Antonietta passara o dia cabisbaixa, arrumara uma desculpa qualquer para não ir com os pais à colheita do milho, e ficara em casa, se preparando para a maior aventura de sua vida: fugir com Sebastião, uma vez que Antonio, seu pai, pela milionésima vez, rejeitara-lhe o pedido de sua mão em namoro, os dois conversaram e decidiram que o melhor era fugirem juntos, afinal ela já tinha 29 anos, todas suas amigas já estavam casadas, algumas já eram mães, e ela ficaria para titia, como era comum denominarem as moças que não se casavam, à época. Além de preconceituoso, era uma espécie de bullying que faziam com as pobres solteironas. Antonino e Anna Demarchi estranharam o comportamento da filha, que conheciam muito bem, e era incapaz de se furtar a um dia de trabalho. Aliás, era sempre a primeira a acordar, preparar o café e o almoço que levariam para comer na roça, mais tarde, embrulhar-se toda com calças e camisas dos irmãos, para não deixar sua pele muito branca queimar-se ao sol, e, quando ambos levantavam, ela já estava com tudo pronto para sairem juntos para a colheita da vez, fosse milho, café, ou arroz uma das três culturas que eles revezavam no pequeno sitio da Àgua do Matão. Por isso mesmo, não quiseram insistir com ela, para ir com eles. Não se sentiram no direito de cobrar um dia de trabalho, justamente da filha que era a mais assídua no cabo da enxada. Preferiram acreditar que ela estivesse mesmo indisposta, talvez "naqueles dias" com cólicas e dores de cabeça, e partiram sem ela. Mal sabiam eles que esta seria a última vez que veriam a filha que tanto amavam, ainda solteira e companheira de labuta.
Antonietta escolhera para a ocasião, um lindo vestido de tricoline, com estampas miúdas de borboletas e flores, decote arredondado, uma fileira de botões encapados do mesmo tecido, mangas três quartos, finalizadas com nervuras nos punhos, e a saia de quatro marchas, duas à frente e duas atrás, dando-lhe um caimento perfeito ao corpo magérrimo, que era invejado por todas as moças, não só do bairro rural onde morava, mas de muitas outras "águas", que vinham de longe para encomendar-lhe costuras no seu ateliê. Sim, além de trabalhar na roça, a jovem fizera um curso de corte e costura na cidade e nos finais de semana, dedicava-se a atender suas clientes, com hora marcada. Nervosa e insegura com sua decisão, ela passara o dia inteiro sentada à porta da casa, como se estivesse despedindo do seu jardim de rosas, olhando infinitamente para cada uma delas, sem se dar conta do tempo, tentando acalmar seu coração, que estava aos pulos. Não sentira fome nem sede. Simplesmente não saíra do lugar, de onde, vez ou outra levantava os olhos em direção à porteira, na esperança de ver Sebastião chegando com a carroça, conforme haviam combinado, pois iriam precisar dela para levar o seu baú de enxoval: um malão de madeira super-pesado que continha inúmeros jogos de toalhas de banho, de lençóis de cama , toalhas de mesa com seus respectivos guardanapos, toalhas de bandeja, centros de mesa, sem contar com toda sua roupa, que não era pouca, pois, para cada sábado de baile ela se dava um vestido novo. Mal sabia ela o destino que cada peça daquelas acabaria tendo, nas mãos do futuro marido que, embora ela ainda não soubesse, não tinha um tostão furado no bolso. A carroça, a parelha de burros e o baú de enxoval seria o patrimônio com que ambos começariam a vida, mas isso vai ficar para outro capítulo dessa estória, porquê, nesse momento, Antonietta, já cansada de esperar e quase desistindo da loucura que iria fazer, levanta a cabeça mais uma vez, e eis que o cabra macho estava abrindo a porteira, para dar passagem aos animais. "Bom, pelo menos ele tem palavra", pensou a pragmática Antonietta.
Foi o tempo de respirar fundo, um pouco mais calma, e a carroça já parava em frente ao jardim. Nesse momento ela se permitiu um pouco de romantismo e se sentiu uma princesa sendo raptada por seu príncipe, em uma bela carruagem. Ele puxou o breque para frear os animais, e quando sentiu a terra firme sob os pés, saltou para o chão de um pulo só, indo correndo abraçar sua amada. Mas logo percebeu que ela não parecia feliz e não quis perguntar-lhe nada, para evitar qualquer conversa que a fizesse mudar de idéia. Deu-lhe um longo beijo, daqueles de fazerem as pernas de qualquer mulher ficarem bambas, e já foi perguntando onde é que estava o malão, pois não tinham muito tempo, ao que ela aquiesceu com a cabeça. "Esperava que viesse mais cedo", disse a jovem, lembrando-lhe que o combinado fora dele chegar ao meio dia. "Eu me enrolei todo na fazenda para conseguir sair com os animais e o carro, escondido dos meus pais", disse-lhe ele, que vão querer me matar quando souberem que roubei-lhes os burros. Antonietta ficou pálida e quase desmaiou. Então, além do desgosto que ambos estavam dando as suas famílias, fugindo de casa, ainda iriam começar a vida com coisas roubadas? Como se estivesse lendo o seu pensamento, ele respondeu:" claro que pretendo devolver-lhes, mas se eu fosse pedir-lhes emprestados para o meu pai, teria que dizer para quê, e ele jamais consentiria. Achei melhor não contar-lhe nada, e só quando estivermos instalados em nossa casinha em Palmital, mandaremos notícias para os meus pais e os seus", dando o assunto por encerrado.
Virou-lhe as costas e já foi entrando para dentro da casa em busca do baú do enxoval, no quarto da jovem. Ela foi atrás dele, e ambos o pegaram pelas argolas, cada uma de um lado, trazendo-o para fora. O móvel era muito pesado, mas Sebastião e Antonietta estavam acostumados com a força bruta da vida no campo, por isso, respiraram fundo e em cinco passos, já estavam com o baú em cima da carroça. Os burros sentiram-na pesar-lhes sobre os lombos e empinar para trás, mas Tião era jeitoso com animais e, ao menor sinal de desconforto da parelha, puxou o baú mais para o meio do veículo, distribuindo o seu peso entre as quatro rodas. Em seguida, deu a mão para sua noiva e ajudou-a a subir e instalar-se no banco, sentada ao seu lado. Nesse momento, ela colocou sobre a cabeça um lindo chapéu florido, combinando com o vestido, a única peça que fizera para a ocasião, amarrou-o no pescoço para que não lhe voasse da cabeça, quando os burros começassem a trotar na estrada, e acenou um breve adeus para sua casa, mesmo que ninguém estivesse à porta para desejar-lhes felicidades ou abençoá-los. Por um instante ela pareceu ter visto sua mãe abraçada com seu pai, chorando muito, sem acreditar no que ela estava fazendo, abandonando-os. E pediu perdão a Deus, mais uma vez, por estar dando esse terrível desgosto aos seus pais, e ainda agradeceu-lhes por eles não testemunharem a cena de sua fuga com aquele jovem rapaz, de apenas 21 anos, ou seja, 8 anos mais novo do que ela, a quem ela mal conhecia.
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