Exatos doze meses após fugir de casa com Sebastião, Antonietta mais uma vez estava subindo na carroça, só que desta vez, com um filho de três meses no colo. Como sempre fazia, Sebastião subia primeiro, e depois estendia-lhe as mãos para ajudá-la a alcançar o estribo onde pudesse apoiar os pés e alçar o próprio corpo para o alto, onde ele a amparava. Só que dessa vez ela não podia dar-lhe as duas mãos, pois uma estava agarrada ao filho, grudado contra o seu peito. Sem perceber que o cavalo estava meio inquieto e tentando tirar o tapa-olhos da cara, Tião ajudou a mulher a subir e sentar-se ao seu lado, e, sem esperá-la acomodar-se direito, deu voz de comando ao animal, para que começasse a puxá-los. O que eles jamais poderiam ter previsto naquele dia, é que seriam apanhados pela primeira tragédia de suas vidas em comum: tinham vindo à cidade, depois de um mês inteiro de trabalho duro na fazenda, onde Tião empregara-se como administrador, em Palmital, cidade há uns 50 kms de Assis, para onde tinham fugido naquela tarde tresloucada. Mensalmente, faziam este percurso de ida e vinda da roça, para comprar mantimentos, sabão e produtos para a lavoura, como inseticidas, arame farpado para cercas, e coisas do gênero.
Antonietta passara por isso durante os nove meses em que estivera grávida de Getúlio, a cada mês subindo na carroça com mais dificuldade, devido ao peso de sua barriga que já se assemelhava a uma enorme lua cheia, mas sem nunca deixar de acompanhar o marido nessa tarefa, e ele, sem nunca ter coragem de deixá-la sozinha em casa, ainda mais, naquele estado. Mas há dias em que o demônio resolve sair de sua toca diabolesca onde passa a maior parte do tempo deprimido e imaginando as maiores atrocidades para a vida dos homens, sem contudo ter coragem de implementá-las, um pouco por ser preguiçoso e outro tanto, porquê no fundo, no fundo, nunca se esquece que sua identidade primeva é Lúcifer, um anjo do Senhor, e por se orgulhar disso, comete apenas 99% por cento do que sua deturpada imaginação consegue elaborar. Infelizmente, esse foi um desses dias em que o diabo acordou com o capeta no couro, e pulou da cama soprando suas maldades pelas chaminés do inferno sobre o mundo, com muita disposição.
Antonietta mal se acomodara sobre o acento, quando sentiu que seu vestido tinha vindo parar-lhe sobre a cabeça, cobrindo-lhe o rosto, ao mesmo tempo em que sentira que o corpinho frágil de seu filho era arrancado de seus braços pelos dedos longos de um furacao, enquanto a carroça virava sobre ela mesma, em diversas cambalhotas, ao mesmo tempo em era arrastada pelo cavalo. Quando o pesadelo, que durou apenas alguns segundos, finalmente acabou, ela enxergou a touquinha azul de seu filho Getúlio - Getulhinho, como ela o chamaria para o resto da vida-- pendurada numa orelha do animal. Que, aliás, não era um cavalo, a égua Cereja, nome que recebera por ser muito tranquila e dócil. As compras do mês estavam todas espalhadas em volta deles, mas ela não conseguia entender o que tinha acontecido com seu bebê, do qual não escutara nem o choro, quando ele desaparecera de seus braços, no momento em que Cereja, provavelmente picada por alguma abelha, arrancou o tapa, e saiu destrambelhada estrada afora, sem esperar o comando de Sebastião, que já havia destravado a carroça. Sem freios, ficou à mercê dos galopes e boleios da égua que lutava, desesperada, para arrancar o tapa, onde a abelha ainda estaria alojada. Quando Antonietta finalmente se deu conta do que acontecera, ficou em estado de choque: ela mesma encontrara seu bebê -- Getulinho tinha apenas quatro meses, quando o acidente aconteceu -- quase enterrado dentro do saco de açúcar, que, com a queda, fora rasgado, deixando um caminho branco como neve atrás de si, embora não tenha servido para amortecer a queda do menino, que batera com a cabeça na madeira da carroça, tendo morte instantânea.
Ainda sem nem conseguir chorar ou mesmo acreditar no que seus olhos viam, já amparada por Sebastião, que quebrara umas três costelas, -- mas até aquele momento, ainda nem sabia -- disso, ambos se ajoelharam ao lado do filho morto, cujos olhos muito verdes permaneciam abertos, como se quisesse olhar uma última vez para o rosto de sua querida mãe. Aquela mãe que o carregara com tanto cuidado e carinho em seu útero, que o amamentara durante seus primeiros meses de vida, somente com seu próprio leite, mas que não tivera forças suficientes para segurá-lo em seus braços, ao primeiro empinar da carroça. Antonietta pegou o filho morto nos braços, apertou-o muito contra o peito, e só então desatou num choro convulsivo, bradando contra Deus e o Diabo por aquela tragédia que tirara a vida de seu primeiro filhinho, de seu primogênito, de seu anjinho que ainda não sido nem batizado. Ela e Tião ficaram ali ajoelhados no chão, abraçados ao filho, incrédulos, em estado de choque, e seus soluços podiam ser ouvidos de muito longe. Aos poucos, ninguém saberia dizer quanto tempo depois, o choro de ambos foi se tornando mais calmo, e Antonietta começou a cantar uma música de ninar, bem baixinho, como se pensasse que o filho apenas adormecera. Avisados por vizinhos e transeuntes, que tinham assistido toda a cena de horror, policiais e bombeiros começaram a chegar para tentar socorrê-los -- o que não seria possível, pois o estrago maior já havia sido feito -- a criança estava morta, irremediavelmente, morta -- além de desvencilhar a égua Cereja, caída e enrolada no próprio arreio, remover a carroça do meio da rua, e o pouco que sobrara das compras espalhadas ao redor.
Como Antonietta não soltasse o filho dos braços, de modo algum, fora recolhida à ambulância com ele no colo mesmo, e levada, junto com Sebastião, para o Pronto Socorro de Palmital. Ali, só depois de receber uma generosa dose de calmante, que a fêz apagar, puderam retirar-lhe a criança do colo e levá-la ao consultório médico, apenas para receber o atestado de óbito e, em seguida, ser encaminhada para o necrotério onde seria preparada para o funeral. Ao atenderem Sebastião, os médicos verificaram que ele havia quebrado três costelas, o que até hoje, com todo o avanço medicinal, não se pode engessar. Embora ele gemesse de dor, convenceram-no de que teria que ficar entre 30 e 40 dias sem fazer nenhum esforço físico -- trabalhar na lavoura de café, na fazenda, seria impossível -- tomando analgésicos e antibióticos, até que os ossos cicatrizassem, sozinhos. Por fora, Antonietta estava intacta. Apenas com o vestido muito sujo de terra, mas sem nenhuma escoriação ou fratura. A não ser a fratura eterna que levaria no seu coração, em formato de cruz,
pois, para o resto de sua vida, não se cansaria de repetir essa estória para os próximos filhos que viriam, com toda a riqueza de detalhes e a mesma emoção daquele dia tão trágico.
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