Após a intrépida pulada de cerca do meu pai a alegria, que já era pouca, demorou a voltar a brilhar no rosto de minha mãe. Era muito raro vê-la sorrindo, muito dividida entre as tarefas da casa, do quintal, que incluíam os animais -- sempre havia uma cabra para tirar o leite ou um cavalo para dar água --, e as crianças, que, por esse tempo, já eram quatro: eu, Rosangela, Roseli e a Marcinha, o bebê recém-nascido, que não paravam um único minuto. Estávamos sempre engalfinhados em alguma brincadeira ou estrepolia.
Numa dessas tardes modorrentas, em que Deus resolve ir tirar um cochilo após o almoço, levando junto todos os seres por ele criados, pois nem uma folha se move no alto do abacateiro; nem uma galinha põe um ovo e sai declarando o seu feito pelo quintal, muito menos o sol dá uma trégua, cobrindo a pestana do mundo com a sombra de alguma nuvem, eis que aparece um menino batendo palmas no portão de casa. Ninguém ouviu nenhum pio com sua chegada, muito sorrateira. Só fomos percebê-lo, encostado em sua bicicleta, apoiando-se sobre uma das pernas no chão. Ao ouvir as primeiras palmas, eu logo corri para a frente da casa, para ver quem era o recém-chegado e o que ele queria. E qual não foi a minha surpresa quando o ouvi já ir logo dizendo que o meu pai estava se encontrando com a Loirona, lá pelas bandas do cemitério.
Eu fui tomada de surpresa e fiquei por um momento, sem saber o que fazer, se iria chamar a minha mãe ou não, lá no fundo do quintal, mas não tive tempo de pensar em alguma outra reação, pois ela tendo ouvido também as palmas do garoto, viera logo atrás de mim, e acabara escutando o final da conversa. Que ele, a mando de sua própria mãe, repetiu com todas as letras e em alto e bom som:
_ Dona Antonia, o "seo" Sebastião está lá em cima, na esquina do cemitério, embaixo dos pés de manga, beijando a Loirona.
Minha mãe, já me puxando pela mão, foi abrindo o portão e saindo, desabalada, ouvindo-o completar:
_ eles estão juntos, se beijando, encostados no muro...
Saímos as duas correndo. Minha mãe tirou as sandálias havaianas dos pés, para\ correr mais rápido, jogando-as longe, e eu fui atrás dela, sendo arrastada, porquê, obviamente, não conseguia correr tanto, nem acompanhar o seu passo, pois eu tinha apenas sete anos de idade, nessa época. Não me lembro de como chegamos até o lugar descrito pelo menino fofoqueiro, que virara uma estátua de sal, atrás de nós, pois nunca mais o vimos, nem souberámos quem o havia mandado vir trazer-nos tão vil recado. Só me lembro que o terreno era coberto por um matagal, que entremeava pequenas árvores e galhos secos, sobre um forro de capim, o que escondia as armadilhas dos buracos, atrasando nossa corrida em direção a mais uma escapada do meu pai para os braços da amante.
Quando, finalmente, chegamos ao topo do terreno, que dava para uma plantação de mandioca, ainda com mudas bem baixinhas, vimos os dois: meu pai estava montado sobre um cavalo branco, pintado de manchas pretas, bem pequenas, completamente arriado, com todas as traquitanas a que se dava o direito: esporas, baldranas, pelego, arreios, tapa-olhos e cabresto. Ele parecia um herói dos livros de história, com seu chapéu de cowboy completando o look, segurando o cavalo pelas rédeas, com os pés pousados sobre os estribos, enquanto a mulher, encostada ao cavalo, parecia acariciar-lhe as reluzentes botas de montaria. Ou seriam suas pernas?
Não sabíamos se havia acontecido algo mais próximo entre eles, do que aquela aparente cena romântica, de um encontro entre duas pessoas apaixonadas, mas proibidas de manterem um relacionamento. Entretanto, é claro que minha mãe não esperou para perguntar-lhes, nada, com qualquer educação. Embevecidos que estavam com a conversa, eles demoraram para perceber a nossa chegada, aliás, a chegada da minha mãe, que a esta altura, já havia me largado para trás, abandonada na quiçaça, e se atirado para cima da Loirona, com o objetivo claro de arrancar-lhe os olhos. No mínimo, toda a falsa cabeleira loira. Meu pai levou um susto, puxou o freio do cavalo, esporeou-o e empurrou a mulher, que deu um passo para trás, caindo exatamente ao alcance das mãos de minha mãe, que gritava-lhe: sua puta, vagabunda, larga o meu marido, e mais um cem número de palavrões, mais do que merecidos. Deu-lhe umas boas unhadas no rosto e braços, além de arrancar-lhe os cabelos -- então descobrimos --, por isso era tão perfeito, que não passava de uma elaborada peruca loira, pois a mulher era careca ou tinha os cabelos curtíssimos e escuros. Também tomada pela surpresa, a Loirona se desequilibrou, escorregou e chegou a ficar de joelhos, umas duas vezes, enquanto levava tabefes de minha mãe, na cara, nas costas, onde a pegasse, primeiro; mas, então, me lembro como se fosse hoje: ela conseguiu se levantar, segurando um lindo par de saltos altos e bicos muito finos nas mãos, e pernas prá que te quero. Desabalou a correr rente ao muro, e, derrepente, achou a porta dos fundos do cemitério, semi-aberta. Entrou por ela e desapareceu entre os túmulos.
Transtornada, minha mãe desistiu de correr atrás dela, para completar a surra, e sentou-se no chão, chorando muito. Eu abracei-a, e ficamos ali, as duas, enroladas no abraço e chorando juntas, por um longo tempo, sem nos darmos conta que meu pai havia dado meia volta na sua fuga, e vindo atrás de nós, para buscar-nos. Gentilmente, pegou a mão de minha mãe, e a ajudou a subir na garupa do cavalo. Em seguida, estendeu seu braço, sempre muito forte e peludo, e me fêz subir apoiada em sua perna e na barriga do cavalo, indo parar no seu colo. Acomodados os três em cima do animal, ele nos conduziu para casa, como se tivéssemos saído para dar um passeio, sem dar uma palavra sobre o acontecido, como era o seu jeito de resolver as coisas mais difíceis. Não falar nada sobre elas, até que sumissem do seu horizonte .