E nao é que era ele? Sim, ele mesmo, o moço do terno branco, do chapéu Panamá e que me oferecera uma jóia de presente, na véspera de Natal, quando me pegara distraída, enlevada com o brilho das vitrines. Alguém já devia ter contado alguma coisa a minha mãe, pois notei que ela deixara o tacho lá sozinho, com os torresmos pulando alto e alguns até caindo para fora, mirara em minha direção e partira para cima de mim, decidida a saber do que é que se tratava aquela visita inesperada. Entretanto, eu estava tão chocada quanto ela, mal podia acreditar no que estava vendo, outra vez: não bastasse a ousadia de me oferecer um presente caro, sem nem me conhecer, o sujeito descobrira o sítio onde eu morava e se autoconvidara para vir passar o almoço de Natal comigo, e com minha familia. Oi???Era isso mesmo???
Mas não me dei ao trabalho de responder a sua pergunta e já me vi correndo para o banheiro, para ver se estava minimamente, bem vestida: tirei o lenço da cabeça, o avental, ajeitei os cabelos, enquanto ouvia minha mãe me chamando lá na entrada do sequeiro. Nheta, oh, nheta, tem um rapaz aqui perguntando por você. Você o conhece? Enquanto isso, eu desci a escada que havia na porta da cozinha, e caminhei uns dez passos pela calçada, que dava no meu jardim de rosas, alcançando o portão. Dali, o moço do terno-branco poderia me ver e eu não precisaria passar com ele pelo meio do sequeiro, expondo-nos a todos os presentes. Minha mãe me viu primeiro, e apontou-me para ele, virando-lhe as costas, em seguida. Enquanto ele vinha na minha direção, eu ainda pude vê-la recolocando o avental, caminhando de volta ao tacho, e balançando a cabeça, em sinal de reprovação. Quando voltei o rosto para a frente, Sebastião já se encontrava ali exibindo um exótico sorriso com dois dentes caninos de ouro, para meu maior espanto -- as surpresas com ele pareciam não ter fim -- enquanto abria uma caixa forrada com um veludo bordô, onde o colar, pelo qual eu me apaixonara, se oferecia com todo a sua beleza imaculada de pérolas.
Uauuuuuuu. O colar era mesmo lindo, e é claro que eu tinha ficado feliz com a surpresa, mas não poderia ir aceitando-o assim, sem mais nem menos, ainda mais de um desconhecido, que eu estava encontrando pela segunda vez na vida. Tá certo que em circunstâncias totalmente inesperadas, cheias de mistério e romantismo, mas eu já não tinha vinte anos, era uma mulher feita, com quase trinta anos, e só não tinha me casado ainda, por causa da rabugice do meu pai, para quem, nenhum dos pretendentes que me apareciam estavam a minha altura. E não tinham sido poucos. Para o velho Antonio, nenhum era rico, trabalhador, honesto ou me amava o suficiente. No fundo, acho que meu pai tinha era ciúme de mim, e não queria dividir a filha dele com outro homem, ainda que fosse meu marido. Enfim, nunca soube nem saberei porquê ele agia assim comigo, visto que com minhas irmãs, as coisas tinham se passadode outro modo. Minha irmã Cecília, cinco anos mais nova, já havia se casado com o grande amor de sua vida, o Nato, aliás, Fortunato era o seu nome, e o cara era mesmo um afortunado. Não no sentido de riquezas materiais, pois era filho de um sitiante vizinho, com posses iguais as nossas. Mas desde o dia em que ele bateu os olhos na Cília -- esse era seu apelido de criança -- e ela, nele, os dois nunca mais se desgrudaram, mesmo ainda sendo adolescentes. Se apaixonaram, namoraram por uns sete anos, noivaram e casaram, sem nenhum óbice do meu pai. Com a Divina, minha irmã mais velha, a estória não tinha sido diferente: ela e o Joaquim se conheceram em um dos famosos bailes de nossa túlia, e não tardou para que ele pedisse a mão dela em casamento, como era costume da época, ao meu pai. Todos os anos, para celebrarmos a colheita de café, promovíamos um mês de festas regadas a muito vinho e música sertaneja, no silo construído para abrigar os sacos de café, enquanto aguardavámos os compradores. Esperto e muito mão-de-vaca, para não gastar nada com o próprio noivado, ele aproveitou um desses bailões, apareceu com um par de alianças , e lá pelas tantas, quando ninguém mais conseguia dançar nada, só gargalhar alto pelo excesso de vinho, ele puxou a minha irmã num canto, tascou-lhe um beijo, e enfiou-lhe a aliança num dos dedos. Espertíssimo o moço, pois quando foi falar com o meu pai, no dia seguinte, a estória do noivado já tinha corrido léguas, e seu futuro sogro não iria ser tonto de promover a desgraça da própria filha, impedindo o seu casamento.
Já quando o caso era comigo, nada nunca dava certo. Azar, falta de criatividade dos candidatos, pouco interesse da minha parte, também, enfim, os motivos poderiam ser vários. Dificil era decidir aquilo que já parecia ser o meu destino de velha solteirona. Sim, porquê uma mulher balzaquiana nos anos 50, ainda dentro da casa dos pais, era sinônimo de encalhada. Creio que tudo isso passou como num filme rápido na minha cabeça, quando vi aquele colar, que eu havia gostado tanto, estendido prá mim, assim, com as duas mãos, por aquele cavaleiro, ao mesmo tempo tão estranho e que já me parecia tão familiar, a minha frente. Não pensei duas vezes. Peguei a caixa, tirei o colar de dentro dela, coloquei-o no meu pescoço e virei-me de costas para que Tião o abotoasse, para mim. E assim, me sentindo a Cinderela do filme cujo sapato perdido é encontrado e lhe é trazido pelo príncipe encantado, eu peguei o rapaz pelas mãos e entrei com ele pelo portão da frente do sequeiro. Rapidamente, um corredor de curiosos se abriu entre nós, e eu entrei de braços dados com ele, pisando em nuvens e com o coração batendo muito forte, exibindo o colo e o colar para as pessoas que esticavam os seus pescoços, entre incrédulas e deliciadas com a cena inusitada. O sol ia alto no céu, minhas bochechas queimavam, o suor escorria pelas costas, mas não desisti até chegar perto do fogão de barro improvisado, onde o tacho de torresmo crepitava, e meu pai e minha mãe, encostados um no outro, me esperavam, ambos com a boca aberta e a maior cara de espanto. Não deixei que falassem uma palavra primeiro e já fui-lhes apresentando o Tião, seu colar de pérolas -- que agora era meu --, e contando-lhes como o conhecera na noite anterior, antes da Missa do Galo, em Assis, e, antes que dissessem um "a", informei-lhes que ele era meu namorado, e que a partir daquele momento, queríamos as suas bençãos para o nosso casamento.
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