quinta-feira, 29 de maio de 2008

Capítulo 2 -Saídas noturnas

Havia se passado uns tres meses, desde aquela madrugada rompida com o choro de minha mais nova irmãzinha, Marcia. Mas, como diziam os adultos, uma pulga insistia em me coçar atrás da minha orelha. Porquê será que meu pai não tinha chegado em casa até aquela hora, sabendo que minha mãe estava prestes a dar a luz? Incomodava-me aquela ausência, e desde então, comecei a prestar atenção ao comportamento dele. Quando caía a tarde, ele já ia chegando da lida na fazenda, apeava do cavalo, tirava sua montaria, escovava o bichão, e o levava para comer -- capim ou cana, sempre frescos, que minha mãe já tinha cortado, à tarde -- e, depois, dava um tapa na garupa do animal, fazendo-o galopar rápido e entrar na cocheira.

Então, ele entrava em casa, tirava o chapéu -- quase sempre um bonito panamá preto, quebrado à direita e à esquerda --e pendurava-o na parede do quartinho onde costumava guardar selas, arreios, laços, esporas, e outras traquitanas do gênero. Depois, descalçava as botas, enquanto minha mãe já vinha trazendo o balde de àgua morna, para preparar-lhe o banho, num dos quartos, mais ao fundo da casa. Esse ritual era sagrado. A água tinha sido tirada do poço, fervida no fogão à lenha, e só então era misturada com mais àgua fria, para ficar na temperatura ideal, que não lhe queimasse a pele. Já sem as botas e as meias, meu pai tirava a camisa, e ficava com o dorso nu, com seu peito cabeludo, todo à mostra. Ele não era muito alto, mas tinha os braços fortes, o tronco bem definido, e a barriga "tanquinho", a la abdomens sarados à base de academia. Que no caso dele, eram o cabo da enxada e a doma dos cavalos, mesmo. Aquela máquina de músculos era definida pelo trabalho braçal com os cavalos, puxando plantadeiras, arando e tombando terras, numa rotina exaustiva no campo, que começava com o canto dos galos e bem antes antes do sol nascer, todos os dias, meses e anos a fio, com um único descanso semanal, aos domingos. Eu me esgueirava atrás das portas, e ficava admirando a beleza máscula do meu pai: o seu rosto com traços fortes de ascendência espanhola. Os olhos eram grandes com as pupilas verdes e brilhantes como azeitonas, protegidos por uma espessa camada de cílios, bem longos. As sobrancelhas também eram grossas e quase se tocavam, uma na outra. O nariz não era bonito, mas se harmonizava com o conjunto do rosto, que se completava com a boca de lábios finos, sempre cobertos por um bigode preto e muito bem aparado. Usava longas costeletas até o pé da orelha, e durante o banho, ficava horas à fio, com um espelho na mão, fazendo a barba, rigorosamente aparada, todos os dias. O cabelo era castanho bem escuro, com fios encorpados e ondulados, que ele mantinha arrumado, a base de gel.

Era vaidoso o meu pai, muito vaidoso, alias, ao contrário de minha mãe, que vivia com uns vestidões compridos e um lenço amarrado na cabeça, sem usar nenhuma maquiage ou acessório, que lhe destacasse a beleza agressiva, originária de italianos da antiga Toscânia. Durante o banho, era comum ver minha mãe abaixada, lavando-lhe os pés, que ele deixava para fora, com as pernas penduradas à beira da tina. Ou então, ela esfregava-lhe as costas, com aquelas imensas buxas naturais, que ela mesma plantava e colhia, por cima da cerca da casa. Quando ele terminava o banho, ela entregava-lhe a toalha, que já estava à mão, dobradinha, limpa e bem passada, em cima de uma cadeira. Ele se levantava da tina, e enrolava a toalha na cintura. Eles não se preocupavam em fechar a porta do quarto de banhos, então, ela ficava sempre entreaberta, e muitas vezes, eu chegava a ver o corpo do meu pai, totalmente nu. Via-lhe o sexo, mas não sabia o que era. Só achava esquisito ele ter aquelas bolotas penduradas entre as pernas, em vez de ter uma xoxota branquinha e sem pelos, como a minha. Achava aquilo esquisito, feio, e não sabia porquê era diferente das mulheres. Eu ficava intrigada, mas tinha medo e vergonha de perguntar para minha mãe.

Então, comecei a observar que, quase todas as noites, após o banho demorado, o meu pai se vestia novamente, sempre escolhendo as melhores camisas, de mangas longas, que ele usava com os punhos dobrados, enfiadas por dentro da calça. Essa, por sua vez, era sempre de um tecido fino, tergal ou linho, que minha mãe já tinha deixado passadas à tarde, com seu indefectível ferro de brasas. E o traje se completava com meias e sapatos de couro pretos, sempre muito bem engraxados. Pela minha mâe, claro.

Todo emplumado, ele passava uma àgua de cheiro atrás das orelhas, pegava o chapéu, e saía, outra vez,  sem nos dizer nem boa noite. Dizia apenas que não demoraria, que estava indo ver algum negócio, sem maiores explicações, que minha mãe também não lhe perguntava. Lembro-me que nunca jantava conosco. Almoçar, também não, já que passava o dia inteiro na roça. E então, eu, minhas irmãs pequenas e minha mãe, começávamos o nosso banho. Minha mãe renovava a àgua da tina  e nos deixava lá, mergulhadas, todas juntas, por um bom tempo. Era uma maneira de nos manter entretidas, enquanto ela se desvencilhava das últimas tarefas do dia.

E nós três -- eu, a Rosangela e a Roseli, ficávamos lá, lavando-nos umas as outras, fazendo bolhas de sabão e, às vezes, brigando também, pela sua posse -- um pedaço de pedra mal-cheirosa, que era feito da barrigada dos porcos que meu pai matava, uma vez por mês. Enquanto brincávamos na tina do banho, minha mãe preparava uma sopa e o mingau do bebê. Ao terminar, preparava os nossos pratos, para a sopa ir esfriando, e nos chamava para jantar. Eu ajudava as minhas irmãs a terminarem o banho, enxugava-as e vestia-lhes com os nossos pijamas de bolinhas vermelhas ou azuis, e corríamos, famintas, para a mesa.

Jantávamos em silêncio, à luz de lamparina à querosene, que iluminava mal o ambiente, projetando nossas sombras nas paredes, como se fossemos personagens de um filme mudo. Sentada ao pé do fogão, minha mãe comia com o prato na mão, ou então, ficava com o bebê no colo, dando-lhe de mamar no peito. Seu semblante era sempre cansado e triste. Ela quase nunca sorria ou brincava com a gente. Vez ou outra, eu percebia que uma lágrima quieta, escorria-lhe pela face, mas ela engolia o choro com a sopa, e não reclamava de nada.

Terminado o jantar, nós íamos direto para a cama. Não havia tevê, computador, nem livros de historinhas, para ninguém se entreter. Nossa casa era muito simples, quase não tínhamos móveis, apenas as coisas e objetos essenciais: camas e guarda-roupas nos quartos, um jogo de sofá na sala, mesa e cadeiras na cozinha. Nenhum objeto de decoração, sobre os móveis ou nas paredes. Nada, nem uma fotografia branco e preto, ou um porta-retrato de alguém querido. Por isso, o jeito era ir dormir, pois não havia, mesmo, o que fazer. Às vezes, eu ainda brincava um pouco com minhas duas irmazinhas pequenas, fazendo-as se cansarem com guerras de travesseiros. Ou então, tinha que ficar balançando o berço, para fazer o bebê dormir, porquê minha mãe ainda continuava um bom tempo na cozinha. Ela ainda lavava toda a louça, e só depois ia tomar o seu banho. Eu não sei se ela trocava a àgua da tina mais uma vez. Sei que ela sempre despejava-a  no quarto do banho e o lavava, todas as noites, aproveitando aquela àgua com sabão para deixar tudo muito limpo. Só então ela ia para o quarto, para se deitar, mas, se o bebê ainda estivesse acordado, ela o embalava no colo, dando-lhe os peitos para mamar, mais uma vez.

Eu não sabia quantos anos minha mãe tinha naquela época, mas, comparando-a com meu pai, eu a achava muito velha. Mas não saberia explicar porquê. Então eu ia para o meu quarto, e também dormia, não antes de rezar três ave-marias e um pai-nosso, orações que eu aprendera desde bebezinho,  com a minha mãe. E, nessas orações, eu me lembro que sempre pedia para o Menino Jesus trazer o meu pai logo, de volta para casa. E demorava para dormir, ansiando por sua chegada.

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