No dia seguinte, acordávamos com o canto dos galos, estridente, ainda de madrugada. Ainda ficávamos na cama, por mais algum tempo, mas a casa começava, aos poucos, se encher de barulhos, com meus avós saindo para o curral, para tirar leite das vacas. Eram sons de baldes e bacias, usados pra lavar os úberes das vacas, e aparar o leite, que descia grosso e quente, de suas tetas macias. Não demorava muito e minha mãe também se levantava prá preparar o café. E ficávamos esperando ouvir o chiar da lenha seca, prá saber se o fogão já havia sido aceso, ou ainda não. Os minutos corriam lentos, com nossas barriguinhas já roncando de fome, outra vez, enquanto minha mãe punha água prá ferver, lavava o coador de pano e media o pó. Tres colheradas, bem cheias, era sua receita de um café forte e encorpado, sedoso, que tomávamos com o leite quentinho, já fervido.
Outras vezes, não tínhamos paciência de esperar esse ritual, pulávamos da cama assim que abríamos os olhos, e já saíamos atrás dos meus avós, direto para o curral, onde tomávamos o leite ainda cru e quente, recém-tirado. Era uma farra. Cada uma de nós iamos com uma canequinha velha de esmalte descascado, e a púnhamos embaixo das tetas da vaca, atrapalhando meu avô, que tentava empurrar nossas mãos, prá não deixar o leite escorrer fora do balde. Após alguns segundos de tentativas frustradas, ele também resolvia entrar na brincadeira, e deixava-nos encher nossas canecas com aquele leite gordo e amarelado.
Claro que a diversão só durava enquanto minha avó não aparecesse, com outro balde vazio. Durava o tempo entre ela levar um balde cheio para a cozinha e voltar com o outro. Carrancuda, ela já chegava brigando com meu avô, chamando-o de velho "nhoco" -- tonto, em italiano --, e nos expulsando dali, que não era lugar para crianças arteiras. Então, iámos para a cozinha, onde minha mãe já terminara de passar o café, e sentávamos num grande banco, em volta de uma mesa de madeira sem toalha, muito branca, de tão escovada com cinzas do fogão de lenha, e começávamos a disputar os pedaços de pão feito em casa, com manteiga ou de polenta com ovo. Sempre queríamos o pedaço umas das outras, derrubávamos o café com leite, na mesa, alguém sempre apanhava e outra saía chorando, de barriga vazia.
Prá nossa sorte, que não tínhamos muita roupa, julho era um mês de inverno, mas não fazia muito frio. Mesmo assim, nós saíamos lá fora e procurávamos lugares onde o sol batia mais forte, em volta da casa. Nos sentávamos na calçada em volta do casarão, ou nos terreiros de café, com nossos gorrinhos coloridos nas cabeças -- ganhados da nossa belíssima prima Célia -- e ficávamos ali, tomando aquele solzinho quente e carinhoso, que deixava nossas bochechas vermelhinhas. Essas manhãs passavam lerdas, com suas longas pernas de pau, equilibrando-se, vagarosamente, entre os ponteiros do relógio que não queria adiantar-se nenhum segundo, prá não impedir a sensação de aconchego no coração daquelas crianças, que durante as suas vidas, aconteceriam pouquíssimas vezes.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
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