terça-feira, 21 de junho de 2016
Cap. 9 -Saco vazio não pára em pé
Enquanto começávamos a brincar em volta do terreiro de café, da casa grande já podia se ouvir o chiado das panelas de ferro, cozinhando o almoço do meu avô e tios, que estavam, àquela hora, trabalhando nas roças. Eles se alternavam, de acordo com a época do ano, entre os cuidados com o cafezal e o plantio de arroz e milho, além do pasto que servia de comida para as vaquinhas de leite. O cheiro que exalava das panelas e chegava até os nossos narizes era bom demais e a gente logo começava a brincar de advinhar o que era: frango refogado, feijão, quiabo, e a brincadeira acabava virando motivo para eu inventar que era a professora e que as minhas irmãs eram minhas alunas, fazendo-as sentarem-se embaixo de um janelão, perto de um frondoso pé de jasmim, onde passávamos algumas horas brincando de escolinha.
Mesmo de férias, eu não conseguia ficar longe de um giz ou de um caderno ou lápis. A vedete era uma lousa antiga, que minha mãe tinha usado em seu tempo escolar, numa época em que não havia cadernos e as crianças iam à escola carregando aquele pedaço de pedra, quadrado e polido. Uma espécie de tataravó do Ipad. Fico pensando como elas conseguiam estudar em casa, já que usavam sempre o mesmo espaço, pequeno, que, evidentemente, precisava ser apagado a cada nova lição. Enfim, essa era uma pergunta que latejava na minha cabeça, mas que nunca cheguei a formulá-la a ninguém. O tempo presente era mais intenso e cobrava agilidade da mini-profa.
Minhas irmãs eram inteligentes e aprendiam muito rápido. E eu, por outro lado, também não tinha paciência ou não sabia que eram menores que eu e que eu tinha que pegar mais leve com elas. Não. Eu já começava as aulas partindo das palavras que davam nome aos bois, ou melhor, ao que iríamos comer em seguida: qui-a-bo; po-len-ta; ar-roz; fei-jão; ensinando-as a escrever, ler, dividir em sílabas, criar frases, etc...e tal. Em dado momento, alguém se irritava com outra, puxava-lhe os cabelos, a professorinha perdia o controle, elas jogavam tudo para o alto e saíam correndo, atrás de outra diversão. A escola acabava sendo apenas um pretexto para começarmos o dia, de um jeito mais calmo e necessário para a digestão do suculento café.
Logo ouvíamos os chamados de minha mãe ou de minha avó, para irmos almoçar. Mal tínhamos terminado o café, mas o almoço era servido cedo, porquê os homens da casa iam cedinho para a roça e naquele horário, já estavam com a barriga grudando nas costas, de tanta fome. Quando entrávamos na cozinha, minha avó já vinha ao meu encontro com algumas marmitas embrulhadas num pano de prato, alvíssimo, me pedindo -- bem, ela não pedia nada, ela mandava, mesmo!!! -- para levar a comida dos meus tios e avô, que estavam aguardando-a, famintos, "lá em cima", no cafezal. Destaco a expressão lá em cima, porquê era assim que todos na casa se referiam àquele pedaço de terra que ficava, geograficamente, e, aclive, em relação à topografia onde tinha sido construída a casa.
O caminho da roça era longo, para uma criança de apenas seis anos. Primeiro, havia uma subida pelo pasto, até a porteira, que precisava ser aberta, e em seguida fechada, atravessar a estrada que havia no meio, pular uma cerca de arame farpado, e então, sim, lá vinham os roceiros, descendo por algum dos canteiros que se formavam entre os pés de café. Eles chegavam ávidos pela marmitas, e mal olhavam na minha cara, que, então sim, depois daquela subida toda, já estava sentindo fome também. Minha avó não me deixava comer primeiro, antes de executar aquela tarefa, o que eu achava um absurdo, mas ela alegava que os homens tinham preferência, pois estavam trabalhando e, explicava: "como saco vazio não para em pé, é melhor que comam logo, para não atrasarem o serviço ou fazerem corpo mole", dizia ela, uma imigrante italiana que tinha chegado ao Brasil com apenas seis meses de vida, numa das levas de trabalhadores aliciados na Europa pelo governo brasileiro, logo após a abolição da escravatura no País.
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