segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Capítulo 7 - Chegada ao sítio dos avós

Chegar ao sítio dos meus avós, após um dia inteiro de viagem, era cansativo, mas de uma alegria indescritível. Normalmente, vó Ana ficava espiando a carroça de meu avô apontar lá em cima, na porteira e, só então, ela saia à frente da casa, vindo ao nosso encontro. O caminho entre a porteira e a casa, parecia o mais longo de todos, tamanha era a nossa ansiedade. E quando vovô parava o cavalo bem à porta, eu era a primeira a saltar, sem jamais dar ouvidos aos gritos de minha mãe: "cuidado, não vá se machucar". Antes que ela abrisse a boca, eu já estava no chão, de um pulo só. Eu era a primeira a pular no pescoço de minha avó, que nunca correspondia ao abraço excessivo, enchendo-a de beijos. O lenço amarrado à cabeça, acabava escorregando, com os meus arroubos carinhosos, e ela deixava à mostra sua longa cabeleira branca. Ela me ignorava solenemente, e ajudava minha mãe, a descer da carroça, entre incrédula e curiosa para ser apresentada, sem cerimônias, a mais uma neta.

Ou seria neto, dessa vez? "ah, ma cheê, otra menina", logo disparava, com seu sotaque italiano, bem carregado, enquanto tirava o bebê dos braços de minha mãe, ajudando-a, ainda, com malas e sacolas. Tinhamos que dar a volta no terreiro de secar café, e entrar na casa pela porta da cozinha, pois, nunca descobri porquê, a porta da sala ficava sempre fechada. Na verdade, era um cômodo morto, guardando apenas uma escrivaninha antiga do meu tio Gracindo, toda empoeirada. A vida acontecia mesmo, era na cozinha. A nossa espera, havia uma farta mesa preparada com enormes pães caseiros, manteiga cremosa, feita com nata de leite fresco, café, queijo, polenta e ovos fritos.

Como chegávamos mortos de fome -- lembra-se do frango assado???pois é, comíamos apenas ele, durante toda a viagem, portanto, àquela hora do dia, o estômago quase se colava às costas. Eu adorava polenta com ovo frito, desde que a gema ficasse bem molinha. Comia tanto e com tanto gosto, que chegava a lambuzar a cara inteira de amarelo. Depois, ainda colocava polenta em uma caneca e a cobria com leite e café preto, e ficava tomando aquela gororoba, às colheradas. Minhas irmãs faziam mais sujeira com a comida, espalhando-a fora dos pratos e canecas, do que comendo, propriamente. Mas aquele café servido a nossa chegada, que seria repetido durante todos os dias de nossas férias, era único. "Ma  che banquete, mama", minha mãe comentava, enquanto se fartava de comer, também.

Logo, estava escuro, e as lamparinas e lampiões eram acesos, pois ainda não existia luz elétrica na zona rural da região da Alta Sorocabana. Claro, uma ou outra propriedade, de gente mais abastada, já contava com esse conforto, mas não era o caso de meus avós. Havia comida farta, isso, sim, mas nenhum outro luxo. Tudo era muito modesto. Nos quartos, somente camas e criados mudos. Não havia cortinas, nem quadros, nem qualquer adorno pelas paredes ou móveis. A casa grande era nova, mas mobiliada apenas com o essencial. Na porta da cozinha, havia uma varanda, com um poço, de onde se tirava a àgua para beber, dar aos animais, molhar o jardim e algumas árvores mais próximas. Com a fraca luz das lamparinas iluminando seu rosto, minha mãe ainda encontrava forças para tirar alguns baldes de àgua, colocar para ferver no fogão à lenha, e  preparar o nosso banho. Nós ficávamos sentados no parapeito da varanda, rodeando o poço, e cantando cantigas de roda, enquanto ela enrolava a corda que puxava o balde com à àgua, cujo som choroso, quase um lamento, engrossava o nosso coro, provocado pelo contínuo movimento da manivela.

O quarto de banhos era escuro, àquela hora da noite, fracamente iluminado, e tudo o que queríamos, depois da longa viagem e do farto café, era uma cama bem quentinha. Mas minha mãe jamais nos deixaria ir deitar, sem que tomássemos banho. Para falta de higiene, não havia argumentos para ela. Então, o jeito era ter juizo e obedecer-lhe, senão, ainda iríamos dormir com a "bunda quente", como ela dizia. Eu e minha avó, ajudávamos minha mãe a banhar as meninas, enquanto o bebê dormia no quarto ao lado.  A água quentinha era relaxante e nós acabávamos dormindo, dentro da tina, e sonhando com todas as brincadeiras e estripulias que iríamos fazer no sitio, no dia seguinte. Aquele era um raríssimo momento de felicidade, nas nossas vidas, e merecíamos curtí-lo, gota-a-gota.

domingo, 7 de setembro de 2008

Capítulo 6 - Férias com gosto de frango com farofa

Todos os anos, eu, minha mãe, e minhas irmãs pequenas, viajávamos para o sítio de meus avós em Assis. Eu ficava contando no calendário, os meses que se passavam. E, quando chegava o mês de julho, eu começava a contar as semanas, os dias, as horas e até os minutos. Irritava minha mãe, de tanto perguntar-lhe quanto tempo faltava, ainda, para arrumarmos malas. Então, num belo dia, a viagem era marcada. Na véspera, havia uma série de preparativos. E matar um frango, para assá-lo com farofa -- que seria o nosso almoço no percurso de trem, de cinco horas, entre uma cidade e outra -- era uma das tarefas. Ela destroncava-lhe o pescoço, depois metia-o num balde de água fervendo, para amolecer-lhe as penas, e, após alguns minutos, jogava a pobre ave, ainda se debatendo, nas nossas mãos para que nós o depenássemos, literalmente.

Ah, e não podíamos desperdiçar as penas, porquê, depois de secas, elas iriam servir de enchimento para novos travesseiros. Era uma verdadeira festa, ver o frango se estrebuchando, sobre o girau de secar roupas, onde nos acocorávamos, em torno, nos divertindo muito e brigando entre si, para ver quem é que conseguia arrancar mais penas do pobre franguito. Ou podia ser uma galinha velha, também. Uma vez depenado, não tinha mais sexo. Cá entre nós, eu era a única que não me divertia muito, não, com essa cena. Achava minha mãe muito fria, quando ela puxava o pescoço da ave, para matá-la, e, não contente, ainda dava-lhe o mergulho na àgua quente, como golpe de misericórdia. Eu achava minha mãe muito cruel, ao passo que eu, quando crescesse, jamais teria coragem de matar um frango. Aliás, nem um passarinho. Com a cabeça baixa, sentada em volta do girau, eu ajudava a depenar a ave, tentando esconder as as lágrimas.

Outra preocupação de minha mãe, era com nossas roupas. Ela arrumava uma mala bem grande, com roupas suficientes para que pudéssemos passar um mês de férias. Não tínhamos tantas vestimentas assim, mas como iríamos nos sujar muito, brincando no terreiro de café e subindo nos pés de jabuticabas, levávamos uns trapos velhos, muitos até remendados, mas, rasgados, nunca. A mãe fazia questão de que tudo estivesse muito bem lavado e passado. Então, ficava dias, cuidando de todos os detalhes: cerzia as meias, cortava as pernas das calças curtas, tranformando-as em shorts e bermudas, pregava zíperes, enfim, arrumava um verdadeiro enxoval para que aproveitássemos bem a viagem.

No dia do embarque, acordávamos cedinho, tomávamos café, e meu pai ia deixar-nos na estação de trem. Não me lembro dele ter ido com a gente, nenhuma vez. Ele comprava os tickets de cada um, entregava-os em nossas mãozinhas, e ficava ali, de pé, entre um cigarro e outro, aguardando a partida. Nós entrávamos no trem, sempre ajudados pelo cobrador, porquê era muita criança e mala juntas, e ficávamos acenando para ele, até que sua imagem desaparecesse de nossas retinas. Frequentemente, era eu quem me sentava à janelinha. Como eu era maior que minhas irmãs, eu impunha a minha vontade, e pronto. Às vezes, brigávamos, mas eu sempre saía ganhando, claro. Eu não abriria mão, por nada, de ficar sentadinha naquele lugar, observando a paisagem que corria para trás, enquanto o trem avançava nos trilhos.

Hoje, que conheço cenários deslumbrantes desse Brasilzão de meu deus, e até de  algumas terras estrangeiras, sei que aquela paisagem era muito simplória e repetitiva. Não havia cachoeiras, nem montanhas, nem praias, na região do Oeste Paulista. Apenas fazendas enormes de café. Mas como eram lindos os cafezais da minha infância. Os cafeeiros pareciam bahianas de escolas de samba, com aquelas saias rodadas, imensas, bordadas com cerejas, a fruta do café. Dependendo da época do ano, elas podiam ser verdes, vermelhas, ou ainda, diminutas flores, brancas ou meio rosadinhas. De vez em quando, essa paisagem se alternava com alguns riachos e bois pastando. Eu, então, tentava contá-los, imediatamente, mas nunca conseguia passar dos dez ou quinze, porquê o cenário já era outro, trazendo de volta os cafezais.

Era difícil eu me cansar do posto privilegiado da janelinha, mas às vezes, era obrigada a mudar de lugar com uma das minhas irmãs, que minha mãe, provavelmente, apartava de alguma briga entre elas, com um safanão ou puxão de orelhas. "Marisa, saia daí, agora, e dê o lugar para a Rosangela ou para a Roseli", dizia ela, muito brava, os lábios apertados, e um olhar duro e frio, que me fazia tremer na espinha. Pronto. Bastava encará-la e eu obedecia-lhe na hora, trocando de lugar com alguma daquelas pestinhas. A Marcia não entrava ainda na disputa, porquê era o último bebê, e ainda gozava do conforto do colo de minha mãe.

Mas o melhor momento da viagem, era por volta das 11 horas, quando um homem de uniforme branco e quepe aparecia no corredor do trem, oferecendo guaranás e sanduíches de mortadela. Quero dizer, vendendo, né? Por isso mesmo, havia toda a preparação do frango assado, recheado com farofa de milho e ovo cozido, na véspera, que seria o nosso lanche dentro do trem. Muito provavelmente, nosso frango assado, que minha mãe destrinchava no colo, dando um pedaço para cada uma, era muito mais saboroso e nutritivo que o tal sanduíche de mortadela vendido no trem, mas, em situação semelhante, tente convencer uma criança. Seria o mesmo que tentar fazê-la trocar o sanduiche do Mac Donald´s por um prato de macarrão ou de salada. Quando muito, ganhávamos uma garrafinha de guaraná, para ser dividida em duas. Entre mais brigas e confusão, com cochas e asas voando pelas cabeças dos outros passageiros, acabávamos, mesmo, tendo que comer o nosso delicioso e tenro franguinho.

Finalmente, o trem chegava à estação de Marília, onde teríamos que descer, e então tomar um ônibus, e fazer um percurso de mais umas duas horas, até chegar em Assis. Era um sufoco. Minha mãe, com o bebê no colo, não conseguia segurar nas nossas mãos, então, ela ficava irritada o tempo todo, e me chamando a atenção, para cuidar das minhas irmãs. Insistia que devíamos ficar de mãos dadas, para não nos perdermos, umas das outras. E ainda tinha sempre as malas e alguns sacos de roupa ou sapatos, para ajudarmos a carregá-los. O tempo entre descer do trem, sair de uma estação e ir até a outra, era muito curto, e tínhamos que fazer tudo isso, muito depressa, para não perdermos o ônibus.

Essa segunda parte da viagem, não sei porquê, era menos emocionante. Minha memória apagou qualquer detalhe. Creio que a ansiedade por chegar ao sítio dos meus avôs, no bairro do Matão, em Assis, era muito grande, e não conseguíamos pensar em outra coisa. Mal podíamos esperar para avistar a carrocinha do meu avô, o velho e bonachão Antonio Romagnoli parada na rodoviária, com ele sentado no estribo, fazendo o seu cigarrinho de palha, com a carinha mais sossegada deste mundo. A chegada era uma festa. Uma pena que não existiam as câmeras digitais de hoje, pois nunca tiramos uma única foto daquela carroça apinhada de crianças lourinhas, com bochechas muito rosadas e sorridentes, por, enfim,  chegarem à terra onde passávamos o mês mais feliz de nossas vidas.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo 5 - Urros, gemidos e sussurros

Um dia, lá pelas tres horas da tarde, entrei em casa, e ouvi roncos, urros, gemidos e sussurros que vinham do quarto dos meus pais. Meu coração disparou. Mas uma curiosidade inexplicável tomou conta de mim e me fez caminhar, pé ante pé, até chegar mais perto daquele som estranho. A porta estava entreaberta, então, eu fiquei ali parada, estarrecida, sem conseguir me mexer, diante de uma cena grotesca e incompreensível para uma menina ainda tão pequena: eu vi o corpo de meu pai, nu e coberto de pelos, deitado sobre minha mãe, também nua, embora eu não pudesse vê-la direito. Ele fazia um movimento estranho com os quadris, como se quisesse amassá-la em cima da cama, e ela, por baixo dele, apenas gemia. Eu não sabia o que eles estavam fazendo, e a primeira impressão foi de que ele  estava tentando estrangulá-la, pois suas mãos pareciam apertar o pescoço dela. Mas ela gemia de um jeito estranho, que não era de dor. Então, eu não entendi nada, mas intui que, pelo menos naquele dia, eles podiam estar fazendo algo muito esquisito, mas, com certeza, não estavam brigando. Dei meia volta, e corri para o quintal, antes que eles me vissem e, das duas, uma: resolvessem me bater, ou sei lá, me envolver naquela coisa macabra-prazerosa que estavam fazendo...eu, hem? Pernas prá que te quero, vazei...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Capitulo 4 - Passar roupas com ferro à brasa, ninguém merece

Com a chegada de mais um bebê, o trabalho doméstico, somado ao apoio que minha mãe dava ao meu pai, nos cuidados com os cavalos no curral, aumentara muito. Todos os dias havia uma montanha de fraldas para lavar e passar, e isso era serviço para uma só pessoa, durante um dia inteiro. De manhã, tirava-se o cocô das fraldas com uma escova, depois se ensaboava, uma por uma, e as deixava estendidas no gramado, junto ao girau, para "quarar" --verbo que não se usa mais, depois do advento das máquinas de lavar roupa, com toda a certeza -- o que significava  deixá-las ao sol, para recuperar suas cores originais, quase sempre o branco.
Minha mãe poderia apressar o processo de "embranquecimento" das fraldas com uma pedra de anil, como faziam todas as vizinhas, sem exceção, mas ela preferia os raios de sol para deixar suas fraldas bem branquinhas. Vistos do alto, os lençóis e fronhas que minha mãe quarava, eram lenços de adeus. Só após o almoço ela se atrevia a recolher aqueles panos do sol e passava mais algumas horas, enxaguando-os em àgua bem limpa, até ficar segura de que podiam ser estendidas no varal. Ela se orgulhava de cada detalhe do seu trabalho, e o fazia com perfeição.
Só a noitinha, com o calor de quase 40 graus que se fazia na região onde morávamos --Dracena, no Oeste Paulista -- as roupas ficavam secas e podiam ser passadas. Serviço para mais uma ou duas horas. E, aí é que eu entrava na dança: ela enchia o ferro de carvões em brasa, arrumava um cobertor em cima da mesa, estendia-lhe por cima, uma toalha branca, encostava uma cadeira perto da mesa, para que eu pudesse alcançá-la, ajoelhando-me nela, e me punha a passar a montanha de roupas, retiradas do varal, ainda úmidas:fraldas e mais uma meia duzia de roupinhas de bebê. Macacões, mijões, camisetinhas e paletózinhos.
Eu ia passando, um por um, fazendo um esforço enorme para levantar aquele ferro pesado, que tinia de tão quente, com aquelas brasas ardendo, dentro dele. O meu rosto também ficava vermelho, e eu suava muito, não tanto pelo peso do ferro ou pelo esforço para levantá-lo, mas, sim, pelo medo de deixá-lo cair das mãos, pousá-lo muito tempo sobre uma das roupinhas, queimando-as, ou, principalmente, de deixar alguma fuligem das brasas escaparem pelos buracos do ferro, o que também podia queimá-las.
Era um serviço muito duro para uma menina que mal completara seis anos, mas minha mãe não tinha outra escolha. As minhas outras irmãs, Rosangela e Roseli, tinham, respectivamente, quatro e dois anos, o que as eximia, claro, de qualquer tarefa doméstica. Isso, sem contar que durante o dia, enquanto minha mãe lavava roupas e fazia o almoço, eu já tinha limpado a casa inteira, passado pano no chão, encerado-o, vez ou outra, e ainda cuidado do bebê. Eu ainda não sabia fazer sua papinha, mas minha mãe deixava-a preparada, logo cedo, junto com o café, e eu cuidava de sua alimentação, revezando as papas com as mamadeiras.
É claro que, de vez em quando, eu aproveitava que ninguém estava por perto e assaltava a lata de leite Ninho, comendo algumas colheradas de leite em pó, às escondidas. Ficava com aquela massa de leite grudada no céu da boca, dissolvendo-a devagarinho, com a língua, deliciando-me e rezando para que mamãe não me pegasse fazendo "coisa errada". Senão, o pau cantava. Ou melhor, o chinelo. Ou o relho do meu pai. Ou o galho da goiabeira. Enfim, o que ela encontrasse primeiro, era rapidamente transformado em instrumento de tortura.
Nessas horas, eu deixava de ser sua empregada e babá, para ser transformada numa criança má, endiabrada, que merecia ser surrada, até que ela se cansasse de tanto me bater. Eu chorava muito porquê o castigo costumava ser longo e as chibatadas doíam muito, deixando vergalhões em minha pele sensível e branquinha. Mas ela nem se importava. Ou então, era tão dura, que não demonstrava nenhum sentimento. Hoje eu sei que chorava por dentro.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Capítulo 3 - O diabo veste terno branco

Um dia meu pai chegou mais cedo, em casa. Minha mãe e sua comadre Augusta, madrinha da Marcia, estavam lá embaixo do girau, onde ficavam a táboa e a tina de lavar roupa. Elas conversavam, em voz baixa, e não dava para entender o que diziam. Eu brincava ali por perto, mas ficava sempre de ouvido esticado, tentando entender o que as duas diziam. Minha mãe viu meu pai chegar, mas continuou fazendo o seu trabalho. Então, ele apeou do cavalo baio, tirou-lhe a sela, mas não o levou para a cocheira, como de costume. Desceu até o girau e já veio perguntando em voz alta, se ela tinha passado seu terno branco, que ele iria a uma festa, à noite, e queria usá-lo.
Ela respondeu-lhe que não, pois não tinha tido tempo de passá-lo. E mal completou a frase, já escorregava para o chão, com o tremendo tapa no rosto que ele lhe desferira. Minha tia -- era assim que chamávamos todos os compadres e comadres de meus pais, de tios e tias -- assustada, entrou na frente dele, para proteger minha mãe, e o próximo tabefe acabou-lhe acertando, também. Enquanto isso, minha mãe se levantara e subiu correndo, para tentar se proteger dentro de casa. Mas ele a alcançou pelo braço, e começou a estapeá-la, covardemente.
E tia Augusta, uma mulher franzina, mas valente, não se conformou em ver aquela cena absurda, correu, e entrou no meio da briga, tentando fazer meu pai parar de surrar minha mãe. Mas ele parecia tomado pelo demônio. E continuava a desferir socos e pontapés, que eram distribuídos entre as duas. E, claro, a cena e os gritos das duas mulheres chamaram a atenção de meu tio Luizinho, marido da tia Augusta, que ouviu o berreiro de sua casa, e também correu até os tres, que a essa altura, já rolavam, embolados no chão. Meu tio chegou correndo, gritando "pára, tião, pára, tião", ao mesmo tempo em que tentava segurar o meu pai. Mas nada nem ninguém parecia poder conter a ira daquele homem, tomado por uma fúria assassina. E, em segundos, era meu tio que se enfiava no meio, rolando com os três, no chão.
Eu não me lembro se minhas duas irmãs pequenas assistiram aquela briga, que foi uma das cenas mais triste e dramática da minha infância. Acho que minha mãe ainda estava de dieta e amamentando o bebê. Tomara que elas não tenham assistido, pois jamais me esqueci daquela cena grotesca, onde quatro pessoas brigavam, emboladas no chão, como se fossem cães.Na verdade, duas delas tentavam segurar meu pai, e impedir que ele machucasse ainda mais a minha mãe. Mas aquela confusão de braços e pernas se misturando no chão, além dos gritos, xingos e grunhidos, era cruel demais para ser presenciada por uma criança de apenas seis anos. Eu me lembro que apenas assisti à briga, zonza, sem nenhuma reação. E até hoje, quando conto ou escrevo essa história, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mais de quarenta anos se passaram, desde então, e eu ainda choro, com muita pena daquela menina . Ninguém se importava com ela. Só eu me importo, agora.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Capítulo 2 -Saídas noturnas

Havia se passado uns tres meses, desde aquela madrugada rompida com o choro de minha mais nova irmãzinha, Marcia. Mas, como diziam os adultos, uma pulga insistia em me coçar atrás da minha orelha. Porquê será que meu pai não tinha chegado em casa até aquela hora, sabendo que minha mãe estava prestes a dar a luz? Incomodava-me aquela ausência, e desde então, comecei a prestar atenção ao comportamento dele. Quando caía a tarde, ele já ia chegando da lida na fazenda, apeava do cavalo, tirava sua montaria, escovava o bichão, e o levava para comer -- capim ou cana, sempre frescos, que minha mãe já tinha cortado, à tarde -- e, depois, dava um tapa na garupa do animal, fazendo-o galopar rápido e entrar na cocheira.

Então, ele entrava em casa, tirava o chapéu -- quase sempre um bonito panamá preto, quebrado à direita e à esquerda --e pendurava-o na parede do quartinho onde costumava guardar selas, arreios, laços, esporas, e outras traquitanas do gênero. Depois, descalçava as botas, enquanto minha mãe já vinha trazendo o balde de àgua morna, para preparar-lhe o banho, num dos quartos, mais ao fundo da casa. Esse ritual era sagrado. A água tinha sido tirada do poço, fervida no fogão à lenha, e só então era misturada com mais àgua fria, para ficar na temperatura ideal, que não lhe queimasse a pele. Já sem as botas e as meias, meu pai tirava a camisa, e ficava com o dorso nu, com seu peito cabeludo, todo à mostra. Ele não era muito alto, mas tinha os braços fortes, o tronco bem definido, e a barriga "tanquinho", a la abdomens sarados à base de academia. Que no caso dele, eram o cabo da enxada e a doma dos cavalos, mesmo. Aquela máquina de músculos era definida pelo trabalho braçal com os cavalos, puxando plantadeiras, arando e tombando terras, numa rotina exaustiva no campo, que começava com o canto dos galos e bem antes antes do sol nascer, todos os dias, meses e anos a fio, com um único descanso semanal, aos domingos. Eu me esgueirava atrás das portas, e ficava admirando a beleza máscula do meu pai: o seu rosto com traços fortes de ascendência espanhola. Os olhos eram grandes com as pupilas verdes e brilhantes como azeitonas, protegidos por uma espessa camada de cílios, bem longos. As sobrancelhas também eram grossas e quase se tocavam, uma na outra. O nariz não era bonito, mas se harmonizava com o conjunto do rosto, que se completava com a boca de lábios finos, sempre cobertos por um bigode preto e muito bem aparado. Usava longas costeletas até o pé da orelha, e durante o banho, ficava horas à fio, com um espelho na mão, fazendo a barba, rigorosamente aparada, todos os dias. O cabelo era castanho bem escuro, com fios encorpados e ondulados, que ele mantinha arrumado, a base de gel.

Era vaidoso o meu pai, muito vaidoso, alias, ao contrário de minha mãe, que vivia com uns vestidões compridos e um lenço amarrado na cabeça, sem usar nenhuma maquiage ou acessório, que lhe destacasse a beleza agressiva, originária de italianos da antiga Toscânia. Durante o banho, era comum ver minha mãe abaixada, lavando-lhe os pés, que ele deixava para fora, com as pernas penduradas à beira da tina. Ou então, ela esfregava-lhe as costas, com aquelas imensas buxas naturais, que ela mesma plantava e colhia, por cima da cerca da casa. Quando ele terminava o banho, ela entregava-lhe a toalha, que já estava à mão, dobradinha, limpa e bem passada, em cima de uma cadeira. Ele se levantava da tina, e enrolava a toalha na cintura. Eles não se preocupavam em fechar a porta do quarto de banhos, então, ela ficava sempre entreaberta, e muitas vezes, eu chegava a ver o corpo do meu pai, totalmente nu. Via-lhe o sexo, mas não sabia o que era. Só achava esquisito ele ter aquelas bolotas penduradas entre as pernas, em vez de ter uma xoxota branquinha e sem pelos, como a minha. Achava aquilo esquisito, feio, e não sabia porquê era diferente das mulheres. Eu ficava intrigada, mas tinha medo e vergonha de perguntar para minha mãe.

Então, comecei a observar que, quase todas as noites, após o banho demorado, o meu pai se vestia novamente, sempre escolhendo as melhores camisas, de mangas longas, que ele usava com os punhos dobrados, enfiadas por dentro da calça. Essa, por sua vez, era sempre de um tecido fino, tergal ou linho, que minha mãe já tinha deixado passadas à tarde, com seu indefectível ferro de brasas. E o traje se completava com meias e sapatos de couro pretos, sempre muito bem engraxados. Pela minha mâe, claro.

Todo emplumado, ele passava uma àgua de cheiro atrás das orelhas, pegava o chapéu, e saía, outra vez,  sem nos dizer nem boa noite. Dizia apenas que não demoraria, que estava indo ver algum negócio, sem maiores explicações, que minha mãe também não lhe perguntava. Lembro-me que nunca jantava conosco. Almoçar, também não, já que passava o dia inteiro na roça. E então, eu, minhas irmãs pequenas e minha mãe, começávamos o nosso banho. Minha mãe renovava a àgua da tina  e nos deixava lá, mergulhadas, todas juntas, por um bom tempo. Era uma maneira de nos manter entretidas, enquanto ela se desvencilhava das últimas tarefas do dia.

E nós três -- eu, a Rosangela e a Roseli, ficávamos lá, lavando-nos umas as outras, fazendo bolhas de sabão e, às vezes, brigando também, pela sua posse -- um pedaço de pedra mal-cheirosa, que era feito da barrigada dos porcos que meu pai matava, uma vez por mês. Enquanto brincávamos na tina do banho, minha mãe preparava uma sopa e o mingau do bebê. Ao terminar, preparava os nossos pratos, para a sopa ir esfriando, e nos chamava para jantar. Eu ajudava as minhas irmãs a terminarem o banho, enxugava-as e vestia-lhes com os nossos pijamas de bolinhas vermelhas ou azuis, e corríamos, famintas, para a mesa.

Jantávamos em silêncio, à luz de lamparina à querosene, que iluminava mal o ambiente, projetando nossas sombras nas paredes, como se fossemos personagens de um filme mudo. Sentada ao pé do fogão, minha mãe comia com o prato na mão, ou então, ficava com o bebê no colo, dando-lhe de mamar no peito. Seu semblante era sempre cansado e triste. Ela quase nunca sorria ou brincava com a gente. Vez ou outra, eu percebia que uma lágrima quieta, escorria-lhe pela face, mas ela engolia o choro com a sopa, e não reclamava de nada.

Terminado o jantar, nós íamos direto para a cama. Não havia tevê, computador, nem livros de historinhas, para ninguém se entreter. Nossa casa era muito simples, quase não tínhamos móveis, apenas as coisas e objetos essenciais: camas e guarda-roupas nos quartos, um jogo de sofá na sala, mesa e cadeiras na cozinha. Nenhum objeto de decoração, sobre os móveis ou nas paredes. Nada, nem uma fotografia branco e preto, ou um porta-retrato de alguém querido. Por isso, o jeito era ir dormir, pois não havia, mesmo, o que fazer. Às vezes, eu ainda brincava um pouco com minhas duas irmazinhas pequenas, fazendo-as se cansarem com guerras de travesseiros. Ou então, tinha que ficar balançando o berço, para fazer o bebê dormir, porquê minha mãe ainda continuava um bom tempo na cozinha. Ela ainda lavava toda a louça, e só depois ia tomar o seu banho. Eu não sei se ela trocava a àgua da tina mais uma vez. Sei que ela sempre despejava-a  no quarto do banho e o lavava, todas as noites, aproveitando aquela àgua com sabão para deixar tudo muito limpo. Só então ela ia para o quarto, para se deitar, mas, se o bebê ainda estivesse acordado, ela o embalava no colo, dando-lhe os peitos para mamar, mais uma vez.

Eu não sabia quantos anos minha mãe tinha naquela época, mas, comparando-a com meu pai, eu a achava muito velha. Mas não saberia explicar porquê. Então eu ia para o meu quarto, e também dormia, não antes de rezar três ave-marias e um pai-nosso, orações que eu aprendera desde bebezinho,  com a minha mãe. E, nessas orações, eu me lembro que sempre pedia para o Menino Jesus trazer o meu pai logo, de volta para casa. E demorava para dormir, ansiando por sua chegada.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Capítulo 1 - Meu pai era domador de cavalo chucro


Meu pai era domador de cavalo chucro. Daqueles que nunca tinham visto um arreio na vida. Garanhão, de preferência. Alazões, tordilhos, pampas, negros, brancos, a pelagem não importava. Ele pegava o bicho de jeito, botava-lhe o cabresto, segurando-o bem curto, e pulava-lhe sobre o lombo. O animal, assustado, empinava. Depois, jogava o corpo de um lado para o outro, boileava, dava coices até na sombra, só para derrubar o cavaleiro. Mas que nada. Tião Mirante, como era conhecido, era o peão mais talentoso das redondesas. A cada cavalo domado, sua fama corria léguas.

Eu, muito pequena, ainda – devia ter uns seis anos – por essa época, ficava espiando tudo pela porta entreaberta da sala, sem coragem para sair lá fora. Vez ou outra, quando o bicho saltava muito, ajoelhava e pedia para Nossa Senhora que lhe protegesse, que não o deixasse cair, pois não queria ver meu pai estendido no chão: morto. Não entendia aquela coragem. Intrigava-me tanta fúria. Homem e animal se fundiam numa imagem agressiva, onde domador e domado eram uma coisa só. Uma só vontade: o domínio sobre o outro.
Quando, finalmente, o cavalo desistia de pular, pois meu pai jamais saia de cima de seu lombo, estava pronto para ser selado e ir para a lida da fazenda. Puxar carroça, agora, seria o seu destino. Quando muito, uma charrete, nos finais de semana, quando iríamos para a cidade, às missas domingueiras, e depois comer pipoca e tomar sorvete, assistindo ao coreto da praça. Mas isso era coisa rara de acontecer. Uma ou outra vez por ano, às vezes na Páscoa, outra no Natal, quando, com o dinheiro da colheita do café, era época de comprar roupas e sapatos. Me lembro de uma cena que se repetiu durante vários anos, comigo e todas as minhas irmãs sentadinhas, lado a lado, descalças, enquanto o vendedor ia tirando e pondo sapatinhos, um pé, sim, outro não. E a cada ano, aumentavam os pés. Ou os sapatos, não sei, porquê criança, lá em casa, não nascia: esporulava. Todo ano, a cegonha trazia mais um bebê. Eita cegonha certeira, meu Deus. Ela nunca errava a pontaria, deixando as crianças caírem no vizinho.

Mas, por aqueles anos, a cegonha e sua história para boi dormir estava com os dias contados. Numa madrugada, minha mãe me acordou, em prantos. Meu pai não estava em casa. Minhas irmãs – Rafaela e Rebeca– dormiam seus sonos de anjos. Então eu descobri porquê ela estava com aquela barriga imensa. Havia mais um bebê a caminho, e dessa vez, a cegonha teria que se transformar na parteira, d. Aparecida. Minha mãe me pediu, chorando, que fosse correndo até a casa dela, e que a trouxesse para ajudá-la no parto. Eram umas quatro horas da manhã, estava muito escuro lá fora, só se ouvia o latido de cães e o coaxar de sapos. Eu não estava entendendo direito aquela história, mas não tinha tempo de perguntar mais nada. Sabia que a vida de minha mãe corria perigo, e saí numa corrida desabalada.

Nossa casa ficava na parte mais alta de um terreno em declive, que acabava num riachinho, lá embaixo. Lembro que corri muito, e quando cheguei ao rio, fiquei com medo de atravessá-lo, pois não sabia nadar – até hoje não sei!!! Então, respirei fundo e saltei, com todas as forças e altura que minhas pequeninas pernas conseguiram, e alcancei a outra margem, sem cair na água. A casinha da parteira já se avistava, mas eu ainda teria que andar mais um quilômetro, mais ou menos, para chegar até lá. Eu só pensava na minha mãe lá sozinha, que resolvera ter um filho sem a visita da cegonha, e corria mais ainda. Quando cheguei à porta do casebre, a noite se fantasiou de cães negros, que vieram me cercando, latindo muito a minha volta, e ameaçando me atacar. Meu coração disparava de medo. Minha voz nem saía direito, mas me lembro de gritar o nome da D. Aparecida, seguidamente, não sei quantas vezes.

Derrepente, uma janela começou a se abrir, com aquele barulho de dobradiças que choram lágrimas de ferrugem, e a sombra de um rosto feminino foi desenhada pela lua, revelando seus cabelos negros, soltos e desalinhados. Levei outro susto com aquela aparição fantasmagórica, pois a mulher que eu tinha vindo buscar, usava os cabelos trançados e enrolados em volta da cabeça, sempre muito distinta, com jeito de rezadeira. E a mulher descoberta pela lua, tinha cara de feiticeira. D. Aparecida esticou o pescoço fora da janela e logo me reconheceu, no meio dos cães que continuavam latindo, muito bravos. Ela soltou um grito e a cachorrada estacou, derrepente. Um ou outro, ainda uivava. Eu fui perdendo o medo e dei mais alguns passos para chegar até a porta. Ela me perguntou o que eu queria e fui logo dizendo que minha mãe estava lá em casa, sozinha, e com um bebê na barriga. “Ela me pediu para vir buscar a senhora correndo, pois a cegonha não pode vir dessa vez”, gritei.

D.Aparecida me abriu a porta e me arrastou para dentro de uma cozinha pequena, de chão batido. Havia um banco de madeira, bem tosco, com uma moringa dágua sobre ele, num canto. A mulher embrulhou os longos cabelos em um xale preto e, de camisola mesmo, sentou-se no banco, dobrou a moringa sobre os joelhos, e encheu uma bacia velha com a àgua fria do pote. Lavou os pés muito brancos e calçou umas botinas bem gastas, próprias para andar naqueles terrenos encharcados. Então, aprumou-se, me pegou pela mão, e saímos as duas em disparada, de volta a minha casa.

Continuo não me lembrando como atravessei o riacho, outra vez. Mas, enquanto corríamos, ela ia rezando em voz alta, rogando as santas protetoras das mães desamparadas que tivesse piedade dela, da minha mãe grávida, e de todas as outras mães do mundo. Eu não sabia se a ajudava na reza ou se chorava, porquê sentia que podia perder minha mãe, e ficava com ódio da cegonha daquele ano, preguiçosa, que não quisera trazer mais um irmãozinho do mesmo jeito que os outros, enrolado num pano e pendurado no bico, como sempre.

D. Aparecida corria muito, quase me arrastando, e eu olhava o céu, cheinho de estrelas, e com uma lua imensa, que clareava nosso caminho na terra. Sentia muito medo e frio, e corria o máximo que minhas perninhas podiam. Afinal, chegamos em casa. E graças a Deus, minha mãe não estava mais sozinha. Meu pai já estava com ela e a ajudava no trabalho de parto. A parteira foi para a cozinha, pegou todas as panelas e caldeirões que encontrou pela frente e encheu-os com água do pote. “Bom mesmo seria água quente, mas com fogão à lenha, não podemos nos dar a esse luxo”, ela resmungava, enquanto ia levando as vasilhas para o quarto.

Claro que minha ajuda e companhia foram dispensadas assim que chegamos à porta da casa. "Criança não pode saber dessas coisas", foi logo avisando meu pai, indicando-me o caminho do cômodo, onde dormiam minhas irmãs pequenas. Deitei-me ao lado delas, e fiquei lá, quietinha e tensa, atenta a qualquer barulho que viesse do quarto de minha mãe. Sabia que dentro de poucos minutos, haveria mais um bebê na casa, e só conseguia pensar em como seria sua carinha, se seria parecida comigo, com a Rafaela, que era moreninha, de cabelos encaracolados, ou com a Rebeca bem polaquinha. Mas a Marcita  não saiu parecida nem comigo, nem com nenhuma das outras duas. Ela chegou chorando forte, mas determinada a viver, apesar dos seus pouco mais de um quilo e meio, muito abaixo do peso e tamanho ideais para um bebê saudável. Tinha o cabelo castanho bem escuro, que, com o tempo, também seria cacheado, e os traços de seu rosto, cuja cabeça cabia na palma de uma mão, eram bem desenhados.

Poucos dias após aquele tumultuado parto, minha mãe já estava em pé, levando cavalos para pastarem e tirando àgua de poço bem fundo. Logo, sobrou para mim a tarefa de cuidar daquela criança recém-nascida. Com apenas seis anos, eu já fora recrutada para a tarefa de babá, embora não soubesse, ainda, nem tomar banho sozinha.