Meu pai era domador de cavalo chucro. Daqueles que nunca tinham visto um arreio na vida. Garanhão, de preferência. Alazões, tordilhos, pampas, negros, brancos, a pelagem não importava. Ele pegava o bicho de jeito, botava-lhe o cabresto, segurando-o bem curto, e pulava-lhe sobre o lombo. O animal, assustado, empinava. Depois, jogava o corpo de um lado para o outro, boileava, dava coices até na sombra, só para derrubar o cavaleiro. Mas que nada. Tião Mirante, como era conhecido, era o peão mais talentoso das redondesas. A cada cavalo domado, sua fama corria léguas.
Eu, muito pequena, ainda – devia ter uns seis anos – por essa época, ficava espiando tudo pela porta entreaberta da sala, sem coragem para sair lá fora. Vez ou outra, quando o bicho saltava muito, ajoelhava e pedia para Nossa Senhora que lhe protegesse, que não o deixasse cair, pois não queria ver meu pai estendido no chão: morto. Não entendia aquela coragem. Intrigava-me tanta fúria. Homem e animal se fundiam numa imagem agressiva, onde domador e domado eram uma coisa só. Uma só vontade: o domínio sobre o outro.
Quando, finalmente, o cavalo desistia de pular, pois meu pai jamais saia de cima de seu lombo, estava pronto para ser selado e ir para a lida da fazenda. Puxar carroça, agora, seria o seu destino. Quando muito, uma charrete, nos finais de semana, quando iríamos para a cidade, às missas domingueiras, e depois comer pipoca e tomar sorvete, assistindo ao coreto da praça. Mas isso era coisa rara de acontecer. Uma ou outra vez por ano, às vezes na Páscoa, outra no Natal, quando, com o dinheiro da colheita do café, era época de comprar roupas e sapatos. Me lembro de uma cena que se repetiu durante vários anos, comigo e todas as minhas irmãs sentadinhas, lado a lado, descalças, enquanto o vendedor ia tirando e pondo sapatinhos, um pé, sim, outro não. E a cada ano, aumentavam os pés. Ou os sapatos, não sei, porquê criança, lá em casa, não nascia: esporulava. Todo ano, a cegonha trazia mais um bebê. Eita cegonha certeira, meu Deus. Ela nunca errava a pontaria, deixando as crianças caírem no vizinho.
Mas, por aqueles anos, a cegonha e sua história para boi dormir estava com os dias contados. Numa madrugada, minha mãe me acordou, em prantos. Meu pai não estava em casa. Minhas irmãs – Rafaela e Rebeca– dormiam seus sonos de anjos. Então eu descobri porquê ela estava com aquela barriga imensa. Havia mais um bebê a caminho, e dessa vez, a cegonha teria que se transformar na parteira, d. Aparecida. Minha mãe me pediu, chorando, que fosse correndo até a casa dela, e que a trouxesse para ajudá-la no parto. Eram umas quatro horas da manhã, estava muito escuro lá fora, só se ouvia o latido de cães e o coaxar de sapos. Eu não estava entendendo direito aquela história, mas não tinha tempo de perguntar mais nada. Sabia que a vida de minha mãe corria perigo, e saí numa corrida desabalada.
Nossa casa ficava na parte mais alta de um terreno em declive, que acabava num riachinho, lá embaixo. Lembro que corri muito, e quando cheguei ao rio, fiquei com medo de atravessá-lo, pois não sabia nadar – até hoje não sei!!! Então, respirei fundo e saltei, com todas as forças e altura que minhas pequeninas pernas conseguiram, e alcancei a outra margem, sem cair na água. A casinha da parteira já se avistava, mas eu ainda teria que andar mais um quilômetro, mais ou menos, para chegar até lá. Eu só pensava na minha mãe lá sozinha, que resolvera ter um filho sem a visita da cegonha, e corria mais ainda. Quando cheguei à porta do casebre, a noite se fantasiou de cães negros, que vieram me cercando, latindo muito a minha volta, e ameaçando me atacar. Meu coração disparava de medo. Minha voz nem saía direito, mas me lembro de gritar o nome da D. Aparecida, seguidamente, não sei quantas vezes.
Derrepente, uma janela começou a se abrir, com aquele barulho de dobradiças que choram lágrimas de ferrugem, e a sombra de um rosto feminino foi desenhada pela lua, revelando seus cabelos negros, soltos e desalinhados. Levei outro susto com aquela aparição fantasmagórica, pois a mulher que eu tinha vindo buscar, usava os cabelos trançados e enrolados em volta da cabeça, sempre muito distinta, com jeito de rezadeira. E a mulher descoberta pela lua, tinha cara de feiticeira. D. Aparecida esticou o pescoço fora da janela e logo me reconheceu, no meio dos cães que continuavam latindo, muito bravos. Ela soltou um grito e a cachorrada estacou, derrepente. Um ou outro, ainda uivava. Eu fui perdendo o medo e dei mais alguns passos para chegar até a porta. Ela me perguntou o que eu queria e fui logo dizendo que minha mãe estava lá em casa, sozinha, e com um bebê na barriga. “Ela me pediu para vir buscar a senhora correndo, pois a cegonha não pode vir dessa vez”, gritei.
D.Aparecida me abriu a porta e me arrastou para dentro de uma cozinha pequena, de chão batido. Havia um banco de madeira, bem tosco, com uma moringa dágua sobre ele, num canto. A mulher embrulhou os longos cabelos em um xale preto e, de camisola mesmo, sentou-se no banco, dobrou a moringa sobre os joelhos, e encheu uma bacia velha com a àgua fria do pote. Lavou os pés muito brancos e calçou umas botinas bem gastas, próprias para andar naqueles terrenos encharcados. Então, aprumou-se, me pegou pela mão, e saímos as duas em disparada, de volta a minha casa.
Continuo não me lembrando como atravessei o riacho, outra vez. Mas, enquanto corríamos, ela ia rezando em voz alta, rogando as santas protetoras das mães desamparadas que tivesse piedade dela, da minha mãe grávida, e de todas as outras mães do mundo. Eu não sabia se a ajudava na reza ou se chorava, porquê sentia que podia perder minha mãe, e ficava com ódio da cegonha daquele ano, preguiçosa, que não quisera trazer mais um irmãozinho do mesmo jeito que os outros, enrolado num pano e pendurado no bico, como sempre.
D. Aparecida corria muito, quase me arrastando, e eu olhava o céu, cheinho de estrelas, e com uma lua imensa, que clareava nosso caminho na terra. Sentia muito medo e frio, e corria o máximo que minhas perninhas podiam. Afinal, chegamos em casa. E graças a Deus, minha mãe não estava mais sozinha. Meu pai já estava com ela e a ajudava no trabalho de parto. A parteira foi para a cozinha, pegou todas as panelas e caldeirões que encontrou pela frente e encheu-os com água do pote. “Bom mesmo seria água quente, mas com fogão à lenha, não podemos nos dar a esse luxo”, ela resmungava, enquanto ia levando as vasilhas para o quarto.
Claro que minha ajuda e companhia foram dispensadas assim que chegamos à porta da casa. "Criança não pode saber dessas coisas", foi logo avisando meu pai, indicando-me o caminho do cômodo, onde dormiam minhas irmãs pequenas. Deitei-me ao lado delas, e fiquei lá, quietinha e tensa, atenta a qualquer barulho que viesse do quarto de minha mãe. Sabia que dentro de poucos minutos, haveria mais um bebê na casa, e só conseguia pensar em como seria sua carinha, se seria parecida comigo, com a Rafaela, que era moreninha, de cabelos encaracolados, ou com a Rebeca bem polaquinha. Mas a Marcita não saiu parecida nem comigo, nem com nenhuma das outras duas. Ela chegou chorando forte, mas determinada a viver, apesar dos seus pouco mais de um quilo e meio, muito abaixo do peso e tamanho ideais para um bebê saudável. Tinha o cabelo castanho bem escuro, que, com o tempo, também seria cacheado, e os traços de seu rosto, cuja cabeça cabia na palma de uma mão, eram bem desenhados.
Poucos dias após aquele tumultuado parto, minha mãe já estava em pé, levando cavalos para pastarem e tirando àgua de poço bem fundo. Logo, sobrou para mim a tarefa de cuidar daquela criança recém-nascida. Com apenas seis anos, eu já fora recrutada para a tarefa de babá, embora não soubesse, ainda, nem tomar banho sozinha.
3 comentários:
Marisa, que história linda. Nem parece que é de alguém que eu conheci em São Paulo, cidade grande...
Que legal, uma irmã chamada Rosângela! Nossa, legal você ter começado a escrever uma estória, você escreve de uma maneira deliciosa de se ler, vá em frente!
Rô
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