas viagens sempre demoravam umas oito horas, desde a saída de Assis, de ônibus, num percurso de 180 kms até Marília, onde apanhávamos o trem, chegando em Dracena, no finalzinho da tarde. Quando aportávamos em casa, era quase noite. E, obviamente, estávamos famintas. Minha mãe se preocupava em ir direto para a cozinha e preparar, pelo menos, uma sopa quentinha, enquanto fazia também a mamadeira do nenê da vez. Ela fazia tudo ao mesmo tempo, enquanto ralhava com uma ou brigava com outra, com o propósito de nos acalmar ou de fazermos menos barulho, ou os dois. Meu pai, não se  alterava. De sua boca, não saia nenhum som. Ele apenas brincava com uma, ora com outra, colocava uma em cada perna, brincava de cavalinho, -- upa, upa - até que o tempo passasse e a comida chegasse, borbulhando,à mesa. Dessa vez, entretanto, notei que o seu rosto ficou lívido, quando minha mãe pegou uma toalha embolada de uma gaveta do armário -- quando deveria estar dobrada -- e, ao abrí-la, para forrar a mesa, percebeu que havia uma enorme nódoa de vinho, num dos cantos. Ela olhou para o meu pai e de seus olhos saíram chispas de fogo. O ódio só não o fulminou naquele momento, porquê ele estava com minhas duas irmãzinhas no colo, Rosangela e Roseli e ela deve ter temido queimar as crianças, junto com ele. 

Mas a cena não deixara nenhuma dúvida. Enquanto estivéramos passando as férias com nossos avós, meu pai, que nunca ia conosco, nessas viagens, aproveitava-as para viver as suas próprias férias, em companhia de suas amantes. Provavelmente, essa deve ter sido a vez da Loirona, como minha mãe a chamava, uma senhora casada que se dava ao desfrute com o marido das outras. Meu pai, típico machista de sua época, parecia amar minha mãe, mas não capitulava diante de uma mulher bonita. O incompreensível dessa estória é que minha mãe achava isso normal, "pois ele era homem", dizia ela, numa condescendência inacreditável para mim, que cresci ouvindo falar de liberdade feminina, feminismo, queima de sutiãs, luta pela igualdade de gêneros, etc...etc...não, eu ouvia aquilo, mas não compreendia nada. Porém, agora, o caso era sério, pois minha mãe concluiu que se o Tião Mirante havia levado a mulher até nossa casa, dormido com ela na cama deles, além dos rastros da provável farra na cozinha, com direito a vinho e manchas nas toalhas, eles  haviam tido uma noite tórrida de amor, e isso queria dizer que ele estava fazendo mais do que apenas sexo fora de casa. Sim, a Loirona fisgara o meu pai com seu cabelo descolorido, muito curto e penteado a la Garçone, o que, aliás, eu achava lindo e queria copiar, quando crescesse. Mal sabia eu que minha geração iria fazer permanente nos cabelos, a suprema aberração da moda, quando eu chegasse aos 18 anos. 

Mas esse devaneio de menina ficaria para depois, pois naqueles dias eu me vi envolvida numa luta renhida entre os meus pais, que tentavam passar a pulada de cerca, a limpo. Minha mãe chorou por dias e noites, à fio. Não conseguia dormir, não conseguia comer, fazia os serviços da casa como um autômato. Meu pai encilhava um dos cavalos, logo cedo, e desaparecia antes que o sol secasse a relva da noite sobre os pastos. Os cafezais estavam tombando com suas cerejas vermelhas, quase caindo de maduras, mas ninguém se atrevia a ir colhê-las. A traição se insidiara  para dentro de nossa casa, na nossa ausência, e fizera morada. Ainda que passageira, deixaria suas pegadas manchadas de vinho tinto, para sempre. Inconformada, minha mãe queria a separação. Dessa vez, ele tinha ido longe demais. Embora apaixonado, Sebastião não queria perder sua família, isso era nítido em seu rosto afogueado, onde os olhos verdes muito aflitos, falavam por ele. Eles clamavam por perdão, mas minha mãe estava irredutível entre o "ou eu, ou ela".  

Então, o amor por seus filhos --  só filhas, até então -- acabou vencendo sua paixonite aguda e falando mais alto no seu coração, ou entre suas pernas, não sei dizer exatamente onde. Decidido a botar um fim no romance, ele pulou em cima de um cavalo, sem nenhum arreio, e foi chispando até a casa da Loirona, que não era muito longe da nossa, não. Ficava numa colina acima e quase dava para se avistá-la, do nosso quintal. Nesse dia, nós ficamos grudadas à saia de minha mãe, que ficara debruçada sobre o portão, chorando muito, enquanto aguardava o desfecho daquilo tudo.  Soube-se , tempos depois, pelos vizinhos, que meu pai obrigara a Loirona a ir embora da cidade, dando-lhe um bom dinheiro, com o qual ela abriu uma empresa de dedetização para o marido em Presidente Wenceslau, onde fêz carreira como destruidora de lares.