segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cap. 15 - Noivo frito com torresmo

 Houve um certo suspense no ar, quando anunciei, num gesto impensado e dramático, que eu e Tião tínhamos acabado de ficar noivos, o que, na verdade, não tinha acontecido, pois ele sequer conseguira pronunciar uma só palavra, ainda, depois de me estender o colar, e de me ajudar a fechá-lo em meu pescoço. Eu o arrastara pelo sequeiro adentro, para apresentá-lo aos meus pais, que ainda estavam emudecidos com a estória toda. Só nesse instante -- da apresentação do moço em questão,  foi que percebi que eu não sabia lhufas sobre ele, além do seu nome -- Sebastião -- e do apelido óbvio -- Tião. De resto, não tinha a menor idéia de seu sobrenome,  o que era a primeira coisa que meus pais sempre perguntavam, todas as vezes em que tentei falar-lhes sobre um novo pretendente a minha mão. E de onde ele teria vindo? Onde morava? Quem eram os seus pais? O que eles faziam para ganhar a vida? Eram sitiantes, como nós? Eram meeiros? Empregados? 

Enfim, como eu não tinha nenhuma resposta para cada uma dessas perguntas, achei melhor deixar o próprio Tião contar aos meus pais, a seu respeito. Porém, as surpresas ainda não tinham acabado naquele dia. O rapaz estava tão atarantado com o circo todo que ele mesmo havia armado, que começou a gaguejar, e ao dar um passo à frente, para apertar a mão do meu pai, que muito a contragosto, lhe estendera, ele se desequilibrou, bateu com o pé numa das pontas dos tijolos que improvisavam o fogão de brasas, e foi o que bastou para escorregar e levar junto com ele o tacho onde o torresmo estalava de gostoso, e do qual ninguém ainda havia provado. Tião caiu de costas, com as duas pernas para o ar, embora ainda tenha tentado se apoiar com uma das mãos no chão, mas isso não bastou para evitar que o tacho fosse junto com ele pelos ares, derramando-lhe uma porção de gordura fervendo em boa parte de um dos braços.  E por pouco, não lhe sapecara o couro todo.

O que se ouviu em seguida, quase ao mesmo tempo que sua queda, foi uma gritaria, seguida de correria das pessoas até a sua volta, para tentar levantá-lo, o mais depressa possível, como se isso pudesse evitar o pior, que acontecido: uma senhora queimadura, de no mínimo, segundo grau. Pronto. Tava feita a desgraça, pensei. Mais um que vai sair daqui com "dois quentes e um fervendo", para repetir uma famosa frase de meus pais, sempre que não gostavam de algum abelhudo que aparecesse em nossa casa, sem mais nem menos, ocasião em que Tião se enquadrava, direitinho. Dessa vez, entretanto, chocados com a cena que haviam acabado de assistir, e com a queimadura horrível que se desenhava no braço do rapaz, meus pais  me permitiram levá-lo para dentro de casa, a fim de socorrê-lo. Como a dor era muito intensa, o moço berrava como um cabrito desgarrado e só com muito esforço meu e dos meus irmãos José e Gracindo, conseguimos arrastá-lo dali.

 Primeiro, levamo-lo até a varanda da cozinha, onde o encostamos na mureta, do lado de dentro, com as pernas esticadas no chão. Minha mãe e minhas tias correram para a cozinha e começaram a preparar uma pomada à base de agrião para queimaduras, que curava até as mais graves,  pois essa hortaliça tem  a capacidade de restaurar a pele entre uma semana e quinze dias. Enquanto isso, o Zé e o Cindo se revezavam na tarefa de ir colocando água fria em toda a extensão do braço queimado de Tião, para baixar a temperatura da pele, e evitar que o ferimento se aprofundasse, causando-lhe um estrago, ainda  maior. Logo mais, minha mãe chegou com a pomada caseira, que ela mesmo preparara, e com o jeito de quem não tinha nenhuma prática como enfermeira, puxou o braço de Tião, colocando a mão sobre o ferimento, o que o fêz berrar mais ainda de tanta dor. Mas minha mãe, que era acostumada a matar porcos, sem se incomodar com os seus gritos, não deu a mínima para o chororô do marmanjo que viera estragar o nosso Natal -- isso ela não lhe perdoaria, jamais -- segurou seu braço com uma das mãos, bem firme, e com a outra começou a espalhar a pomada sobre a queimadura, que estava quase roxa,  mas ainda não levantara a bolha. 

Terminado o trabalho, meus irmãos concluíram o curativo, enrolando-lhe uma gaze em quase todo o braço e depois fizeram-lhe uma tipóia, a fim de que Tião o mantivesse imóvel, pendurado contra o próprio corpo. Ao fim da tarefa, olhamos em volta e só então nos demos conta, que naquele dia não haveria mais almoço de Natal. Não havia mais ninguém no sequeiro, exceto meu pai sentado em sua cadeira de balanço, fumando seus mal-cheirosos cigarros de palha, alheio a tudo que havia acontecido a sua volta, como se não pertencesse a esse mundo. Detalhe: ele não sofria do Mal de Alzheimer, não. Era o seu jeito de expressar-se, quando as coisas saíam do seu controle ou algo o desagradava muito: alheava-se, ficava quieto no canto, não falava nem ouvia ninguém. Às vezes, permanecia assim, por até dois ou três dias, sem dizer um "a". Como já o conheciamos bem, não nos atreviámos a mexer com ele, senão ele incorporava o personagem do Urtigão e punha todos para correr, até mesmo de sua sombra. Eu apenas vislumbrei-o de soslaio, e entendi o recado. Meu pai estava puto da vida comigo. Mal sabia ele que  eu não tinha culpa nenhuma daquela armação. Eu, como todos nós ali, nunca tínhamos visto o tal sujeito de terno branco, nem nos nossos mais remotos sonhos. Então, eu me lembrei do ponto em que havíamos parado, segundos antes do encontro desastrado de Tião com o fogareiro e o tacho de torresmo: quem era ele? De onde viera? Onde morava? quem eram os seus pais, etc...etc...etc...enfim, o interrogatório básico sobre sua pessoa ainda martelava na minha cabeça.

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