segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Capítulo 7 - Chegada ao sítio dos avós

Chegar ao sítio dos meus avós, após um dia inteiro de viagem, era cansativo, mas de uma alegria indescritível. Normalmente, vó Ana ficava espiando a carroça de meu avô apontar lá em cima, na porteira e, só então, ela saia à frente da casa, vindo ao nosso encontro. O caminho entre a porteira e a casa, parecia o mais longo de todos, tamanha era a nossa ansiedade. E quando vovô parava o cavalo bem à porta, eu era a primeira a saltar, sem jamais dar ouvidos aos gritos de minha mãe: "cuidado, não vá se machucar". Antes que ela abrisse a boca, eu já estava no chão, de um pulo só. Eu era a primeira a pular no pescoço de minha avó, que nunca correspondia ao abraço excessivo, enchendo-a de beijos. O lenço amarrado à cabeça, acabava escorregando, com os meus arroubos carinhosos, e ela deixava à mostra sua longa cabeleira branca. Ela me ignorava solenemente, e ajudava minha mãe, a descer da carroça, entre incrédula e curiosa para ser apresentada, sem cerimônias, a mais uma neta.

Ou seria neto, dessa vez? "ah, ma cheê, otra menina", logo disparava, com seu sotaque italiano, bem carregado, enquanto tirava o bebê dos braços de minha mãe, ajudando-a, ainda, com malas e sacolas. Tinhamos que dar a volta no terreiro de secar café, e entrar na casa pela porta da cozinha, pois, nunca descobri porquê, a porta da sala ficava sempre fechada. Na verdade, era um cômodo morto, guardando apenas uma escrivaninha antiga do meu tio Gracindo, toda empoeirada. A vida acontecia mesmo, era na cozinha. A nossa espera, havia uma farta mesa preparada com enormes pães caseiros, manteiga cremosa, feita com nata de leite fresco, café, queijo, polenta e ovos fritos.

Como chegávamos mortos de fome -- lembra-se do frango assado???pois é, comíamos apenas ele, durante toda a viagem, portanto, àquela hora do dia, o estômago quase se colava às costas. Eu adorava polenta com ovo frito, desde que a gema ficasse bem molinha. Comia tanto e com tanto gosto, que chegava a lambuzar a cara inteira de amarelo. Depois, ainda colocava polenta em uma caneca e a cobria com leite e café preto, e ficava tomando aquela gororoba, às colheradas. Minhas irmãs faziam mais sujeira com a comida, espalhando-a fora dos pratos e canecas, do que comendo, propriamente. Mas aquele café servido a nossa chegada, que seria repetido durante todos os dias de nossas férias, era único. "Ma  che banquete, mama", minha mãe comentava, enquanto se fartava de comer, também.

Logo, estava escuro, e as lamparinas e lampiões eram acesos, pois ainda não existia luz elétrica na zona rural da região da Alta Sorocabana. Claro, uma ou outra propriedade, de gente mais abastada, já contava com esse conforto, mas não era o caso de meus avós. Havia comida farta, isso, sim, mas nenhum outro luxo. Tudo era muito modesto. Nos quartos, somente camas e criados mudos. Não havia cortinas, nem quadros, nem qualquer adorno pelas paredes ou móveis. A casa grande era nova, mas mobiliada apenas com o essencial. Na porta da cozinha, havia uma varanda, com um poço, de onde se tirava a àgua para beber, dar aos animais, molhar o jardim e algumas árvores mais próximas. Com a fraca luz das lamparinas iluminando seu rosto, minha mãe ainda encontrava forças para tirar alguns baldes de àgua, colocar para ferver no fogão à lenha, e  preparar o nosso banho. Nós ficávamos sentados no parapeito da varanda, rodeando o poço, e cantando cantigas de roda, enquanto ela enrolava a corda que puxava o balde com à àgua, cujo som choroso, quase um lamento, engrossava o nosso coro, provocado pelo contínuo movimento da manivela.

O quarto de banhos era escuro, àquela hora da noite, fracamente iluminado, e tudo o que queríamos, depois da longa viagem e do farto café, era uma cama bem quentinha. Mas minha mãe jamais nos deixaria ir deitar, sem que tomássemos banho. Para falta de higiene, não havia argumentos para ela. Então, o jeito era ter juizo e obedecer-lhe, senão, ainda iríamos dormir com a "bunda quente", como ela dizia. Eu e minha avó, ajudávamos minha mãe a banhar as meninas, enquanto o bebê dormia no quarto ao lado.  A água quentinha era relaxante e nós acabávamos dormindo, dentro da tina, e sonhando com todas as brincadeiras e estripulias que iríamos fazer no sitio, no dia seguinte. Aquele era um raríssimo momento de felicidade, nas nossas vidas, e merecíamos curtí-lo, gota-a-gota.

domingo, 7 de setembro de 2008

Capítulo 6 - Férias com gosto de frango com farofa

Todos os anos, eu, minha mãe, e minhas irmãs pequenas, viajávamos para o sítio de meus avós em Assis. Eu ficava contando no calendário, os meses que se passavam. E, quando chegava o mês de julho, eu começava a contar as semanas, os dias, as horas e até os minutos. Irritava minha mãe, de tanto perguntar-lhe quanto tempo faltava, ainda, para arrumarmos malas. Então, num belo dia, a viagem era marcada. Na véspera, havia uma série de preparativos. E matar um frango, para assá-lo com farofa -- que seria o nosso almoço no percurso de trem, de cinco horas, entre uma cidade e outra -- era uma das tarefas. Ela destroncava-lhe o pescoço, depois metia-o num balde de água fervendo, para amolecer-lhe as penas, e, após alguns minutos, jogava a pobre ave, ainda se debatendo, nas nossas mãos para que nós o depenássemos, literalmente.

Ah, e não podíamos desperdiçar as penas, porquê, depois de secas, elas iriam servir de enchimento para novos travesseiros. Era uma verdadeira festa, ver o frango se estrebuchando, sobre o girau de secar roupas, onde nos acocorávamos, em torno, nos divertindo muito e brigando entre si, para ver quem é que conseguia arrancar mais penas do pobre franguito. Ou podia ser uma galinha velha, também. Uma vez depenado, não tinha mais sexo. Cá entre nós, eu era a única que não me divertia muito, não, com essa cena. Achava minha mãe muito fria, quando ela puxava o pescoço da ave, para matá-la, e, não contente, ainda dava-lhe o mergulho na àgua quente, como golpe de misericórdia. Eu achava minha mãe muito cruel, ao passo que eu, quando crescesse, jamais teria coragem de matar um frango. Aliás, nem um passarinho. Com a cabeça baixa, sentada em volta do girau, eu ajudava a depenar a ave, tentando esconder as as lágrimas.

Outra preocupação de minha mãe, era com nossas roupas. Ela arrumava uma mala bem grande, com roupas suficientes para que pudéssemos passar um mês de férias. Não tínhamos tantas vestimentas assim, mas como iríamos nos sujar muito, brincando no terreiro de café e subindo nos pés de jabuticabas, levávamos uns trapos velhos, muitos até remendados, mas, rasgados, nunca. A mãe fazia questão de que tudo estivesse muito bem lavado e passado. Então, ficava dias, cuidando de todos os detalhes: cerzia as meias, cortava as pernas das calças curtas, tranformando-as em shorts e bermudas, pregava zíperes, enfim, arrumava um verdadeiro enxoval para que aproveitássemos bem a viagem.

No dia do embarque, acordávamos cedinho, tomávamos café, e meu pai ia deixar-nos na estação de trem. Não me lembro dele ter ido com a gente, nenhuma vez. Ele comprava os tickets de cada um, entregava-os em nossas mãozinhas, e ficava ali, de pé, entre um cigarro e outro, aguardando a partida. Nós entrávamos no trem, sempre ajudados pelo cobrador, porquê era muita criança e mala juntas, e ficávamos acenando para ele, até que sua imagem desaparecesse de nossas retinas. Frequentemente, era eu quem me sentava à janelinha. Como eu era maior que minhas irmãs, eu impunha a minha vontade, e pronto. Às vezes, brigávamos, mas eu sempre saía ganhando, claro. Eu não abriria mão, por nada, de ficar sentadinha naquele lugar, observando a paisagem que corria para trás, enquanto o trem avançava nos trilhos.

Hoje, que conheço cenários deslumbrantes desse Brasilzão de meu deus, e até de  algumas terras estrangeiras, sei que aquela paisagem era muito simplória e repetitiva. Não havia cachoeiras, nem montanhas, nem praias, na região do Oeste Paulista. Apenas fazendas enormes de café. Mas como eram lindos os cafezais da minha infância. Os cafeeiros pareciam bahianas de escolas de samba, com aquelas saias rodadas, imensas, bordadas com cerejas, a fruta do café. Dependendo da época do ano, elas podiam ser verdes, vermelhas, ou ainda, diminutas flores, brancas ou meio rosadinhas. De vez em quando, essa paisagem se alternava com alguns riachos e bois pastando. Eu, então, tentava contá-los, imediatamente, mas nunca conseguia passar dos dez ou quinze, porquê o cenário já era outro, trazendo de volta os cafezais.

Era difícil eu me cansar do posto privilegiado da janelinha, mas às vezes, era obrigada a mudar de lugar com uma das minhas irmãs, que minha mãe, provavelmente, apartava de alguma briga entre elas, com um safanão ou puxão de orelhas. "Marisa, saia daí, agora, e dê o lugar para a Rosangela ou para a Roseli", dizia ela, muito brava, os lábios apertados, e um olhar duro e frio, que me fazia tremer na espinha. Pronto. Bastava encará-la e eu obedecia-lhe na hora, trocando de lugar com alguma daquelas pestinhas. A Marcia não entrava ainda na disputa, porquê era o último bebê, e ainda gozava do conforto do colo de minha mãe.

Mas o melhor momento da viagem, era por volta das 11 horas, quando um homem de uniforme branco e quepe aparecia no corredor do trem, oferecendo guaranás e sanduíches de mortadela. Quero dizer, vendendo, né? Por isso mesmo, havia toda a preparação do frango assado, recheado com farofa de milho e ovo cozido, na véspera, que seria o nosso lanche dentro do trem. Muito provavelmente, nosso frango assado, que minha mãe destrinchava no colo, dando um pedaço para cada uma, era muito mais saboroso e nutritivo que o tal sanduíche de mortadela vendido no trem, mas, em situação semelhante, tente convencer uma criança. Seria o mesmo que tentar fazê-la trocar o sanduiche do Mac Donald´s por um prato de macarrão ou de salada. Quando muito, ganhávamos uma garrafinha de guaraná, para ser dividida em duas. Entre mais brigas e confusão, com cochas e asas voando pelas cabeças dos outros passageiros, acabávamos, mesmo, tendo que comer o nosso delicioso e tenro franguinho.

Finalmente, o trem chegava à estação de Marília, onde teríamos que descer, e então tomar um ônibus, e fazer um percurso de mais umas duas horas, até chegar em Assis. Era um sufoco. Minha mãe, com o bebê no colo, não conseguia segurar nas nossas mãos, então, ela ficava irritada o tempo todo, e me chamando a atenção, para cuidar das minhas irmãs. Insistia que devíamos ficar de mãos dadas, para não nos perdermos, umas das outras. E ainda tinha sempre as malas e alguns sacos de roupa ou sapatos, para ajudarmos a carregá-los. O tempo entre descer do trem, sair de uma estação e ir até a outra, era muito curto, e tínhamos que fazer tudo isso, muito depressa, para não perdermos o ônibus.

Essa segunda parte da viagem, não sei porquê, era menos emocionante. Minha memória apagou qualquer detalhe. Creio que a ansiedade por chegar ao sítio dos meus avôs, no bairro do Matão, em Assis, era muito grande, e não conseguíamos pensar em outra coisa. Mal podíamos esperar para avistar a carrocinha do meu avô, o velho e bonachão Antonio Romagnoli parada na rodoviária, com ele sentado no estribo, fazendo o seu cigarrinho de palha, com a carinha mais sossegada deste mundo. A chegada era uma festa. Uma pena que não existiam as câmeras digitais de hoje, pois nunca tiramos uma única foto daquela carroça apinhada de crianças lourinhas, com bochechas muito rosadas e sorridentes, por, enfim,  chegarem à terra onde passávamos o mês mais feliz de nossas vidas.