Chegar ao sítio dos meus avós, após um dia inteiro de viagem, era cansativo, mas de uma alegria indescritível. Normalmente, vó Ana ficava espiando a carroça de meu avô apontar lá em cima, na porteira e, só então, ela saia à frente da casa, vindo ao nosso encontro. O caminho entre a porteira e a casa, parecia o mais longo de todos, tamanha era a nossa ansiedade. E quando vovô parava o cavalo bem à porta, eu era a primeira a saltar, sem jamais dar ouvidos aos gritos de minha mãe: "cuidado, não vá se machucar". Antes que ela abrisse a boca, eu já estava no chão, de um pulo só. Eu era a primeira a pular no pescoço de minha avó, que nunca correspondia ao abraço excessivo, enchendo-a de beijos. O lenço amarrado à cabeça, acabava escorregando, com os meus arroubos carinhosos, e ela deixava à mostra sua longa cabeleira branca. Ela me ignorava solenemente, e ajudava minha mãe, a descer da carroça, entre incrédula e curiosa para ser apresentada, sem cerimônias, a mais uma neta.
Ou seria neto, dessa vez? "ah, ma cheê, otra menina", logo disparava, com seu sotaque italiano, bem carregado, enquanto tirava o bebê dos braços de minha mãe, ajudando-a, ainda, com malas e sacolas. Tinhamos que dar a volta no terreiro de secar café, e entrar na casa pela porta da cozinha, pois, nunca descobri porquê, a porta da sala ficava sempre fechada. Na verdade, era um cômodo morto, guardando apenas uma escrivaninha antiga do meu tio Gracindo, toda empoeirada. A vida acontecia mesmo, era na cozinha. A nossa espera, havia uma farta mesa preparada com enormes pães caseiros, manteiga cremosa, feita com nata de leite fresco, café, queijo, polenta e ovos fritos.
Como chegávamos mortos de fome -- lembra-se do frango assado???pois é, comíamos apenas ele, durante toda a viagem, portanto, àquela hora do dia, o estômago quase se colava às costas. Eu adorava polenta com ovo frito, desde que a gema ficasse bem molinha. Comia tanto e com tanto gosto, que chegava a lambuzar a cara inteira de amarelo. Depois, ainda colocava polenta em uma caneca e a cobria com leite e café preto, e ficava tomando aquela gororoba, às colheradas. Minhas irmãs faziam mais sujeira com a comida, espalhando-a fora dos pratos e canecas, do que comendo, propriamente. Mas aquele café servido a nossa chegada, que seria repetido durante todos os dias de nossas férias, era único. "Ma che banquete, mama", minha mãe comentava, enquanto se fartava de comer, também.
Logo, estava escuro, e as lamparinas e lampiões eram acesos, pois ainda não existia luz elétrica na zona rural da região da Alta Sorocabana. Claro, uma ou outra propriedade, de gente mais abastada, já contava com esse conforto, mas não era o caso de meus avós. Havia comida farta, isso, sim, mas nenhum outro luxo. Tudo era muito modesto. Nos quartos, somente camas e criados mudos. Não havia cortinas, nem quadros, nem qualquer adorno pelas paredes ou móveis. A casa grande era nova, mas mobiliada apenas com o essencial. Na porta da cozinha, havia uma varanda, com um poço, de onde se tirava a àgua para beber, dar aos animais, molhar o jardim e algumas árvores mais próximas. Com a fraca luz das lamparinas iluminando seu rosto, minha mãe ainda encontrava forças para tirar alguns baldes de àgua, colocar para ferver no fogão à lenha, e preparar o nosso banho. Nós ficávamos sentados no parapeito da varanda, rodeando o poço, e cantando cantigas de roda, enquanto ela enrolava a corda que puxava o balde com à àgua, cujo som choroso, quase um lamento, engrossava o nosso coro, provocado pelo contínuo movimento da manivela.
O quarto de banhos era escuro, àquela hora da noite, fracamente iluminado, e tudo o que queríamos, depois da longa viagem e do farto café, era uma cama bem quentinha. Mas minha mãe jamais nos deixaria ir deitar, sem que tomássemos banho. Para falta de higiene, não havia argumentos para ela. Então, o jeito era ter juizo e obedecer-lhe, senão, ainda iríamos dormir com a "bunda quente", como ela dizia. Eu e minha avó, ajudávamos minha mãe a banhar as meninas, enquanto o bebê dormia no quarto ao lado. A água quentinha era relaxante e nós acabávamos dormindo, dentro da tina, e sonhando com todas as brincadeiras e estripulias que iríamos fazer no sitio, no dia seguinte. Aquele era um raríssimo momento de felicidade, nas nossas vidas, e merecíamos curtí-lo, gota-a-gota.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
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