Com a chegada de mais um bebê, o trabalho doméstico, somado ao apoio que minha mãe dava ao meu pai, nos cuidados com os cavalos no curral, aumentara muito. Todos os dias havia uma montanha de fraldas para lavar e passar, e isso era serviço para uma só pessoa, durante um dia inteiro. De manhã, tirava-se o cocô das fraldas com uma escova, depois se ensaboava, uma por uma, e as deixava estendidas no gramado, junto ao girau, para "quarar" --verbo que não se usa mais, depois do advento das máquinas de lavar roupa, com toda a certeza -- o que significava deixá-las ao sol, para recuperar suas cores originais, quase sempre o branco.
Minha mãe poderia apressar o processo de "embranquecimento" das fraldas com uma pedra de anil, como faziam todas as vizinhas, sem exceção, mas ela preferia os raios de sol para deixar suas fraldas bem branquinhas. Vistos do alto, os lençóis e fronhas que minha mãe quarava, eram lenços de adeus. Só após o almoço ela se atrevia a recolher aqueles panos do sol e passava mais algumas horas, enxaguando-os em àgua bem limpa, até ficar segura de que podiam ser estendidas no varal. Ela se orgulhava de cada detalhe do seu trabalho, e o fazia com perfeição.
Só a noitinha, com o calor de quase 40 graus que se fazia na região onde morávamos --Dracena, no Oeste Paulista -- as roupas ficavam secas e podiam ser passadas. Serviço para mais uma ou duas horas. E, aí é que eu entrava na dança: ela enchia o ferro de carvões em brasa, arrumava um cobertor em cima da mesa, estendia-lhe por cima, uma toalha branca, encostava uma cadeira perto da mesa, para que eu pudesse alcançá-la, ajoelhando-me nela, e me punha a passar a montanha de roupas, retiradas do varal, ainda úmidas:fraldas e mais uma meia duzia de roupinhas de bebê. Macacões, mijões, camisetinhas e paletózinhos.
Eu ia passando, um por um, fazendo um esforço enorme para levantar aquele ferro pesado, que tinia de tão quente, com aquelas brasas ardendo, dentro dele. O meu rosto também ficava vermelho, e eu suava muito, não tanto pelo peso do ferro ou pelo esforço para levantá-lo, mas, sim, pelo medo de deixá-lo cair das mãos, pousá-lo muito tempo sobre uma das roupinhas, queimando-as, ou, principalmente, de deixar alguma fuligem das brasas escaparem pelos buracos do ferro, o que também podia queimá-las.
Era um serviço muito duro para uma menina que mal completara seis anos, mas minha mãe não tinha outra escolha. As minhas outras irmãs, Rosangela e Roseli, tinham, respectivamente, quatro e dois anos, o que as eximia, claro, de qualquer tarefa doméstica. Isso, sem contar que durante o dia, enquanto minha mãe lavava roupas e fazia o almoço, eu já tinha limpado a casa inteira, passado pano no chão, encerado-o, vez ou outra, e ainda cuidado do bebê. Eu ainda não sabia fazer sua papinha, mas minha mãe deixava-a preparada, logo cedo, junto com o café, e eu cuidava de sua alimentação, revezando as papas com as mamadeiras.
É claro que, de vez em quando, eu aproveitava que ninguém estava por perto e assaltava a lata de leite Ninho, comendo algumas colheradas de leite em pó, às escondidas. Ficava com aquela massa de leite grudada no céu da boca, dissolvendo-a devagarinho, com a língua, deliciando-me e rezando para que mamãe não me pegasse fazendo "coisa errada". Senão, o pau cantava. Ou melhor, o chinelo. Ou o relho do meu pai. Ou o galho da goiabeira. Enfim, o que ela encontrasse primeiro, era rapidamente transformado em instrumento de tortura.
Nessas horas, eu deixava de ser sua empregada e babá, para ser transformada numa criança má, endiabrada, que merecia ser surrada, até que ela se cansasse de tanto me bater. Eu chorava muito porquê o castigo costumava ser longo e as chibatadas doíam muito, deixando vergalhões em minha pele sensível e branquinha. Mas ela nem se importava. Ou então, era tão dura, que não demonstrava nenhum sentimento. Hoje eu sei que chorava por dentro.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Capítulo 3 - O diabo veste terno branco
Um dia meu pai chegou mais cedo, em casa. Minha mãe e sua comadre Augusta, madrinha da Marcia, estavam lá embaixo do girau, onde ficavam a táboa e a tina de lavar roupa. Elas conversavam, em voz baixa, e não dava para entender o que diziam. Eu brincava ali por perto, mas ficava sempre de ouvido esticado, tentando entender o que as duas diziam. Minha mãe viu meu pai chegar, mas continuou fazendo o seu trabalho. Então, ele apeou do cavalo baio, tirou-lhe a sela, mas não o levou para a cocheira, como de costume. Desceu até o girau e já veio perguntando em voz alta, se ela tinha passado seu terno branco, que ele iria a uma festa, à noite, e queria usá-lo.
Ela respondeu-lhe que não, pois não tinha tido tempo de passá-lo. E mal completou a frase, já escorregava para o chão, com o tremendo tapa no rosto que ele lhe desferira. Minha tia -- era assim que chamávamos todos os compadres e comadres de meus pais, de tios e tias -- assustada, entrou na frente dele, para proteger minha mãe, e o próximo tabefe acabou-lhe acertando, também. Enquanto isso, minha mãe se levantara e subiu correndo, para tentar se proteger dentro de casa. Mas ele a alcançou pelo braço, e começou a estapeá-la, covardemente.
E tia Augusta, uma mulher franzina, mas valente, não se conformou em ver aquela cena absurda, correu, e entrou no meio da briga, tentando fazer meu pai parar de surrar minha mãe. Mas ele parecia tomado pelo demônio. E continuava a desferir socos e pontapés, que eram distribuídos entre as duas. E, claro, a cena e os gritos das duas mulheres chamaram a atenção de meu tio Luizinho, marido da tia Augusta, que ouviu o berreiro de sua casa, e também correu até os tres, que a essa altura, já rolavam, embolados no chão. Meu tio chegou correndo, gritando "pára, tião, pára, tião", ao mesmo tempo em que tentava segurar o meu pai. Mas nada nem ninguém parecia poder conter a ira daquele homem, tomado por uma fúria assassina. E, em segundos, era meu tio que se enfiava no meio, rolando com os três, no chão.
Eu não me lembro se minhas duas irmãs pequenas assistiram aquela briga, que foi uma das cenas mais triste e dramática da minha infância. Acho que minha mãe ainda estava de dieta e amamentando o bebê. Tomara que elas não tenham assistido, pois jamais me esqueci daquela cena grotesca, onde quatro pessoas brigavam, emboladas no chão, como se fossem cães.Na verdade, duas delas tentavam segurar meu pai, e impedir que ele machucasse ainda mais a minha mãe. Mas aquela confusão de braços e pernas se misturando no chão, além dos gritos, xingos e grunhidos, era cruel demais para ser presenciada por uma criança de apenas seis anos. Eu me lembro que apenas assisti à briga, zonza, sem nenhuma reação. E até hoje, quando conto ou escrevo essa história, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mais de quarenta anos se passaram, desde então, e eu ainda choro, com muita pena daquela menina . Ninguém se importava com ela. Só eu me importo, agora.
Ela respondeu-lhe que não, pois não tinha tido tempo de passá-lo. E mal completou a frase, já escorregava para o chão, com o tremendo tapa no rosto que ele lhe desferira. Minha tia -- era assim que chamávamos todos os compadres e comadres de meus pais, de tios e tias -- assustada, entrou na frente dele, para proteger minha mãe, e o próximo tabefe acabou-lhe acertando, também. Enquanto isso, minha mãe se levantara e subiu correndo, para tentar se proteger dentro de casa. Mas ele a alcançou pelo braço, e começou a estapeá-la, covardemente.
E tia Augusta, uma mulher franzina, mas valente, não se conformou em ver aquela cena absurda, correu, e entrou no meio da briga, tentando fazer meu pai parar de surrar minha mãe. Mas ele parecia tomado pelo demônio. E continuava a desferir socos e pontapés, que eram distribuídos entre as duas. E, claro, a cena e os gritos das duas mulheres chamaram a atenção de meu tio Luizinho, marido da tia Augusta, que ouviu o berreiro de sua casa, e também correu até os tres, que a essa altura, já rolavam, embolados no chão. Meu tio chegou correndo, gritando "pára, tião, pára, tião", ao mesmo tempo em que tentava segurar o meu pai. Mas nada nem ninguém parecia poder conter a ira daquele homem, tomado por uma fúria assassina. E, em segundos, era meu tio que se enfiava no meio, rolando com os três, no chão.
Eu não me lembro se minhas duas irmãs pequenas assistiram aquela briga, que foi uma das cenas mais triste e dramática da minha infância. Acho que minha mãe ainda estava de dieta e amamentando o bebê. Tomara que elas não tenham assistido, pois jamais me esqueci daquela cena grotesca, onde quatro pessoas brigavam, emboladas no chão, como se fossem cães.Na verdade, duas delas tentavam segurar meu pai, e impedir que ele machucasse ainda mais a minha mãe. Mas aquela confusão de braços e pernas se misturando no chão, além dos gritos, xingos e grunhidos, era cruel demais para ser presenciada por uma criança de apenas seis anos. Eu me lembro que apenas assisti à briga, zonza, sem nenhuma reação. E até hoje, quando conto ou escrevo essa história, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mais de quarenta anos se passaram, desde então, e eu ainda choro, com muita pena daquela menina . Ninguém se importava com ela. Só eu me importo, agora.
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