quinta-feira, 5 de junho de 2008

Capítulo 3 - O diabo veste terno branco

Um dia meu pai chegou mais cedo, em casa. Minha mãe e sua comadre Augusta, madrinha da Marcia, estavam lá embaixo do girau, onde ficavam a táboa e a tina de lavar roupa. Elas conversavam, em voz baixa, e não dava para entender o que diziam. Eu brincava ali por perto, mas ficava sempre de ouvido esticado, tentando entender o que as duas diziam. Minha mãe viu meu pai chegar, mas continuou fazendo o seu trabalho. Então, ele apeou do cavalo baio, tirou-lhe a sela, mas não o levou para a cocheira, como de costume. Desceu até o girau e já veio perguntando em voz alta, se ela tinha passado seu terno branco, que ele iria a uma festa, à noite, e queria usá-lo.
Ela respondeu-lhe que não, pois não tinha tido tempo de passá-lo. E mal completou a frase, já escorregava para o chão, com o tremendo tapa no rosto que ele lhe desferira. Minha tia -- era assim que chamávamos todos os compadres e comadres de meus pais, de tios e tias -- assustada, entrou na frente dele, para proteger minha mãe, e o próximo tabefe acabou-lhe acertando, também. Enquanto isso, minha mãe se levantara e subiu correndo, para tentar se proteger dentro de casa. Mas ele a alcançou pelo braço, e começou a estapeá-la, covardemente.
E tia Augusta, uma mulher franzina, mas valente, não se conformou em ver aquela cena absurda, correu, e entrou no meio da briga, tentando fazer meu pai parar de surrar minha mãe. Mas ele parecia tomado pelo demônio. E continuava a desferir socos e pontapés, que eram distribuídos entre as duas. E, claro, a cena e os gritos das duas mulheres chamaram a atenção de meu tio Luizinho, marido da tia Augusta, que ouviu o berreiro de sua casa, e também correu até os tres, que a essa altura, já rolavam, embolados no chão. Meu tio chegou correndo, gritando "pára, tião, pára, tião", ao mesmo tempo em que tentava segurar o meu pai. Mas nada nem ninguém parecia poder conter a ira daquele homem, tomado por uma fúria assassina. E, em segundos, era meu tio que se enfiava no meio, rolando com os três, no chão.
Eu não me lembro se minhas duas irmãs pequenas assistiram aquela briga, que foi uma das cenas mais triste e dramática da minha infância. Acho que minha mãe ainda estava de dieta e amamentando o bebê. Tomara que elas não tenham assistido, pois jamais me esqueci daquela cena grotesca, onde quatro pessoas brigavam, emboladas no chão, como se fossem cães.Na verdade, duas delas tentavam segurar meu pai, e impedir que ele machucasse ainda mais a minha mãe. Mas aquela confusão de braços e pernas se misturando no chão, além dos gritos, xingos e grunhidos, era cruel demais para ser presenciada por uma criança de apenas seis anos. Eu me lembro que apenas assisti à briga, zonza, sem nenhuma reação. E até hoje, quando conto ou escrevo essa história, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Mais de quarenta anos se passaram, desde então, e eu ainda choro, com muita pena daquela menina . Ninguém se importava com ela. Só eu me importo, agora.

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